cine teatro trágico

Eu tinha sete oito anos, morava em Itabuna e na minha rua tinha um cinema — o cine teatro Amélia Amado. Assisti ali, claro, vários Os Trapalhões e os filmes de ação imbatíveis no campo do entretenimento descerebrado (assistia no cinema legendado e tempos depois em tela quente dublado, e adorava rir da dublagem que trocava o “no seu cu” da legenda por “atrás de você”). Mas o que eu mais me lembro: o preço barato do ingresso, os cartazes de filmes que nem sempre passavam ali e que tentávamos roubar, as propagandas de lojas locais, as cadeiras de madeira dobráveis, os gritos da plateia torcendo pelo herói. Nessa mesma rua, na verdade uma esquina mais à frente, morava Socorro Nobre, a mulher cuja história foi uma das referências que inspirou Walter Salles a fazer Central do Brasil (a própria aparece no filme) e que foi tema do curta anterior de Salles, sobre a correspondência de Socorro com Franz Krajcberg, artista polonês que, fugindo do nazismo, veio para o Brasil e se radicou depois no Sul da Bahia. Eu passava na porta da casa de Socorro Nobre todos os dias, e de repente a imagem dela estava no Oscar! junto com a de Fernanda Montenegro. Era uma rua que tinha alguma conexão secreta, e meio trágica, com o cinema. Socorro Nobre estava no Oscar e na prisão. O Cine teatro Amélia Amado é hoje um prédio abandonado caindo aos pedaços.

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