
Sim, já calcei a sapatilha direita no pé esquerdo
A frase acima retrata uma situação onde o bailarino inverte os lados da sapatilha. É uma situação banal, simples e até engraçada. No entanto, ao imaginar essa situação, acessei algumas reflexões sobre mim.
No mês passado tive um insight. Queria fazer alguma atividade que me tirasse da zona de conforto e que pudesse provocar em mim estranhamentos. Estranhar tudo que construí sobre mim. Fazer roteiros diferentes, descobrir e redescobrir uma nova forma de ser no mundo. Sim, às vezes é necessário estar um pouco cansado da forma com que nos moldamos durante um processo de vida.
Depois de assistir um seriado em que um dos personagens faz ballet, pensei: É isso! Só pode ser o ballet! Queria algo totalmente inusitado, que mexesse com minhas estruturas. Algo profundo que subvertesse a noção mais delicada de alguém que, como eu, pertence ao sexo masculino: a própria identidade construída sobre o que é ser homem.
Por muitos motivos, passar pela experiência do ballet clássico está sendo algo extraordinário. Primeiro porque me sinto um corpo estranho, um estranho no ninho. Há poucos homens na escola de ballet e estar num grupo majoritariamente feminino é desconfortável e belo ao mesmo tempo. Não sei o que elas acham de minha presença ali (ainda vou perguntar). Só sei que nos primeiros dias, senti-me terrivelmente deslocado. Não porque recebi olhares de censura ou algo do tipo. O mais assustador é sentir a própria autocensura.
A escola de ballet funciona como uma lupa, uma lente de aumento para enxergar detalhes ou características do que eu chamo de eu (self). A autocensura sentida me faz imaginar todos os universos que deixei de transitar por ter uma noção demasiadamente restrita sobre mim mesmo. Entretanto, a clareza que venho adquirido a partir dessa experiência, desperta em mim uma curiosidade que sinto na barriga, para além do mundo das ideias. Minha alma deseja experimentar roteiros inimagináveis.
Atualmente tenho 35 anos. Nunca é tarde para mudar a rota. Isso tenho vivenciado também. A questão da idade ou a noção que tenho sobre a idade é motivo de reflexão a partir dessa experiência no ballet. Senti-me deslocado não somente porque tive que lidar com a ideia que construí sobre meu corpo masculino e os aprisionamentos criados para manter essa imagem. Através da lupa, senti-me estranho no contato com a ideia de ser um homem de 35 anos, iniciando aulas de ballet clássico. Parece bobagem, mas me senti assim. Como se houvesse a necessidade de autorização.
Que necessidade de autorização é essa? Autorização para experimentar o próprio corpo? Não deveria ser assim. Tanto não deveria que me proponho a continuar. Autorizo-me a vivenciar o ballet e extrair daí todas as reflexões que eu conseguir.
Obviamente não tenho pretensão alguma de ser um bailarino profissional. Em nenhum momento me passa tal cenário. Entretanto, isso não significa que não queira ir a fundo na experiência. Dá vontade de realizar com comprometimento, não porque sou obrigado. Vontade de ultrapassar os limites que estabeleci para o meu corpo porque agora sinto prazer. Desejo sentir esse prazer.
Em alguns momentos, nas aulas de ballet, sinto-me como aquela criança que deseja fazer proezas, mas sem a coragem suficiente. Sabe quando você sente aquelas formiguinhas no abdômen? Pois é, assim me sinto quando me deparo com alguns exercícios. São travas, comandos emitidos por uma vida inteira, enrijecimentos. Durante uma vida inteira recebemos comandos de como se comportar e quais movimentos no corpo podemos realizar. Por ser homem, recebi muitos deles. São tristes os limites que damos ao corpo. O corpo tem uma capacidade ilimitada de movimentos e expressões. O corpo deseja experimentar essa liberdade e a dança pode ser uma canal de descobertas fantástico.
Voltando à cena da pessoa bailarina que inverte as sapatilhas num momento de desatenção e depois de ter compartilhado com vocês essas primeiras impressões no ballet, compartilho minhas reflexões.
Durante meus 35 anos tenho andado muitas vezes com as sapatilhas invertidas. Não perguntado ao meu corpo como ele deseja realmente se expressar. A delicadeza e graciosidade presentes no ballet clássico mostram-me que sou muito mais delicado do que a imagem que construí sobre mim mesmo. Tenho realizado encontros com este lado ainda pouco explorado. Pouco explorado porque foram anos de recusa e recalques. A ideia de que ser homem é ser de um determinado jeito: um jeito rude, com expressividade limitada, convencionada para agradar aos outros e para me adequar ao que se espera de mim enquanto alguém do sexo masculino.
Descobrir que posso vivenciar diversos aspectos de minha humanidade e construir minha masculinidade de forma livre, espontânea e aberta é algo de tremenda beleza e força. Dou graças ao ballet por despertar isso em mim.
E para consagrar este momento, comecei a registrar minhas experiências com o ballet. Abri um canal no youtube. Tudo muito rústico, caseiro, mas muito sincero. Dá uma passadinha lá, deixe seus comentários. Sugestões e ajudas são bem-vinda!!!
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