Resta essa comunhão com a vida

Quando eu nasci era verão no Hemisfério Sul, o Brasil era tricampeão mundial de futebol — o que deixara o país em estado de graça — e a repressão se intensificava tentando destruir o pouco de bom senso que havia.

Hoje, olhando fotos antigas em busca de uma que me servisse de capa, toda a memória familiar e do país cruzou com vagar pela minha mente. Na foto a minha frente, estavam meus pais saindo de um carro em alguma estrada das tantas percorridas por eles — talvez fosse Goiás, talvez fosse Minas — em suas viagens sem muito sentido para mim e meu irmão.

Na fotografia com a Pitti, a moça que cuidava de nós, eu pareço mais branca do que sou enfeitada dentro do meu vestido vermelho, o orgulho negro da Pitti dá o contraste, somos o avesso uma da outra; e como eu adorava a Pitti, que era pouco mais que uma menina.

Abro mais uma caixa de fotos e nada de encontrar a foto para capa, talvez tenha eu mesmo de fazer a foto, mas como reproduzir os anos 70? Como reproduzir o sentimento de uma época, o sentimento das pessoas? É possível reproduzir sentimento? Melhor continuar procurando.

Vejo meus irmãos mais velhos arranjados numa escadinha, do maior ao menor e eu no colo de meu pai, devia ser o dia do meu batizado, estou com um vestidinho rosa que guardo até hoje, e quando olho para ele me pego pensando na criança que fui, e me pego procurando por ela dentro de mim. Em que ponto foi que ela atravessou a ponte que conduz a todos nós, inevitavelmente, para longe da magia, do deslumbramento?

A maioria daquelas pessoas já havia desaparecido, algumas levadas pela morte e outras pela vida. Afinal, quem eram aquelas figuras que o tempo se encarregou de tornar opacas? Para mim, muitas vezes, eram como personagens queridos de um livro que fora bom de ler, mas que havia terminado há muito tempo e deixado saudade.

Depois de passear por todas essas vidas expostas pela Polaroid, inclusive pela minha própria vida, finalmente encontrei o que procurava. A foto em branco e preto com a moça de mini saia cruzando uma rua qualquer nos extintos anos 70.

E depois de achá-la entre tanta gente o que me restou foi a percepção de que a vida é uma contagem regressiva, ao contrário do que as pessoas pensam — ao menos a maioria delas — para contar a vida deve-se usar o sinal de menos e não o de mais.

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