Alguém como você

Ela passou a vida inteira procurando por alguém que pensasse como ela.
Que tivesse o mesmo gosto por cachorros, por Crème brûlée e por Ozzy. Que vestisse camiseta de banda, tivesse os braços tatuados e os cabelos bagunçados. Alguém que preferisse sentar na areia a entrar no mar. Que preferisse beber uma cerveja embaixo das árvores do que um sushi caríssimo. Alguém que discutisse os filmes do Tarantino e não os jogos do Timão. Alguém como ela.
Foi uma vida inteira da buscas. Ela não queria um príncipe encantado. Ela só queria alguém que gostasse das mesmas músicas que ela. Ela não queria um Mister Universo. Ela só queria alguém que também quisesse ver filme de terror de madrugada só pra dormir mais agarradinho. Ela não queria um cara rico e encantador. Ela só queria alguém que também odiasse ervilhas e brócolis.
Um era barbudo, mas só ouvia eletrônico. Outro, tatuado, mas não bebia. Um terceiro cozinhava uma maravilha, mas era vegetariano. Ninguém era igual a ela. Sua alma gêmea estava perdida entre tantos gostos pessoais simplesmente incompatíveis com os dela.
Até que ele chegou.
Ele tinha a barba comprida e os braços fechados por mangas de tatuagens coloridas. Trajava a roupa que ela sempre imaginou, usava as mesmas gírias que ela. Era mais velho, mas estudou no mesmo colégio. Tomava cerveja e sabia todas as cenas de Pulp Fiction. O cavalo branco era um Fusca 68 vermelho. Igualzinho ao do avô dela. Foi o primeiro carro que ela amou.
Ele não era rico, talvez nem encantador. Mas era igualzinho a ela, em cada minúsculo detalhe.
Ele era ela, ela era ele. Logo, ela era dele.
Ela passou a prestar atenção nele. Seus tiques, seus gestos, suas expressões faciais. Eram idênticos aos dela. Aquele barulhinho feio e irritante que ela fazia com a garganta quando ria, ele fazia também. Se ela achava que acordava de mau humor, ele nem dava bom dia. Quando abria a geladeira, ele já tinha comido a casquinha da torta, pois também era a sua parte preferida.
Ela quis desabafar. Ele respondeu exatas 32 vezes: eu sei como é.
O Fusca vermelho se foi, levando no banco de trás a coleção de filmes do Tarantino.
Agora ela anda em busca daquele príncipe encantado, que deve estar em algum lugar por aí.