Jornalismo e tecnologia: as ferramentas da redação do The Washington Post

A redação do Washington Post, com sua pequena revolução tecnológica, foi tema do meu texto anterior. Afinal, como um dos jornais mais importantes — e tradicionais — do mundo está se reinventando, criando ferramentas inteligentes e com tecnologia de ponta, para otimizar sua produção, colocando os jornalistas focados no conteúdo? A resposta é simples: com engenharia + testes + feedbacks. Além de, claro, muito dinheiro e visão de longo prazo.

A ‘missão’ do The Washington Post é uma imagem: excelência em jornalismo e em tecnologia

Em sua palestra durante o South by Southwest 2017, o diretor de tecnologia do Washington Post, Shailesh Prakash, fez um tour virtual pelas ferramentas que o jornal desenvolveu nos últimos anos, e como elas alteraram o dia a dia da produção. O resultado, claro, não poderia ser outro: excelentes números, tanto em termos de audiência quanto em retorno financeiro.

South by Southwest 2017: Jornalismo high-tech sim, mas mais humano do que nunca

Deixo aqui um resumo do que vi por lá.

Clavis

Trata-se de um “atribuidor automático de tópicos”, uma das primeiras ferramentas de análise avançada de dados construídas pelo WaPo. Shailesh Prakash, Diretor de Tecnologia do Washington Post, define o Clavis como “uma suíte de tecnologias para audiências segmentadas”. Em linhas gerais, a ferramenta analisa automaticamente TUDO o que é publicado e os organiza em tópicos, buscando uma distribuição mais assertiva. Assim, consegue personalizar com eficiência tanto o conteúdo jornalístico quanto o branded.

Cada tópico é assinalado, em média, a sete assuntos, e cada texto que entra no sistema é marcado com palavras-chave.

Assim, o Clavis tem uma definição precisa do que é cada conteúdo e consegue entender exatamente que tipo de leitor consumiu qual tipo de conteúdo, e se torna fundamental para uma experiência personalizada.

O Clavis foi o responsável direto pelo aumento significativo de CTR no WaPo.

Humanos são humanos. Se algo diz ‘recomendadas para você’, fica muito mais fácil conquistar o leitor. O mais legal, para mim, é que o Clavis também atrai os dólares, já que ele faz a mesma coisa com branded content: ele identifica o conteúdo patrocinado e o coloca próximo ao conteúdo editorial mais afim. Se eu estou falando sobre um banco no branded, ele vai colocar perto de matérias de bancos. Se falamos de bancos para millennials, ele vai aproximar ainda mais o conteúdo, oferecendo para millennials que consomem conteúdo sobre bancos.

Virality

É a ferramenta que tenta prever e estimar a popularidade social dos artigos. Dá aos editores a chance de priorizar conteúdo por performance, identificar aqueles que não estão rendendo, analisar oportunidades não-identificadas e fazer alterações praticamente em tempo real. E ainda suporta publicidade.

Em 30 minutos ele já tem dados para informar aos profissionais sobre a performance do material: está dando certo? Tem potencial? Tem algo a ser melhorado na distribuição? Não tem potencial?

O que é viralidade? É algo próximo à popularidade. O virality tem um ‘oráculo-bot’ que funciona também no Slack, interagindo com os editores. Ali, ele informa algo que tem potencial, mas não explodiu; e algo que explodiu, mas pode ser ainda mais exposto.

Bandito

Essa ferramenta testa uma variação dinâmica de conteúdo, otimizando o feedback do usuário em tempo real. Basicamente, ele vai criando e alterando manchetes e imagens, operando como um caça-níqueis, privilegiando sempre as variantes que têm melhor performance e desprezando as que não funcionam. Ele vai testando aleatoriamente os conteúdos, testando as manchetes, levando em consideração geografia, faixa etária, plataforma…É como é um sistema autônomo, as possibilidades são infinitas.

No fim, ele privilegia as variantes com resultados mais ótimos, descartando os chamados ‘sub-ótimos’, obtendo maior retorno de audiência, sem comprometer a qualidade.

Headliner

Na minha opinião, é a ferramenta mais curiosa, e que desperta mais interesse, já que seu poder é incrível. Através do Headliner, o WaPo tenta gerar manchetes baseadas no conteúdo da história, usando palavras-chave mais eficazes e feedback em tempo real do leitor. Ele pega a primeira sentença do artigo e trabalha com uma rede neural de sugestão, integrada ao próprio sistema. Pode ofertar diferentes manchetes para diferentes canais, plataformas ou devices. Usa três algoritmos: hedge trimmer (que significa ‘aparador de grama’), compressão multissequencial e tradução neural.

Ou seja, ele lê o texto, entende, usa o banco de dados para criar manchetes com palavras-chave e sequência lógica, e consegue resumi-las e alterá-las para diferentes plataformas.

