Torna-te quem tu és… Nevermind…

quem, como eu, viveu a infância na década de 1980 e tinha seus 14 ou 15 anos em meados da de 90, morando numa cidade do interior da Bahia (no meu caso, Itabuna), em tempos pré-internet (já quase massificada nas classes médias, mas eu tive acesso muito tardiamente à rede), não podia esperar se bater facilmente com uma banda como Nirvana (até pouco antes do Hollywood Rock 93, poucos conheciam a banda na cidade).

Lembro que, por conta de uma novela da Globo (1991 ou 92?), eu e um primo conhecemos a balada “Under The Bridge” (Red Hot Chili Peppers), e solicitamos a um amigo que conseguisse um K-7 com a música. Ele nos trouxe a fita e, no lado B, tinha parte de “Nevermind”. Foi imediato o impacto daquele album: com sua música meio minimalista, com brutalidades melódicas e fugas das estruturas harmônicas convencionais no mundo rock/pop, de pronto tornou-se fonte de energia cultural e trilha de uma pré-juventude angustiada e rebelde.

Tornei-me um fã do Nirvana, daqueles que colecinavam revistas e conheciam todas as letras e músicas, sempre em busca de EPs e raridades que porventura estivessem de algum modo acessíveis (a internet tornou isso quase inesgotável alguns anos depois). O lema da geração era aquele que, na época, já indicava o espírito cyberpunk emergente: ‘faça você mesmo, procure outros como você e foda-se o resto’. Triunfo do punk no coração da América, cuja indústria cultural — ao mesmo tempo abraçada e acidamente parodiada por Kurt Cobain — trouxe para o calor do Sul, vestido de gorros de inverno e grossas camisas de flanela enxadrezadas.

Nietzsche disse que Jesus morreu cedo: se tivesse vivido um pouco mais, teria renegado a sua doutrina (ou transformado o pensamento). Nietzsche, no fundo, admirava a figura sacrificial do Cristo amável e docemente rebelde. Acho que figuras assim são, no fundo, figuras juvenis, talvez por isso precisam queimar a própria vida em erupção, em vez de deixá-la “apagar aos poucos”, como disse o próprio Kurt, que ganhou o seu espaço também no fatídico clube dos 27 da música contracultural de massa.

Torna-te quem tu és… Nevermind…

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