Medicamentos canabinoides: as 3 grandes falhas e porque você ainda deve ter esperança

Esse post é pra te contar um pouco sobre mais sobre a palestra que dei recentemente no Seminário Internacional: “Cannabis Medicinal — Um olhar para o futuro” realizado nos dias 18 e 19 de maio, pela Fiocruz e Apepi, no Museu do Amanhã — RJ a convite da Apepi, uma das mais respeitadas associações de pacientes do nosso país.

É uma história a parte, mas foi por conta da interação com a Margarete Brito, fundadora da Apepi e mãe da Sofia, que eu mergulhei nessa história de Cannabis Medicinal pra valer… então sou muito grato de ter feito uma das minhas falas mais inspiradas justamente no evento organizado por eles.

Palestra que dei no seminário "Cannabis Medicinal — Um olhar para o futuro" no Museu do Amanhã http://apepi.org/cannabisamanha/o-evento/

As 3 falhas históricas dos medicamentos canabinoides

Marinol (dronabinol): canabinoide sintético

Aqui já estamos até chovendo no molhado, mas pra mim a primeira grande falha é o THC sintético, conhecido pelo nome genérico de "dronabinol". Sua classificação já é uma excrescência conceitual, visto que o THC de origem fito (da planta Cannabis) permaneceu proibido, enquanto o dronabinol sintético era conhecido como um ativo medicinal. Isso tudo desde a década de 80 e com devido registro no FDA.

Mas eu considero o dronabinol por outro motivo bem mais direto, do ponto de vista clínico: a baixa aderência ao tratamento. Os pacientes costumam achar o THC "solo", seja sintético ou isolado, muito euforizante. Comparativamente, as preparações contendo misturas de THC e CBD são preferidas pelos pacientes.

Acomplia (rimonabant): antagonista CB1

Lembra deste? Hoje em dia já faz 14 anos e parece algo superado e enterrado no passado, mas naquela época o rimonabant (nome comercial Acomplia) saiu na capa de tudo quanto é capa de revista e jornal brasileiros como a grande promessa da nova "pílula anti-barriga".

E, de fato, o rimonabant era um medicamento com uma eficácia incrível para reduzir peso corporal e vários parâmetros metabólicos, contribuindo para a redução do risco de Diabetes tipo II, por exemplo. Baita produto.

No entanto, como bloqueador do receptor canabinoide tipo 1 (CB1), o rimonabant causava efeitos colaterais importantes. Como ficou claro em dados de farmacovigilância pós-marketing, o uso contínuo desse medicamento trazia um efeito colaterial peculiar: ruminação e pensamentos suicidas. Credo!

Esqueceram que além de reduzir a barriga bem rapidamente, o bloqueio dos receptores CB1 também mexem profundamente com a emocionalidade. Então o que acontece… sintomas associados à depressão.

BIA 10–2474: inibidor da degradação de endocanabinoides

A terceira falha digna de nota é mais recente, de 2 anos atrás. Esse medicamento falhou um pouco mais cedo, ainda em testes clínicos, e nem chegou a ganhar nome comercial. Ficou conhecido pelo seu nome de produto experimental "BIA 10–2474".

Esse produto tinha um mecanismo bastante sofisticado, e que era uma aposta de grande parte dos cientistas da área. Ao invés de ativar diretamente os receptores canabinoides, ele aumentava os níveis de canabinoides endógenos (endocanabinoides), inibindo a enzima de degradação da anandamida (FAAH).

Com isso, a intenção seria aumentar os endocanabinoides onde e quando eles fossem necessários, ao invés de aumentar indiscriminadamente a ativação dos receptores CB1, como ocorre com agonistas exógenos.

O mecanismo é lindo, e, na prática, tinha tudo para funcionar. Passou os testes pré-clínicos e foi até a Fase 1 dos testes clínicos. Aí é que tivemos um problema seríssimo, uma morte provocada pela ingestão desse medicamento na fase de administração crônica a pacientes saudáveis.

Terrível, não é? Na ânsia de não usar um ativador macisso dos receptores como o THC, porque, bem, ele provoca efeitos indesejáveis, o resultado foi um efeito letal, algo até hoje desconhecido para a Cannabis, a despeito de milhares de anos de uso e milhões de pessoas expostas diariamente.

A conclusão pode ser um pouco parcial, porque de fato eu acredito nas propriedades terapêuticas das Cannabis, mas veja bem, todas as falhas que descrevi acima foram por aspectos de segurança, e não de eficácia. São um problema fundamentalmente de toxicologia, coisa que em geral aparece em estudos clínicos de Fase 1, e que muitas vezes não conseguimos reproduzir em animais.

Ora, se já sabemos que os canabinoides da planta são minimamente seguros, será que não estaríamos melhor tentando investigar a melhor maneira de utilizá-los em nosso benefício? A toxicidade deles é considerada baixa, em comparação a diversos medicamentos neurológicos, e as faixas de dose já são bastante conhecidas. Fica a provocação para reflexão, adoraria ouvir sua opinião nos comentários.

Várias referências de interesse podem ser encontradas nesse artigo: http://www.ib.usp.br/revista/system/files/05_Pamplona.pdf


O principal objetivo deste Medium é trazer informação de alto nível a respeito de ciência e tecnologia no âmbito da Cannabis medicinal, um campo da medicina que está florescendo nos últimos anos. Às vezes, a gente se arrisca a falar de uma outra curiosidade menos explorada sobre este planta. Interessou? Siga acompanhando!