Minduim fez uma travessura e isso finalmente foi bom pelos motivos errados

Faz 5 meses que o Minduim chegou em casa. Para os que não me conhecem, isso representa apenas um período no calendário. Para os que me conhecem, isso representa 5 meses em que eu falho miseravelmente como dona de um segundo cão.

O Minduim confirma ainda que a serenidade não combina com meu estilo de vida. Eu deixei de escrever faz um bom tempo e a sua vinda já rendeu, além deste texto, um curta e diversas reflexões sobre maturidade, relógio biológico e coprofagia. Sim, enquanto eu redigia este parágrafo, ele acaba de apreciar mais uma bela porção de sua própria merda.

Dos meus muitos medos sobre a maternidade, o Minduim revelou com pouca sabedoria e muito desmantelo que o maior deles é perder o equilíbrio de tudo. Ser rígida demais ou nocivamente branda. Perder o controle quando o meu plano de educar um ser humano tenha o mesmo sucesso que eu tenho tido em educar esse whippet endiabrado.

Feijão, o vira-lata que se comporta como um lorde nesta mesma casa, assiste incrédulo às travessuras de Minduim. Com seus olhos singularmente expressivos, ele me encara, de cabeça e orelhas baixas, enquanto arqueia as sobrancelhas. O que na linguagem canina significa um enfático “fudeu”.

Depois de um dia normal virando o lixo, encontrando isopor, comendo isopor, cagando isopor, comendo novamente merda com isopor, numa aparente luta de “meu organismo vai vencer essa bandeja de isopor”, Minduim resolveu fazer algo diferente. Depois de encontrar e destruir uma caixa inteira de giz de lousa, exibindo pó de giz e riscos coloridos no fucinho, nas almofadas e em todo o chão da casa, meu namorado e eu ficamos especialmente preocupados. Ele, com mais uma tentativa do Minduim em comer algo tóxico. Eu, com a possibilidade do nosso cachorro ter tentado desenhar um pentagrama no chão da sala.

As tentativas de adestrar o Minduim também fracassaram. E por mais que eu quisesse distanciar a minha experiência com os cachorros da possível experiência materna, os métodos de adestramento contemporâneos frustraram todos os meus planos, copiando ao pé da letra a cartilha da nova maternidade.

Meu namorado e eu gastamos diversas pratas com alguns profissionais. Tentamos o método de obediência através da recompensa, que permite ao animal reconhecer o dono como líder e ganhar uns petiscos quando obedece um comando.

Em seguida, tentamos o método que usa como única recompensa o amor, um método lindamente poliânico que permite ao animal ser muito elogiado quando acerta o lugar do xixi e consente que ele destrua todos os seus móveis parcelados em dolorosas prestações, enquanto você assiste atônito, sem poder reagir, para não encorajar o animal a acreditar que foi recompensado com a sua atenção (ainda que seja em forma de bronca ou mesmo, um AVC). O que sugere que é realmente um método eficiente, já que o animal nunca mais repetirá o comportamento, visto que é matematicamente impossível voltar a destruir uma TV 4K que não existe mais.

Por fim, escolhemos o método do exercício da fé, um método autoral que consiste em confiar que a situação vai se resolver sozinha e permite aos donos do animal usar o dinheiro do adestramento para investir em alimento, aluguel e fatura de cartão de crédito.

É importante esclarecer que eu nunca quis um cachorro que não se comportasse como um cachorro. Eu nunca quis um cachorro que, para satisfazer o meu ego, atendesse perfeitamente aos comandos de "senta", "deita", "rola", ou reagisse ao meu “toca aqui” coçando a barriga num evidente “deixa que eu toco sozinho”. Eu só queria o mínimo pra que minha vizinha não ouvisse mais de 30 gritos histéricos envolvendo o nome "Minduim" no mesmo dia. Embora torça pra que ela saiba que é pra ele que grito “caralho, você lambe seu cu, sua rola, come merda e depois quer vir beijar minha boca, safado?

Como acertar esse cálculo? Como dosar entre a obediência robótica do cão que vê a bolinha ser lançada no parque, mas só busca quando tem a permissão do dono (que porra é essa) e a resiliência do cão que dá voadora em círculos (apenas tente imaginar) para interagir com humanos na rua?

A resposta parece ter vindo nesta tarde congelante. Na tentativa heroica de fazer home office, interrompi o trabalho 3 vezes para resgatar algo proibido da mandíbula do Minduim. Da primeira vez, foi o cascalho da goiabeira, que depois de mastigado, parecia ter explodido em centenas de pedaços na sala recém varrida. Da segunda, foi a vez de um livrinho de cordel que fazia parte da coleção da pessoa que afirmara, ingenuamente, “com o segundo cachorro vai ser moleza porque a gente já aprendeu tudo com o primeiro”.

Da terceira vez, eu estava no limite da fúria. Corri em direção ao filhote de furacão, com ameaças ininteligíveis, tentando descobrir ainda o que ele tentava destruir. Antes de xingar o pedigree de 15 gerações do bichinho, reconheci entre os pequenos dentes caninos, uma palmilha de lã, há muito tempo desaparecida. A palmilha que deixou saudades nesses pés patologicamente frios, que envolveu uma busca diligente dos humanos da casa, porém sem resultados. Eu quis praguejar. Eu quis punir o pequeno delinquente. Mas mais do que tudo isso, eu quis que ele entendesse que eu o amo, que eu erro muito nesse processo em que ele e eu precisamos ser educados, e principalmente, que eu preciso muito, mas muito que ele encontre o par dessa maldita palmilha.