Diálogos: Bobók, o individualismo e a Psicologia Social

É recorrente no universo das produções artísticas, na literatura, no cinema, no teatro e demais linguagens, a utilização de personagens e contextos que envolvem o mundo dos mortos. Os moribundos, em via de regra, não servem para indicar uma possível vida pos-mortem ou tampouco para trazer algum tipo de conforto espiritual àqueles que prestigiam a criação artística. O que se percebe é a manipulação de um jogo de sentidos onde os protagonistas vivos e também os espectadores ou leitores da obra são conduzidos para uma experiência suspensa no tempo e no espaço justamente para trazer à tona elementos ocultos da subjetividade ou da vida social.
Consoante a este estilo de obra, podemos citar o conto Bobók, escrito por Fiódor Dostoiévski na segunda metade do século XIX na Rússia. Bobók foi escrito para responder às críticas direcionadas ao polêmico romance do autor, intitulado de Os Demônios. Uma resposta tecida dentro uma linguagem literária que dificilmente seus oponentes poderiam replicar devido a seu valor estético, reforçado por mensagens transmitidas nas entrelinhas.
O enredo desenvolve-se na medida que Ivan Ivánitch, personagem principal, sai pra se divertir e acaba se envolvendo num enterro de um parente distante. No cemitério, após um isolamento, debruça-se sobre um bloco de pedra e começa a escutar ruídos, vozes que lhe chamam à atenção. A partir daí, percebe a existência de diálogos entre os mortos.
Nesses diálogos, é possível observar a continuidade, num primeiro momento, da vida como é percebida entre nós, os vivos: regras, hierarquias, etiquetas sociais e recalques. Na narrativa, ao falarem de si mesmos, os defuntos refletem um mundo tal como ele se apresenta na realidade. Os diálogos dos personagens do além oferecem um recurso quase que etnográfico; a possibilidade do estranhamento de uma realidade impregnada de sentidos tidos como naturais.
Os mortos poderiam, portanto, serem acrescidos à lista de personagens de Nelson Brissac Peixoto (1988) que inspiram o exercício de um olhar desanuviado. Mortos ao lado de estrangeiros, crianças, anjos; figuras que possibilitam o outramento de nossas próprias experiências e relações.
No entanto, que tipo de sociedade Dostoiévski retratava em suas obras e que pode ser percebida no conto mencionado? Justamente uma sociedade marcada por influências da cultura ocidental racionalista e individualista. O autor contrapunha a visão racionalista ao construir personagens e enredos que revelam a real condição humana, motivada por aspectos irracionais nos quais o Homem não tem e nunca terá pleno domínio.
O Homem, caracterizado pela sua extrema irracionalidade, é despido e fica nu diante de si mesmo, percebendo a ilusão de sua suposta individualidade. Vê-se como sujeito não tão inédito assim, mas como uma construção, uma resposta possível mediante às forças sociais existentes.
Assim sendo, Dostoiévski, na literatura, pode ser destacado — junto de outras figuras históricas como Marx, Darwin e Freud — como um delator dessa imagem do Homem enquanto ser totalmente livre e original. Um xeque ao culto da subjetividade privativa ou ensimesmada.
No conto, apesar de os personagens, em vida, serem de posições sociais distintas, todos estão na mesma condição: são defuntos. Mortos que reproduzem os papéis sociais que tinham em vida e, ao perceberem que comungam da mesma condição, decidem ser o que são enquanto podem, sem travas ou vergonhas.
Se a tanatografia é uma alegoria do mundo dos vivos, a obra sugere que a tentativa de parecermos tão distintos pode ser uma fuga ou uma recusa em mirar para nossa inexorável condição: somos demasiadamente humanos, vulneráveis, comuns (ainda que insistamos na superioridade) e passageiros.
A passagem do conto onde os mortos decidem se livrar de suas vergonhas, expondo-se perante o outro, traz profundas reflexões sobre o modelo tradicional de psicoterapia, ainda vigente em nossos dias, calcado no isolamento do indivíduo ou na preeminência de uma subjetividade privatizada que pouco dialoga com as questões sociais.
Contrapondo esse modelo individualista, uma nova psicologia é fundamentada: a chamada Psicologia Social. Se num primeiro momento, o individualismo foi condição sine qua non para o surgimento da disciplina, os desdobramentos dessa vida social atomizada e as implicações decorrentes dela, fizeram que essa mesma Psicologia pudesse contribuir com reflexões muito importantes para a transformação social.
A Psicologia Social ao desmistificar o segredo enquanto condição sempre necessária à prática psicoterapêutica, insere todos os sujeitos em uma humanidade comum, onde o eu não pode ser visto em si mesmo, mas analisado a partir da relação com o outro, numa prática que prioriza a intersubjetivação.
Assim sendo, a Psicologia Social expõe a ilusão dessa subjetividade privatizada e inseri um discurso que inverte a ordem estabelecida. Os sofrimentos psicológicos do outro também são meus na medida que ocupamos a mesma humanidade, embora revestida de múltiplas roupagens. Esse discurso é ressonante à licença carnavalesca (CARVALHO, 2010) dos mortos no conto: se estamos experienciando um mesmo delírio (neste caso, nossa similar condição de existência), que o compartilhemos. Eis uma abordagem urgente e necessária para enfrentar nosso isolamento.

Bibliografia
ALENCAR, M. C. F. Memórias do Subsolo: o Romantismo em Dostoiévski. Revista Blecaute [online]. Campina Grande (PB), ano 5, nº15 — mai./jun./jul. 2013.
DOSTOIÉSVSKI, Fiódor. Bobók. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2012.
CARVALHO, M. A. O. Bobók, de Dostoiévski. Revista Miscelânia [online]. UNESP, Assis, vol.7, jan./jun.2010.
FIGUEIREDO, L.C; SANTI, P.L.R. Psicologia, uma (nova) introdução: uma visão histórica da psicologia como ciência. São Paulo: Educ, 2011.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.
MOREIRA, J. O.; RAMAGNOLI, R. C.; NEVES, E. O. O surgimento da clínica psicológica: da prática curativa aos dispositivos de promoção da saúde. Psicologia Ciência e Profissão. Brasília, v. 27, n. 4, dez. 2007, p.608–621
PEIXOTO, Nelson B. O Olhar do Estrangeiro. In: Adauto Novaes (Org.). O Olhar. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
SILVA JUNIOR, A. R.; GANDARA, L. C. Tim Burton e Dostoiévski: o diálogo dos mortos no cinema literário. Revista Temática, v. 10, n. 8, 2014.

Filmografia
A NOIVA CADÁVER. (Corpse Bride). Direção de Tim Burton e Mike Johnson. Estados Unidos, 2005. Tempo de duração: 70 minutos.
CONTRACORRENTE. (Contracorriente). Direção de Javier Fuentes-León. Peru/Colômbia, 2009. Tempo de duração: 100 min

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