South by Southwest 2017: Jornalismo high-tech sim, mas mais humano do que nunca

O South by Southwest é gigante (não custa repetir). E, em 2017, consegui assistir a 24 palestras durante o seis dias que estive em Austin, Texas. Uma marca de respeito! Como disse no post anterior, é preciso muita organização para ir de um lugar ao outro, em seis janelas de horário.

Filas são uma constante no South by Southwest. Por isso, programe-se: elas valem a pena! (Foto: Fabricio Vitorino)

Aliás, uma grande dica para acompanhar sem perder o foco o festival é a técnica de construir arcos de aprendizado. Um grande, que determina a história, o assunto geral; e pequenos, que vão se unir para ajudar a contar essa grande história. O velho “arco de Maguerez”, aplicado à pedagogia.

Em 2017, ao ler a programação, estabeleci que meu tema principal poderia ser “Jornalismo high-tech, mas humano”. Ok, parece abstrato. Então, explico: trata-se de uma continuação do que vi em 2016, in loco, e do que acompanhei em 2014 e 2015, de casa.

Recapitulando: em 2016, a história foi “O fim do deslumbramento do jornalismo com a tecnologia”. Em 2014 e 2015, por outro lado, a história contada foi “A revolução das plataformas tecnológicas no jornalismo, partes 1 e 2”.

Assim, temos uma (ou alguma) linearidade:

2017 — “Jornalismo high-tech, mas humano”
2016 — “O fim do deslumbramento do jornalismo com a tecnologia”
2014 / 2015 — “A revolução das plataformas tecnológicas no jornalismo”.
Dilema do produtor de conteúdo: a máquina ajuda ou substitui o cérebro?

Em 2014–2015, vivemos a era dos deslumbramentos: gigantes social, monstros news, influenciadores, celebridades, marcas se consolidando como produtoras de conteúdo (e competindo com o jornalismo), tudo isso brilhava aos olhos. Porém, tudo isso era… cilada! Afinal, com essa profusão de conteúdo, faltou maturidade ao mercado para entender o que é sucesso, e, mais importante, o que é o sucesso na web. Muita coisa boa foi perdida após isso, e muita porcaria ganhou status de “jóia”. E isso, para bem ou para mal, faz parte do jogo.

Mas a principal consequência de 2014–2015, no curtíssimo prazo, foi a desumanização da produção de conteúdo. Todos queriam SER e TER algoritmos. A padronização jornalismo x mídia transformou tudo em farinha do mesmo saco, preparando terreno para uma crise desastrosa. Afinal, se o jornalismo virou mídia, e desconectou-se de sua audiência, qual sua relevância num mundo rápido, social, visual e extremamente segmentado? Qual o valor do jornalismo? E qual o valor da mídia? Mais importante: qual a fórmula do sucesso, que vai me fazer chegar a esse tal “valor”?

Sobre 2016, fiz um keynote que apresentei para algumas plateias, no Grupo Globo e em algumas faculdades, sempre com um tom meio sombrio, letras fora de caixa e provocações. Era o ano pré-Trump, em que começamos a perceber que a “pós-verdade” e os “fatos alternativos” poderiam vir a ser grandes problemas. A gente não teve nem tempo de ver o golpe que nos acertou.

As principais empresas de tecnologia/informação do mundo que marcam presença no SxSW

Em 2016 também entendemos que as métricas têm nuances, e a forma de consumo influencia decisivamente no sucesso dessa métrica. O que os algoritmos, o social, a plataforma, os vídeos, fotos, GIFs e etc. querem é, essencialmente, emular e entender o ser humano — e suas necessidades e padrões de consumo.

Assim, o deslumbramento e a cegueira de 2014–2015 viraram ressaca em 2016. Os papeis foram redefinidos, novos mapas começaram a ser traçados, havia um horizonte. Mas a gente não sabia que a crise da mídia nos submeteria ainda a uma enorme provação. O “Fake News”, o hack russo, o papel do Facebook, Trump, Breitbart, os sites de “pós-verdade”, tudo isso não aparecia como uma grande ameaça. E era — muito maior, aliás, do que se podia imaginar.

Mas foi preciso que uma eleição no maior e mais poderoso país do mundo assombrasse o mundo para que o jornalismo (e a produção de conteúdo) se reinventassem. Agora, sóbrios. Com um norte claro, uma nova missão.