Heliograf

É um agente autônomo e inteligente de produção de matérias. Usa inteligência artificial para escrever, sozinho, histórias, usando como base dados estruturados e entrega-las a um canal específico, podendo ainda personalizar os textos para os leitores.

Assuntos que têm no resultado o foco da matéria, ou que permitem pouca variação estrutural, como finanças, crimes, eleições, podem ser feitas pelas máquinas, usando textos pré-moldados, praticamente em tempo real, e com resultados excelentes.

Foi criado para resolver o dilema do conteúdo perene: quanto mais você publica, maior fica sua audiência. Porém, como fazer isso sem aumentar infinitamente sua redação? E como resolver a questão da baixa assertividade de cada artigo desses?

Os exemplos dados ilustram bem a situação: conteúdo hiperlocal, com baixo retorno financeiro, mas alto potencial de identificação junto ao leitor. Prisões, índices econômicos, balanços orçamentários, tudo pode ser feito automaticamente. E, caso algum resultado seja acima da média, o editor entra para reavaliar o conteúdo.

O Heliograf ajuda a resolver um dos dilemas das empresas jornalísticas: como potencializar sua produção de conteúdo? A resposta: com uma escala em nível da máquina.

E esse é nosso negócio. Podemos fazer cobertura sobre as eleições em cada cidade dos EUA? E do mundo? Podemos não tem repórteres para fazer isso, mas temos esse sistema.

Riveting

Ferramenta de análise de inteligência do mercado. Basicamente, ele extrai todo o conteúdo de alguns rivais, tira do formato e coloca numa caixa. Pergunta ao leitor se ele leria isso. Baseado nesse feedback, ele sugere aos editores alterações editoriais, pautas ou mesmo breaking News. Além de constantemente interagir com a inteligência artificial do banco de dados do WaPo, dando novas possibilidades de ação e aumentando o arsenal de variações do produto.

E nós ficamos sabendo o que o leitor lê. E podemos comparar se o leitor gosta de algum conteúdo nosso, se desgosta, se lê a concorrência, e o que lê na concorrência. E levamos esse feedback muito a sério.

Break Fast

Ferramenta inteligente para monitorar os alertas de breaking news via diferentes canais dos veículos concorrentes. Informa a assertividade, a periodicidade e a relevância. Combinado com feedback dos usuários, informa a taxa de sucesso de cada post e faz recomendações de horários, assuntos e abordagens.

O primeiro que publica a informação tem o controle sobre o significado. Conduz a conversa. É muito importante que nós conquistamos essa lealdade. E como você mede isso? Digamos que você receba alertas por e-mail. Você precisa ser rápido e ter boa cobertura. Você precisa mandar alertas assertivos. Mas não pode encher o saco do leitor. Você tem que estar lá, mas não pode incomodar.

Loxodo analytics

Tudo isso funciona via Loxodo Analytics, o dashboard do Washington Post. Muito similar ao Chartbeat, ele reúne praticamente todas as informações dos sistemas mencionados acima para um gerenciamento editorial e comercial de conteúdo extremamente assertivo.

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O Washington Post testou essas ferramentas durante as Olimpíadas do Rio e as Eleições Americanas — com extremo sucesso. Todas elas são multimídia — ou seja, funcionam em textos, áudio ou vídeo (ainda que a indexação de vídeo seja uma questão em desenvolvimento). Como tudo é baseado em Big Data, e nada disso seria possível 10 anos atrás, diz o CTO.

Prakash reitera, praticamente o tempo todo — seja com dados, seja com diretivas estratégicas -, que não acredita estar criando ferramentas que venham a substituir os jornalistas.

Em vez disso, ele crê que as ferramentas vão permitir que os profissionais de conteúdo foquem no… conteúdo! E deixem para as máquinas a produção de conteúdo braçal.

No fim da conversa, muitos insights e muita empolgação com os rumos do WaPo. A decisão de investir em assertividade, com liberdade de criação, pode dar novos rumos ao jornalismo. Em vez de proteger metodologias de produção que simplesmente não dão mais conta de produzir resultados (seja para o público, seja para os donos do negócio, o The Washington Post aposta no futuro.

  • As descrições acima são, obviamente, minhas. Lembro que não testei nenhuma das ferramentas, embora tenha visto o Loxodo algumas vezes, com alguns amigos de profissão. Caso tenha algo a acrescentar, está convidadíssimo a fazê-lo, seja por email, twitter, comentário, facebook…
  • Texto originalmente publicado no blog Manual do Usuário, logo após o South by Southwest 2017, com o título “Prevendo o futuro da notícia: a perspectiva de um diretor de tecnologia”. Aliás, recomendo a visita ao MdU!
  • Fabrício está no Twitter, no Instagram e no LinkedIn. Aparece lá!