1994

Hey ho, let’s go
Shoot’em in the back now
What they want, I don’t know
They’re all revved up and ready to go

Como falei no final do post 1993, 1994 foi um ano bizarríssimo também, como todo décimo-sexto ano da vida de qualquer um.

Logo no comecinho do ano, eu conheci um cara. Ok, isso soou gay. Mas enfim, esse cara se tornou o meu melhor amigo, e é até hoje. O Charles, companheirão de muitas indiadas e explorações nos mundos de Dungeons & Dragons.

Mas naquela época não jogávamos RPG. Ainda, pois 1994 foi o ano em que eu comecei a jogar RPG. Mas tudo a seu tempo.

Era o casamento da Cristiane, vizinha da praia, e o Charles era meio que aparentado dela e, ao mesmo tempo e de uma forma bizarra, semi-aparentado da minha então ex-major crush e atual namorada na época. Putz, a gente ficou amigo meio que automaticamente. A gente passava o maior tempo do universo jogando video games e vendo filmes antigos de terror.

Como todo mundo sabe, eu faço aniversário em janeiro. No dia do meu aniversário eu fui na casa do Charles na praia (ele morava naquele cu de mundo na época) e conheci dois grandes amigos dele que se tornaram grandes amigos meus também: o Ewerton e o Helder. Meu dia estava perfeito. Quatro nerds reunidos falando de video games, filmes de terror e outras coisas foda.

Quando chega a noite, chega a minha namorada, vinda de Porto Alegre e me dá um pé na bunda. Na época eu meio que não entendia direito como relacionamentos funcionavam e tinha problemas sentimentais. Não, eu não era um emo, não, não chorei que nem uma guriazinha. Foi mais um “É? Tá, que que eu posso fazer?” Acho que ela ficou meio chateada comigo por causa disso. Acabamos ficando durante o carnaval, mas foi só uma vez e foi definitivamente errado.

Fim do verão, volta pra Porto Alegre, último ano do segundo grau. Eu estive meio perdido das idéias nesse ano, too much rebel spirit, sacomé.

Eu tava indo relativamente mal no colégio naquele ano, eu odiava tudo e todos. Com exceção de física, matéria que eu estava indo realmente mal. Não queria saber de estudar, não estava nem aí. Eu tinha minha guitarra, meu computador, meus livros e meus filmes de terror e era isso o que importava.

Daí, em abril, POW: meu ídolo da adolescência, a razão de eu esmurrar acordes em minha guitarra bagaceira, resolve meter uma bala na cabeça. Kurt Cobain já era e, com ele, o Nirvana. Eu não lembro ao certo de como me senti quando a Cristiane (aquela que casou) me contou isso no Shopping Praia de Belas. Faz tempo pra caralho, mas lembro que aquilo me afetou e muito.

Um dia, em casa, tocando guitarra, resolvi mudar. Não MUDAR, só mudar. Cortar o cabelo que eu cultivava como se fosse um monstro desde 1991. Peguei uma revista de rock onde tinha uma foto do Sid Vicious e levei até a Video Hair. O poser que me atendeu falou, com um biquinho: “Tem certeza?” “Toca ficha”, respondi.

Mudanças visuais radicais são estranhas. Eu sentia que todo mundo olhava pra mim de uma forma estranha. Quando cheguei em casa, minha mãe falou: “Por que ele colocou gel com purpurina no teu cabelo?” e eu, atônito, respondi “QUÊ?”

Pois é, o filho da puta do cara da Video Hair resolveu me sacanear e eu nem percebi. Daí eu descobri porque todo mundo me olhava na rua. Tomei banho pra tentar tirar a purpurina, mas não saiu muito. E me toquei pra praia.

Quando o Charles me viu, perguntou “Por que tu pediu pra ele cortar o teu cabelo igual ao Fernando Collor de Mello? E… por que diabos tem purpurina nele?”

Cabelereiro filho da puta. Levei quatro dias tentando tirar os resíduos de purpurina do cabelo.

De volta às aulas, encontrei um cara estranho no colégio, era mais velho, usava barba e vivia de terno. Sim, ele era aluno. Ele andava pra lá e pra cá com uns livrinhos estranhos, folheava pra um lado, folheava pro outro. Uma vez eu cheguei pra conversar com ele, pegávamos o mesmo ônibus pra ir pra casa. Eram os livros jogos da coleção Aventuras Fantásticas. Perguntei pra ele onde ele tinha conseguido aqueles livros e se aqueles eram livros de RPG.

Ele me respondeu “não, mas lá onde eu comprei esses tem vários livros de RPG.” Daí ele me falou duas das palavras mais importantes que eu ouvi na minha vida (vou colocá-las em negrito até): Planeta Proibido. Depois de experimentar com uns livros-jogos, entrei de cabeça no mundo do RPG com a velha caixa preta do Dungeons & Dragons, comprada por 45 URV na Superfestas.

Quando fui pra praia, eu e o Charles aprendemos, na raça, a jogar. A gente criava várias aventuras, adaptava dos livrinhos Aventuras Fantásticas e fazíamos miséria com o jogo. A gente mestrava em dupla pra três amigos nossos.

Lá pelo meio de maio, meu colégio ficou chocado com a morte de quatro alunos num acidente de carro na Nilo Peçanha. Eram todos da minha sala de aula mas, no auge do meu autismo anti-social, não conhecia nenhum. Fiquei meio “whatever”.

Nessa mesma época o Charles me ligou, dizendo que tinha visto um filme foda e que eu deveria assistir ou morrer: Pulp Fiction. Assisti e concordo com a minha Dani quando ela fala que é o Casablanca da nossa geração.

