Medicina brasileira reconhecida no congresso da sociedade canabica IACM

Fabricio Pamplona
Nov 5 · 5 min read

Acredito que nem todos saibam, mas o Brasil tem uma relevância histórica na pesquisa com Cannabis e canabinoides. Muitos de nossos pesquisadores fizeram contribuições relevantes para a pesquisa internacional e são reconhecidos pela sociedades.

Deste vez foi o médico brasileiro Dr. José Crippa, da USP Ribeirão Preto que teve a honra de receber um prêmio da Associação Internacional para Medicina Canabinoide — IACM pelo reconhecimento do""conjunto da obra" de suas pesquisas com o canabidiol (CBD).

Nas fofocas de corredores e mesmo em falas diretas, tenho ciência que uma parcela significativa dos brasileiros que são a favor do uso medicinal de Cannabis discordam da postura que o Crippa tem em relação ao tema, e particularmente, por conta do seu trabalho com CBD sintético, que inclusive já mencionei em outros momentos por aqui. Mas, honestamente, não se pode questionar a respeitada carreira que ele tem como pesquisador e as diversas contribuições científicas ao longo das últimas décadas junto com o Prof. Zuardi, Prof. Guimarães e os "sucessores" dessa linhagem, também professores universitários meu xará Fabrício Moreira e a Alline Campos.

Foto da Dr. Paula dal Stella direto da audiência do congresso da IACM 2019.

Dessa vez foi a vez da Associação Internacional de Medicina Canabinoide (IACM) reconhecer o trabalho e a carreira dele (e do grupo como um todo, eu diria) para o progresso dessa área da ciência. Curiosamente, o posicionamento público do pesquisadores tem sido, basicamente, somente em relação ao uso clínico de CBD, o que frustra muito dos demais profissionais que tem experiência com o uso da planta, do THC, e produtos com diferentes composições.

É bem verdade que muito das evidências de maior qualidade na literatura médico-científico são a respeito do CBD, em detrimento tanto da qualidade quanto da quantidade dos artigos usando extratos da planta. É também verdade que fazer uma extrapolação direta do que se sabe do CBD para o extrato rico em CBD dizendo que "são a mesma coisa", também pode ser um exagero. Contudo, não se pode desprezar que entendendo os efeitos dos seus componentes, vamos paulatinamente compreendendo os efeitos das plantas que o originaram. É sempre assim com a fitomedicina e uso de produtos naturais. Não é diferente com a Cannabis.


Quão relevante foram suas descobertas?

Vale a pena destacar alguns dos papers que são considerados as maiores contribuições deste pesquisador para o entendimento dos canabinoides. Pelo menos em relação ao números de citações, estes são seus papers mais influentes. Quem sabe, suas pesquisas mais relevantes em âmbito internacional.

Ref: https://www.nature.com/articles/npp2009184

Neste artigo o grupo comparou os efeitos do Δ-9-THC (10 mg) e do CBD (600 mg) por via oral na ativação de certas regiões cerebrais durante tarefas comportamentais. Os tratamentos tiveram efeitos opostos na ativação do estriado durante uma tarefa de recordação de palavras, no hipocampo durante uma tarefa de inibição comportamental, na amígdala na tarefa de percepção de emoções alheias, no córtex temporal superioar ao ouvir discursos e no córtex occipital enquanto olhavam imagens. A conclusão é que os efeitos de ambos foram diametralmente opostos, e inclusive o CBD bloqueou efeitos psicóticos associados ao Δ-9-THC, segundo avaliação do autor. Esse artigo é de 10 anos atrás, e quem sabe foi por ter visto esse tipo de efeito que o Crippa "pegou birra" do THC…

Ref: https://www.nature.com/articles/npp20116

Nesse segundo artigo bastante influente, os autores demonstraram que o tratamento com CBD (600 mg) reduz a ansiedade "social" que experimentamos ao falar em público. O CBD reduziu a ansiedade, o desconforto e o prejuízo cognitivo sentido pelos voluntários. Foi um dos sinais bastante claros, em humanos, de que o CBD pode ter um efeito ansiolítico relevante.

Ref: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=s0100-879x2006000400001&script=sci_arttext

O terceiro artigo que destacamos relata os efeitos antipsicóticos do CBD, assim como concluído no primeiro. Esse artigo é um tanto mais antigo, foi produzido há cerca de 13 anos atrás. A sugestão é que o CBD poderia apresentar efeito antipsicótico em modelo experimental (com ketamina) e eventualmente em pacientes esquizofrênicos.


Minha opinião é que estamos todos no mesmo barco, e que apesar da relação com empresas necessariamente trazer consigo conflitos de interesse (pelo menos desta vez claramente declarado publicamente), todas as contribuições fazem os canabinoides prosperarem como as grandes moléculas do momento. Temos que nos preparar para desenhar as melhores normas regulatórias, os melhores produtos, e focar em atender a população, que são os grandes interessados. Se o caminho ideal é usar produtos purificados, full-spectrum, sintéticos ou naturais, é uma briga sem fim, e muitas vezes tem mais a ver com opinião e posicionamento do que ciência, afinal são poucas as evidências de comparação direta "head-to-head" destes produtos, o que nos deixa pouco subsídio para concluir.

Louis Paster uma vez disse que "A ciência não tem pátria", para se referir ao processo do conhecer científico como uma construção coletiva, internacional, e para o bem de todos. Contudo, logo após complementou: "Mas o cientista tem!". E é bem verdade. Eu particularmente fico feliz em saber que o Brasil, apesar dos pesares, contribui muito para o campo da medicina canabinoide, mesmo em cenário internacional. É um momento importante de afirmação da ciência nacional, da necessidade de sua valorização, e o Crippa, professor de universidade brasileira, fez muito bem esse papel. Merece aplausos.

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Fabricio Pamplona

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