Floreria Atlântico — de conceitos interessantes à execução.
Chegamos em Buenos Aires. Frio e o viento clássico que o Río de la Plata carrega consigo. Alias, primeira vez que percebi que o time River Plate é o nome do rio em inglês. Bobo, eu sei, mas foi uma ficha caindo que deu para escutar. Foi o tempo de deixar as malas no Airbnb, sempre escolhido pelas fotos da cozinha, obviamente, e entender quais eram os supermercados próximos com a anfitriã, se arrumar e sair para o bar.

O Florería Atlántico, como sugere o nome, fica no porão de uma floricultura. Acho do caralho quando conseguem pegar um lugar que é sujinho, paredes caindo, meio acabado, e transformam em um bar lindo, como o Agulha fez aqui em Porto muito bem. A segunda parte do nome faz alusão à grande quantidade de imigrantes que Buenos Aires recebeu, e muitas bebidas do outro lado do Atlântico desembocavam no porto, onde se concentravam a maioria dos bares. Lindo conceito, né?

O bar estava bastante vazio, pois os velhos aqui chegaram cedo. Apesar de vazio, tinha várias mesas reservadas, e no balcão tinha uns porteños com vários casacos guardando lugares, sendo que a hostess tinha dito que tinha lugar para sentar. Nessas horas penso que o staff do bar não pode ser conivente com esse tipo de coisas, até mesmo porque lugar vazio é lugar que não está consumindo. Mas vendo que os pibes não íam se movimentar larguei pro mozo atrás do balcão um “a moça lá na frente disse que tinha lugar para sentar, ou só tem para os casacos?”. Julguem-me, mas é mais forte do que eu. E é uma patadinha, eu sei, mas fez a galera se movimentar e conseguiram juntar duas cadeiras para nós no balcão.
Muito bem. Sentados, trilha sonora meio anos oitenta, que a Camila adora, e eu acho que dava para quase que pular a década inteira, salvo raras exceções. O balcão deve ter uns 15 metros, o bar é meio uma tripa. Muitas garrafas atrás, alguns rótulos relativamente raros de encontrar, o Apostoles Gin (feito pela casa), que tem como mixologista (o magrão que cria os coquetéis) o Tato Giovannoni.




O cardápio é lindo demais. Ele divide os coquetéis de acordo com a cultura que migrou para Buenos Aires e as bebidas que vieram junto (Italia, França, Inglaterra, Espanha, Polonia, Criollos, os Negronis del Abuelo e Gin&Tonics) e é bem enxuto. Nem me preocupei de pedir coisas clássicas para provar a competência do bar, pois quando se vai em um que está na entre os 50 melhores dessa lista aqui (o melhor classificado da América Latina, diga-se de passagem) tu confia no que está na carta.
A galera atrás do balcão está bem acostumada a atender gringos, e de cara já te coloca copos d’água na faixa e repõe direto. Curto isso. É uma gentileza com o cliente e raramente o cara vai ter uma manhã ruim depois, lembrando positivamente da experiência. Não senti tanta vontade dos garçons de explicar para os clientes as propostas do coquetéis, ou tentar estimular de alguma forma o consumo deles em detrimento à outras bebidas. O Frank em SP fez isso bem pra caralho a última vez que estive lá.


Sobre o que realmente interessa, os tragos em si. Tinha que tomar o Gin dos caras, e para provar as nuances deles fomos em G&T (Tônico de la infância-Apostoles Gin, redução de cerveja de casa Bosquíssima, Tônica Pulpo Blanco da casa, e bagas de pinus)e um dos Negronis da carta (La Chofeta- Apóstoles, Le muscat, Campari, cogumelos de pinus, e solo de Cariló). O Gin tem infusão de Erva Mate, entre outros botânicos que remetem a terra natal do mixologista. Tudo é feito conforme a técnica determina, gelo grande no Negroni para não aguar demasiado, apresentações bonitinhas com cascas de laranja cortadas com tesourinhas que deixam formatinhos, tragos selecionados para compor os coquetéis, etc. Mas não foi marcante. A sensação é que, assim como o conceito, tudo era muito romântico ao paladar. Acho um baita trunfo na coquetelaria em geral mascarar o teor alcoólico no paladar, mas tudo estava mascarado demais. Um ligeiro medo de mostrar ao que veio onde nada estava errado, mas nada me instigou. Na minha prática como cozinheiro vejo que posso optar muitas vezes por equilibrar os sabores com sutilezas, como em adicionar uma ligeira doçura a um molho de tomate para fazer os sabores se expressarem mais, ou com provocações e diversos sabores potentes, como em um chutney de tomate com pimenta, vinagre, melado, muitas especiarias. Ali, talvez, tudo foi mais para baixo pois queria mostrar uma sutileza, a qual talvez não senti.
Depois desses de entrada já estavamos cansados de ter voado, ter passado um trabalhão para pegar um uber em Ezeiza, entre outras coisas, e não queríamos entornar. A Camila parou por ali e eu tive que tirar uma prova para ver se algo da carta me falava mais. Pedi um Pacto Melusiano (Cognac Camus, Sauvignon Blanc, maçãs orgânicas e um tipo de melado de cana peruano). Apresentação bonita, colocando fogo em um gelo com anis para aroma, bela cor e aroma. Na boca era um pouco mais complexo que o tomado anteriormente, mas continuava com sensação romântica. Cognac tem muita beleza na madeira que carrega no paladar, e o coquetél na minha opinião anulava essa beleza com os outros sabores. É raro poder tomar Cognac de verdade para nós reles mortais, e ele não aparecia na boca. Uma lástima, como diria minha vó.
O cansaço, ser ainda apenas uma terça-feira, ter muitos vinhos e tragos pela frente, e não ter sido espetacular o produto para meu paladar me fizeram parar por ali mesmo. E ainda nem internet tínhamos no celular para pedir um uber e o bar não disponibilizava wifi.
Vale a ida ao Florería? Vale, sem dúvidas. O preço é justo, e os tragos não tem absolutamente nada de errado. Eu talvez que queria meditar demais, ao invés de conversar gritando, só por alguma coisa pra dentro sem muita atenção, e curtir a trilha anos 80 (o Smiths se salva).
Conceitos trabalhados são garantia de boa experiência gastronômica? Para mim não. No final das contas eu queria mesmo era um coquetel que eu lembrasse do gosto até hoje, e não foi o que encontrei.
Acho que foi uma questão de paladar mesmo.
Você que leu até aqui, já teve alguma experiência onde tudo tava lindo mas o produto não encantou? Fala aqui para me ajudar a continuar escrevendo.
