Café com a Esfinge

O prédio ficava na ponta da praia, de frente para o mar, era baixo, como ainda eram a maioria dos edifícios naquela época. Cheguei às 8h, gostaria de ter vindo antes, pois haviam me dito que ela levantava entre 4 e 5h, pois gostava de usar as horas em que as demais pessoas dormiam para escrever, quando tudo era quietude e só se ouvia o barulho das ondas, afinal estas não dormem nunca. Porém, como vinha de surpresa, apenas mais uma fã a incomodá-la, queria tornar minha presença o menos chata possível.

Passei pela portaria, que estava vazia, e resolvi subir pelas escadas. Nunca gostei de elevador, é uma máquina que sempre me lembra os filmes de suspense, em que durante uma perseguição a geringonça para entre um andar e outro e só o que o personagem vê a sua frente é uma parede de tijolos, só de pensar em passar por uma situação dessas eu perco o ar, o melhor para mim sempre será a escadaria.

Quando cheguei à frente da porta do apartamento senti meu coração parar por dois minutos, que foi o tempo que levei para apertar a campainha, agora não tinha mais volta. Uma mulher com uniforme abriu a porta.

“Pois não?”

“Dona Clarice está?” Meu músculo cardíaco, que estava quase falhando, começou a bater num ritmo acelerado, a mulher de uniforme olhava para meu peito que arfava debaixo da camiseta do colégio.

“Quem quer falar com ela?” Ela parecia totalmente indiferente, como se estivesse acostumada com uma situação que para mim era das mais inusitadas.

“Meu nome é Marcinha, foi seu Lúcio quem me mandou aqui. Preciso de umas informações para um trabalho do colégio.” Minhas mãos tremiam segurando o caderno universitário.

“Só um segundinho, vou ver se ela pode te atender.” E saiu rebolando os quadris, que para mim, uma menina de 14 anos, pareciam gigantescos.

Não demorou mais do que uns 30 segundos, os quais pareceram 30 horas. Eu conseguia ouvir todos os barulhos da casa, a voz dos meninos brigando, o cachorro roncando, o chinelo da mulher de uniforme se arrastando pelo chão e o tilintar de uma máquina de escrever, que parou por uma fração de minuto e depois voltou a ativa.

“Pode entrar, se foi seu Lúcio que te mandou ela vai te receber.” Ao dar o recado, abriu passagem com o corpanzil para que eu entrasse.

O apartamento não era grande, mas também não era pequeno. Era um apartamento comum à classe média carioca daquela época. Vi por uma porta que estava aberta os dois meninos à mesa tomando café e jogando bolinhas de pão um no outro. Ela estava sentada em um sofá que ficava na sala, a porta de vidro que dava para a varanda estava aberta e eu senti em cheio o cheiro de maresia invadindo todos os meus cantos. Em uma mesinha em frente a ela, estava a máquina de escrever, e ao seu lado, deitado, o cachorro preto e amarelo que a acompanhava pelos seus passeios pelo bairro. Diziam que tinha o mesmo nome do livro de James Joyce, ou seria uma homenagem ao herói grego? Fato é que ele a salvara de um príncipio de incêndio há alguns anos, era mesmo um herói o Ulisses.

Ela se levantou ao me ver entrar, me deu a mão e pediu que sentasse. Não falava muito, esperava que seu interlocutor tomasse a iniciativa, isso eu já sabia, seu Lúcio havia me prevenido. Por isso, e pela ansiedade que tomou conta de mim, desatei a falar. Ela me olhava com aqueles olhos rasgados e escuros, adivinhando em mim a menina que eu era, mas que fingia não ser.

Respondia com calma a todas as minhas questões, as quais eu tinha anotado no caderno para não esquecer. Sua fala era arrastada, com um leve sotaque do Nordeste, acho que tinha a língua presa. Eu precisava prestar muita atenção para entender o que ela dizia.

Lá pela sétima pergunta, me ofereceu um café com bolo de fubá. Aceitei sem hesitar, já eram quase nove horas e eu estava de pé desde às cinco. Yvone, foi assim que ela chamou a mulher de uniforme, trouxe uma bandeja com dois pedaços de bolo e duas xícaras pequenas de café. Clarice deu metade do seu bolo para o Ulisses e tomou todo o café, depois acendeu um cigarro, recostou-se no sofá e esperou pela próxima questão.

Não sabia mais o que dizer depois que lhe fiz a última pergunta do questionário. O objetivo que me levara ali, a entrevista para a escola com a famosa escritora, estava cumprido, mas eu não sentia vontade de ir ainda, queria perguntar-lhe mais, saber sobre coisas que não constavam nas questões orquestradas pelo grupo escolar.

Ela me olhava por detrás da fumaça do cigarro, calculando em sua mente tão previlegiada qual seria meu próximo passo. Minha mão suava tanto que a capa dura do caderno estava molhada. Arrisquei dizer-lhe que escrevia e que queria um dia, quem sabe, ser como ela.

“Não desejo isso para ninguém, nem para os inimigos. Ser como eu seria uma tortura para você.” E deu mais uma tragada no cigarro, que já ia quase pelo fim. “Eu só vivo quando escrevo, nos intervalos entre um livro e outro, entre um texto e outro, eu me sinto morta. E a inspiração não é algo que surja a toda hora, então você pode imaginar quanto tempo passo mais morta do que viva.”

Quando lhe disse que tudo o que ela escrevia me tocava tão fundo e que era como se seus livros reproduzissem o que eu era no meu mais íntimo espaço, ela respondeu que isso não conseguia entender, porque havia coisas que escrevia que nem ela entendia. Apenas, escrevia como uma possuída e depois não entendia o que diabos queria dizer com aquilo.

“Teve uma coisa que escrevi há muitos anos que não entendo até hoje. Havia um sujeito, bandido procurado, que foi morto pela polícia com 13 tiros. Você sabe o que são 13 tiros? Um tiro só é o suficiente para matar alguém, talvez dois, mais que isso é vontade de matar, é prepotência. E o sujeito era bandido, mas era um ser humano como eu, como você, ia casar, era devoto de São Jorge.” Usou a bituca para acender um outro cigarro, tragou-o e olhou para mim. “Treze tiros menina, eu senti que o décimo terceiro tiro que ele levou foi para mim. Você consegue entender isso?” Balancei a cabeça negativamente. “Pois eu também não consigo. Até hoje, não entendo.”

Foi ali que vi que nossa conversa terminara, não sei se para ela, mas para mim havia terminado. Despedi-me, agradeci muito e saí. Na rua, o sol estava a pino, o calor era tanto que no asfalto havia ondinhas de fumaça. Atravessei a rua e me sentei em um banco em frente ao mar. Abri o caderno e rasguei todas as folhas com as respostas que ela, gentilmente, me dera.

Anos depois, eu já havia terminado a faculdade de Letras e estava me preparando para deixar o país, li no jornal que ela havia falecido depois de um período sofrendo com um câncer, e que quando o taxista a levou ao hospital junto com a amiga — hospital do qual só sairia para o cemitério judaico — ela disse a eles: “vamos fazer de conta que estamos indo para o aeroporto e de lá vamos embarcar para Paris, e que amanhã estaremos tomando café, quem sabe um vinho, num daqueles cafés tão charmosos. É assim que a vida deve ser imaginada.”