Em 2017, tudo estava extremamente sereno. Não houve, em nenhuma palestra do South by Southwest, qualquer sinal de empolgação, de otimismo. O clima geral era de reinvenção, atenção, pouca margem para erros e, sobretudo, pouco tempo. Muito pouco tempo.

As palestras que assisti ajudaram a compor meus três pequenos arcos — que contariam a grande história do meu arco principal “Jornalismo high-tech, mas humano”.

O primeiro pequeno arco, “por trás da tecnologia: as ferramentas”, versa sobre o que há de melhor, mais eficiente, mais sério e mais escalável para redações e produtores de conteúdo. Foi assustador? Foi. Mas foi bom ver que o homem e a máquina podem trabalhar juntos.

As sete ferramentas do Washington Post: jornalistas têm que focar em conteúdo (Foto: Fabricio Vitorino)

Já o segundo pequeno arco, “comportamento do usuário (e do produtor de conteúdo)”, me levou a pensar sobre como padrões de consumo podem (e devem) me guiar ao escrever, tirar uma foto ou fazer um vídeo. Essa reflexão é fundamental, já que leva a um pilar básico de todo e qualquer jornalista/mídia/produtor de conteúdo: se você não se conecta com sua audiência, você está acabado.

O terceiro arco de 2017 é o menos técnico, mas mais interessante. “Diversidade, humanidade, empatia: quem somos nós, que produzimos conteúdo?”. Influenciadores, produtores, escritores, jornalistas, gestores, tomadores de decisão, esportistas, músicos, artistas… Todos somos um conjunto de elementos sociais e culturais, e tudo o que produzimos sofre reflexos dessas influências (para quem quiser saber mais sobre isso, recomendo uma pesquisa sobre o conceito de “semiosfera”, de Iúri Lótman). Quanto mais diversa e humana, quanto mais conectada (entre si e com a audiência), maior é nossa chance de sucesso.

Uma das muitas palestras sobre diversidade no SxSW: a relação mídia x muçulmanos é constantemente revista (Foto: Fabricio Vitorino)

Vou escrever sobre algumas delas, separadamente ou em grupo, nos próximos dias. Quem tiver paciência, acompanha aí. E se sobrar disposição, comentários, e-mails ou afins são extremamente bem-vindos.

Abaixo, as palestras que assisti. Se quiser saber mais sobre elas, um Google rápido leva direto aos autores.

DIA 10
Internet Kill Switch: Who’s got the keys
Leveraging Social Media to Build Your Brand
When Your Internet Things Know How You Feel
DIA 11
The Future of Direct to Consumer/OTT
(NO) This is Your Brain. This is Your Brain on Ads
Ending the Ad Blocker Wars
(NO) The Live Impact: Facebook, Periscope & Journalism
(NO) Lighting Up the Dark Web
Is Curated Content Creating Tunnel Vision?
(NO) When the Algorithm Is Running the News
Clickbait with a Conscience: Gimmick Free and Open
DIA 12
Covering POTUS: A Conversation with the Failing NYT
Social Video and the Future of Consumption
(NO) Content Distribution Platforms: Friends or Foes?
The Secret Life of Muslims Explores Muslims in the Media
(NO) Social is More than a Metric
(NO) Lessons from a Decade of Livestreams
(NO) Dude, Where’s My Data? Privacy and Consumer Rights
Nowhere to hide: the reality of online privacy
DIA 13
What the GIF?! How GIFs Help Advance Journalism
A Post-Truth World? Nope — We Can Fight Fake News
(NO) Facebook and Instagram: A Tale of Two Feeds
How Bots Are Automating Fact-Checking
TSA Instagram: Inform, Educate, Entertain and Rock
DIA 14
Atomised News Stories for a Bite-Size Generation
Predicting the Future of News: A CTO Perspective
Media War: Publishers vs. Platforms & Influencers
From Trump to Trolls: How Muslim Media Fights Back
DIA 15
(NO) Adding Meaning and Context to Visual Media
Music Business Reporting
Gone Fishing: How to Not Let Clickbait Reel You In
Who Has the Guts to Invest in Content?
DIA 16
Game On: How to Engage Gaming Influencers
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