Chegaram as férias de junho e, com elas, a Copa do Mundo. Eu cagava pra futebol naquela época. Era Colorado só por dizer, não acompanhava, não sabia nome de jogador, nem nada. Mas depois do Tetra, eu passei a acompanhar de perto o meu time (péssimo timing, devo dizer, já que em 96, 96 e 97, só deu Grêmio em todos os lugares).

Mais ou menos nessa época eu tava pegando uma colega do Yázigi, minha escola de inglês. Ela era apaixonada por mim, mas eu não tava nem aí pra ela, só queria ter alguém pra agarrar sem ter que ficar saindo à noite e gastando dinheiro pra isso. Hoje eu me arrependo da forma como agi com ela, ela realmente gostava de mim e eu agi como um completo idiota, especialmente quando fiquei enrolando ela quando decidi não ficar mais com ela, até que culminou no ponto em que eu deixei ela chorando no pátio do Yázigi. Mas eu era um guri ainda e eu não sabia como funcionavam os relacionamentos. Mas de qualquer forma, ela era uma guria legal e hoje eu aprendi que um relacionamento, mesmo que informal, deve ser terminado de uma forma decente (eu fiz isso com uma pegadinha em 2006, mas ela me bateu, ou seja, não sei se realmente vale a pena o trabalho de chamar a guria pra conversar e etc. pra dar uma merda dessas).

Eu estava cada vez mais punk. Meu cabelo Fernando Vicious de Mello foi raspado. Andava sempre de coturnos, calças camufladas e camiseta do Agnostic Front. Daí eu descobri uma banda foda: Raimundos. Sim, naquela época eles eram foda. Pornograficamente foda.

Quando descobri que eles lançaram um CD, fiquei ligando pras lojas, mas ninguém conhecia. “Ô fulano, tem o CD do tal do Raimundo?”, falou o atendente das Lojas Colombo na época.

Eventualmente comprei o CD e eles vieram a Porto Alegre pra tocar no Opinião. Show foda. O pogo comendo solto. Tinha um skinhead lá, gritando coisas como “Vão todo mundo se foder! Quero que vocês morram!” e coisas do tipo. Na saída do show ele continuava gritando e eu mandei meio que um “Ah, vai se foder!” ou algo que o valha.

E ele me viu.

Não fez nada, só olhou pra mim. E eu me caguei de medo.

No dia seguinte eu tinha prova de química. Tirei dez, morrendo de sono e de dor das cotoveladas do mosh pit.

Um tempinho depois, a grande notícia: show dos Ramones em Porto Alegre, com abertura dos Raimundos e do Sepultura. Caralho, melhor que isso impossível!

Um dia antes do show, uma colega do Yázigi (não aquela) me liga: “Fabiano, vem no Bar do João tomar uma ceva comigo. Quero te apresentar uma pessoa.” Eu não tava nem um pouco a fim de ir. Tinha o show no dia seguinte e não tava a fim duma noitada muito menos duma ressaca no dia seguinte. “Tu vai se arrepender se não vier”.

Eu fui. E, no dia 3 de novembro de 1994, fiz uma coisa que vou contar pra todos que cruzarem no meu caminho: naquele dia eu tomei uma cerveja quente e ruim junto com o C.J. Ramone.

Dia seguinte, dia do show. Aquela puta fila pra entrar no Gigantinho. Punks, skatistas, headbangers… e eu. O show dos Raimundos foi legal, mas o do Opinião tinha sido bem melhor. Aí veio o Sepultura e o Gigantinho veio abaixo. A pista inteira era uma roda imensa de pogo.

Foi quando eu vi um pênis ambulante vindo na minha direção. O skinhead do show dos Raimundos tinha me encontrado. Botinaço no meu joelho, minha perna girou ao contrário.

Resultado: metade do show do Sepultura e eu puto da cara sentado na arquibancada. O show foi foda, mas o melhor da noite ainda estava por vir.

As luzes todas se apagam. “Hey ho! Let’s go!” em uníssono no Gigantinho. Daí começa a tocar The good, the bad and the ugly, do filme Três homens em conflito, e os Ramones entram no palco.

“One, two, three, four!”, eles começam a tocar. “One, two, three, four!”, eles tocam mais um clássico. É “One, two, three, four!” + um clássico a noite toda.

Como explicar como foi o show dos Ramones é complicado. Ramones é uma banda que está em outro patamar na música universal, é um show que tu não decide se vai ou não. Ir é mais que uma obrigação, é um privilégio.

O show termina, as luzes se acendem e o povo começa a ir embora. De repente, com as luzes acesas mesmo, o C.J., o Johnny e o Marky entram correndo e “One, two, three, four!”, tocam R.A.M.O.N.E.S., do Motörhead.

Eu vejo um tsunami de pessoas se formando na pista, voltando desesperadas pra mais uma música. Pra minha sorte eu ainda estava na arquibancada quando isso aconteceu.

Fim do show, eu me dirigo lenta e dolorosamente pra minha casa, mancando do joelho direito. Dia seguinte, no colégio: no empurra-empurra da saída, bato com o mesmo joelho no corrimão da escada. Excelente. Sábado, na praia, o Charles dá uma voadora pra entrar na piscina e… acerta meu joelho direito. Even better.

E o final do ano chega. Eu, como tinha estudado no Colégio Cruzeiro do Sul desde o jardim de infância, ia receber uma placa na formatura, ia ser homenageado, etc.

Mas como eu rodei em física, nada disso aconteceu.

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