Ringu — Hideo Nakata

Como uma quintessência que catapultou o cinema asiático para o ocidente, num raro caso em que sua versão original é consensualmente considerada melhor que a refilmagem estadunidense, exemplifica a sua força, sendo um título de 1998 que resistiu ao remake dos anos 2000, torna-se uma marca fora e dentro de seu país nativo.

Revestido de narrativa policial, Nakata apresenta-nos a Reiko (Nanako Matsushima), jornalista que nos situará na trama logo após uma introdução de ar folcrórico. É posta a realidade que é a morte de crianças naquela região. Nossa protagonista, inicialmente descrente na relação entre a ideia de uma fita amaldiçoada e as mortes, vai em busca de tal por enxergar uma chance de alavancar a sua própria carreira, esperando encontrar algum furo que transforme-a em figura carimbada da mídia popular.
Não demora para essa sede de fama transformar-se em angústia. Logo após encontrar o local com a fita e assistí-la, o telefone toca, com isso a narrativa nos dá uma das regras do universo do filme (que muito passa despercebida tanto por público quanto pelas personagens).
Diferente da versão americana, ao atender o telefone o que é dito é quase incompreensível, e o palpite mais próximo é que a mensagem deixada durante a ligação foi dita em algum dialeto específico e desconhecido por quem acompanhamos. A partir daí, está estabelecida a sensação de perigo constante mesclada à instigante vontade de saber mais sobre o que se passa, como numa trama clássica de detetive.
Aqui está um trunfo. Nada está numa bandeja, você recebe os pontos primordiais de maneira fragmentada assim como os que protagonizam o longa. A direção nem por um segundo, do primeiro ato até o meio do terceiro, dá qualquer indicação de controle de situação. Misto a isso, em momento algum vemos o rosto da garota que posteriormente conheceríamos como o monstro da história, Sadako (Rie Ino’o).

O seu ar fantasmagórico com os cabelos sempre cobrindo o rosto nos impede de ter qualquer identificação com a (ou da) mesma, fazendo-a a soar como uma força feroz e impiedosa, guiada pela própria natureza. O máximo que temos é um close em seu olho para ênfase no fato de que uma pessoa poderia morrer só de vê-la tão diretamente.
Em meio a isso são inseridas críticas voltadas as relações humanas dentro daquela sociedade. O filho de Reiko com Ryuuji (Hiroyuki Sanada) — seu ex-marido, um professor que é inserido como ajudante na empreitada do VHS — tem uma mediunidade que não fora antes descoberta de fato por negligência da mesma, desconstruindo qualquer ideia de que ainda restasse de uma protagonista perfeita. Também subentende-se que o homem tem desvios morais e sexuais, estes caracterizados na presença de uma aluna sua que é como um background ambulante. Pois além dessa presença, não temos nenhum flashback ou menção ao seu passado como marido, a jovem é o que pontua o seu lado escondido para o bom espectador. O olhar da câmera não é apático a isso, o fim de seu arco dramático quase soa como punitivismo narrativo em sua forma mais pura.

No mais, é essencial para o cinema de horror contemporâneo apesar de técnicas utilizadas nele não serem tão aproveitadas hoje em dia. Em sua sequência de morte mais famosa e atemporal, não há nenhum efeito especial além do que envolve a saída de Sadako da televisão. Então foi contratada uma profissional para todo o contorcionismo que dá intensidade e estranheza à cena. Algo sensacional e marcante que ofusca os momentos em que o baixo orçamento é evidenciado. Ringu é indispensável para todo amante de terror e suspense, como o carro-chefe de quase uma geração inteira do horror asiático. Seu final tem uma ideia de ciclo, tal qual criara também um no mercado cinematográfico.
Texto por Evódio Buarque
