Scream for me, Porto Alegre!

The bugle sounds as the charge begins
But on this battlefield no one wins
The smell of acrid smoke and horses breath
As you plunge into a certain death

Minha história com o Iron Maiden vai longe. Tudo começou lá pelos idos de 1984, quando o meu primo Beto voltou a morar em Porto Alegre depois de ter passado uns anos morando em São Paulo.

Um belo dia eu estava na casa dele e o irmão mais velho, o Marcelo, nos chamou, tinha umas músicas pra nos mostrar.

Eu lembro até hoje das músicas (até porque as gravei e as ouvi por anos sem conta!): Running free, The phantom of the opera, The number of the Beast, Run to the hills e Aces high.

Aquilo me marcou de tal forma que nunca esqueci, especialmente Aces high. O Iron tinha entrado na minha vida.

Aí o ano virou e em janeiro teve o primeiro Rock in Rio, com o Iron Maiden fazendo parte das bandas escaladas. Na mesma época teve uma promoção da Pepsi, tu juntava sei lá quantas tampinhas e trocava por um copo personalizado da banda que tu queria.

“Mãe, quero o copo do Iron! Mãe, quero o copo do Iron!”, dizia eu.

Mas pra Porto Alegre só vieram os copos da Nina Hagen (era difícil ser criança em Porto Alegre no início dos anos 80: de todas as coisas legais que tu via na tv, 0% delas vinha pra cá).

O tempo foi passando, eu fui crescendo. Lá por 1988, eu ganhei meu primeiro som, um micro-system com rádio e toca-fitas. Minhas primeiras duas fitas foram, óbvio, do Iron Maiden: Live after death e Seventh son of a seventh son. Eu queria muito o The number of the Beast e o Powerslave mas, ei, eu moro em Porto Alegre e ainda era a década de 80. Já me dei por feliz de encontrar Iron Maiden por aqui.

Vieram os anos 90. Eu e o Beto começamos a tocar guitarra, e o Iron Maiden era presença garantida no nosso repertório privado para zero espectadores. A fita cópia da cópia da cópia da cópia mal gravada do show do Live after death não saía do meu vídeo cassete. Eu não conseguia ver nada direito, cada uma das cópias anteriores tinha sido gravada numa velocidade diferente, mas isso não era um problema, porque, de alguma forma, eu conseguia ver e curtir muito aquele baita show. Pra se ter uma idéia da (falta de) qualidade da gravação, eu só descobri que o Bruce cantava Powerslave usando uma máscara quando ganhei o DVD do Beto agora em janeiro!

Aí veio um dos dias mais marcantes da minha vida: 4 de agosto de 1992. Show do Iron Maiden em Porto Alegre, da Fear of the dark Tour.

O Beto, que vinha mal na escola, ficou de castigo e não pôde ir ao show. Eu, um piá na época, só poderia ir se o Beto fosse. Resumindo: no fatídico 4 de agosto de 1992, eu fiquei em casa, ouvindo meus CDs do Iron, enquanto o povo ia ao delírio no Gigantinho.

No ano seguinte, o Bruce Dickinson saiu do Iron. “Putz, agora já era”, pensei. De novo, o 4 de agosto de 1992 me assombrava. “Eu nunca mais vou ver o Iron como deveria ser”, afinal, Iron Maiden sem Bruce Dickinson não é Iron Maiden.

Em 1994, o novo vocalista: Blaze Bayley, terrível, terrível. Mais uma vez o 4 de agosto de 1992 me vinha à mente: “Perdi de ver aquele showzaço. Bruce Dickinson nunca mais…”

Pra não dizer que não comprei nenhum CD do Iron depois do duplo ao vivo de despedida do Bruce, eu comprei o Best of the Beast, a edição dupla limitada que vinha num estojinho. É claro que eu pulava as duas primeiras músicas, as cantadas pelo Blaze, porque eram ruins demais.

Até que, em 1999, o Bruce retornou ao Iron Maiden e, de novo, pensei no 4 de agosto de 1992. É, o Bruce voltou, mas já era, shows que nem esse só vêm a Porto Alegre uma vez e deu. Mesmo com o Bruce voltando, eu não acompanhei mais o Iron. Ouvia uma música que outra. Era legal, mas nem chegava aos pés daquilo que foi entre o The number of the Beast e o Fear of the dark.

O tempo passou, o Iron veio diversas vezes ao Brasil, mas nada de Porto Alegre. E o 4 de agosto de 1992 continuava me assombrando.

No final do ano passado, no dia da última sessão da minha campanha de D&D, eu fiquei sabendo que o Iron Maiden voltaria ao Brasil, inclusive comentei com o Gabriel, “bem que eles podiam vir pra Porto Alegre, né?”

Dois dias depois, a confirmação: Iron Maiden em Porto Alegre no dia 5 de março de 2008.

Óbvio, enlouqueci. Finalmente. Mas, ainda assim, o 4 de agosto de 1992 me vinha à mente. Diferente da Fear of the dark tour, onde eu conhecia (e amava!) todas as músicas, o set list da A matter of life and death tour me era estranho, só conhecia umas poucas músicas.

Mas eu iria, de qualquer forma. Afinal de contas, era o Iron Maiden.

Daí veio a bomba: a turnê seria em homenagem ao lançamento do DVD do Live after death, dedicada aos clássicos da Era de Ouro e a música mais nova do set list seria Fear of the dark.

Comentei com o Beto pelo MSN e ele enlouqueceu também. Não acreditava. Na verdade eu também não acreditava e, mesmo depois de ter visto o show, continuo não acreditando.

Nos longos meses que ficaram entre o dia em que fiquei sabendo da turnê e ontem, dia do show, volta e meia ficava nostálgico. Pensava nos dias em que eu comecei a ouvir metal, no Marcelo mostrando o Iron pra mim e pro Beto, nas guitar-sessions, na fita mal gravada do Live after death e, claro, no 4 de agosto de 1992.

No Natal de 2007, também conhecido como “Aniversário da minha Mãe”, o Beto foi lá em casa e ficamos falando sobre o show, sobre o Iron com e sem o Bruce e sobre o 4 de agosto de 1992. No meu aniversário o Beto me deu o DVD do Live after death, assistido milhares de vezes já.

E o 5 de março de 2008 chegou. Eu fiquei ansioso como nunca. Nem antes dos Ramones eu fiquei assim. No final da tarde, o Beto veio na minha casa e fomos juntos ao Gigantinho para, finalmente, ver o Iron Maiden.

Eu poderia utilizar vários eufemismos pra descrever o Gigantinho na noite de ontem. Usarei o “um atrolho do cão”, acho que é o mais cabível. O Gigantinho é um lugar pequeno, pavilhão de futsal do Internacional, e ele estava entupido com 15.000 pessoas com camisetas pretas e mais 30 com camisetas de qualquer outra cor.

Veio o show da Lauren Harris, filha do Steve Harris. Legalzinho, mas quem se importa?

As luzes se apagaram. Mãos se erguem, fazendo o chifre. Transylvania tocando no playback com imagens do avião Ed Force One, da banda carregando malas, etc.

As cortinas se abrem e o Winston Churchill começa seu famoso discurso: Lá vem Aces High. Lá vem o Iron Maiden.

E o Iron entra com tudo. O público enlouquece, canta mais alto que a banda. Praticamente sem parar, emendam 2 minutes to midnight. O show era exatamente como eu queria que fosse: Nicko McBrain esmurrando a bateria dando risada, Dave Murray, com sua cara de trakinas, destruindo a guitarra, junto com o Adrian Smith com um colete cheio de pontas, o Janick Gers fazendo aquela performance acrobática, o Steve Harris usando o baixo como metralhadora e o Bruce levantando a mão enquanto cantava as notas mais agudas e comandando o público. Eles nos tinham na palma da mão.

Ver o show do Somewhere back in time é como ir num jogo de futebol em que seu time ganha de 20x0: tu mal acaba de se recuperar do 2 minutes to midnight e já emendam Revelations e The trooper. É uma atrás da outra, um clássico atrás do outro, uma música que cresci ouvindo atrás da outra.

Daí uma cena curiosa. Não sei se foi armada, mas foi algo realmente sensacional: depois de The trooper, um telefone celular voa no palco e o Bruce pega. Eu vou parafrasear ele aqui:

“Hello, mom! Yes, I’m calling from Brazil. Someone’s gonna have a bloody high cellphone bill to pay. I think I’m gonna go home late. Yes, mom. Yes, mom. Mom, I have 15 fucking thousand people waiting here. Yes, mom, I’m with my rock and roll band. Yes, mom. Mom! Mom, I know it’s not a proper job. Mom! Mom! I dont wanna waste my time always searching for those WASTED YEARS!”

E o público vai ao delírio. Mais uma música, mais um clássico. Daí tudo fica escuro e vem o vozeirão: “Woe to you, o earth and sea…”. Milhares de mãos de chifre erguidas no Gigantinho, enquanto acompanham o poema de introdução. A gente ainda recuperava a garganta depois de gritar o “Six, Six, Six! The number of the Beast!” quando o Bruce comandou o “one, two, one two three four, CAN I PLAY WITH MADNESS!”

Depois veio a melhor música do Iron Maiden: Rime of the ancient mariner. Por que ela é a melhor música do Iron? Bom, primeiro porque ela dura, tipo, pra sempre. Segundo porque é uma música foda, oras. Simples assim. Logo depois, a risadona avisando do começo de Powerslave, com direito a máscara e tudo.

Daí veio Heaven can wait, e uma galera subiu no palco. Poxa, eu acompanhei várias promoções pra ver se eu descobria como subir no palco pra cantar o “oooo” em cima do palco, mas não descobri nada! Mas azar, eu tava vendo o Iron Maiden, oras! Daí veio a dobradinha da covardia: Fear of the dark e Run to the hills.

Ver Run to the hills sendo tocada ao vivo é inacreditável. O espaço, a antecipação entre o “Women and children and cowards attack!” e o refrão é um momento em que tudo para, que nem o segundo entre a cabeçada do centroavante que aproveitou a linha de impedimento mal feita, ficando cara a cara com o goleiro e a explosão em uníssono “RUN TO THE HILLS! RUN FOR YOUR LIVES!”

Daí veio a música que dá nome à banda, Iron Maiden. Com direito ao Eddie futurista do Somewhere in time dando tiros de laser na platéia e o fim da primeira parte do show.

Com o bis, veio o último gás. Minhas pernas estavam doendo há tempos, mas só nessa paradinha que eu senti. Minha coluna estava destruída.

O bis começa com o Dave Murray tocando a introdução de Moonchild no violão. Quase todas as luzes apagadas e aquela constelação de isqueiros e LCDs no Gigantinho. Praticamente sem parar, emendam The Clairvoyant. Foda-se o cansaço. Foda-se a dor nas pernas e na coluna. É o Iron Maiden. Então, Hallowed be thy name encerra o show, com o público enlouquecido. É hora da volta pra casa, ao som de Always look on the bright side of life.

No caminho entre o Gigantinho e o carro fui pensando em tudo isso que escrevi aí em cima, em toda a minha história com o Iron Maiden, e tive a certeza de que o 4 de agosto de 1992 estava de saída da minha lista de datas marcantes, dando lugar ao 5 de março de 2008: o dia em que eu fui no show do Iron Maiden e foi do caralho.