Desabafo escrito às pressas
Tenho dificuldades para entender por que há quem prefira estar certo — mesmo que não esteja — do que pensar no bem comum.
Explico: hoje, o debate de ideias dá-se muito pelas mídias digitais. As redes sociais assumiram papel fundamental neste ponto, e a troca de opiniões vem ocorrendo como nunca se deu em nossa história. Coisa boa: mais vozes, maior pluralidade que deveria terminar em uma síntese mais rica, para o proveito de todos, mesmo com muito ruído no processo.
Como bem sabemos, não é isso que acontece. Há muitos diálogos produtivos e espaços democráticos de discussão, com suas altercações e desarmonias rotineiras, como deve ser em qualquer ambiente de troca de ideias; ao mesmo tempo, um sem-número de pessoas evita a discussão e o engrandecimento da comunidade por se valer de um antidiscurso, que prima especialmente pelo impedimento da fala alheia — usei comunidade de uma forma bem livre, mas deixemos como está.
Esse antidiscurso assume várias formas: bordões que tornam a conversa rasteira, memes usados para desqualificar o interlocutor, mudanças bruscas e agressivas de assunto. O rol das falácias é vasto, infelizmente. O que temos de comum é que o debate vai se tornando cada vez menos dialético e cada vez mais agonístico, e bem sabemos que quando tentamos resolver as coisas com agressividade desmedida, o que alcançamos é apenas a ruptura de uma conexão que talvez viesse a gestar entendimento, em escala menor ou maior. Não estou dizendo que devemos ser cordiais sempre, pois há momentos em que a dureza ou a tiração de sarro se faz necessária. O problema é que tenho visto esses expedientes como primeira opção de pessoas que se veem contrariadas; que mundo pobre de espírito, esse em que só interagimos com quem tem os mesmo valores e as mesmas ideias que os nossos!
O advento da internet nos deu a ilusão de que uma onda civilizatória se espalharia entre os que têm acesso a ela, mas o que se viu foi o deslinde de um processo de imbecilização sem precedentes. Não se trata aqui de jogos, vídeos de gatinhos ou coisas do tipo, mas da distribuição massiva de informação incorreta, da disseminação de pseudociência e de pensamentos mistificadores, de grosseria como ferramenta argumentativa. Temos acesso a muita informação, mas preguiçosamente não checamos fontes, não cruzamos dados, lemos todo e qualquer texto aferrados a adesões políticas, fazemos comentários delirantes… como pudemos falhar tanto?
Não há aqui tentativa de diagnóstico; este é apenas um texto escrito às pressas para atestar a perplexidade frente ao que acontece hoje: o discurso razoável vem se afogando num mar de imbecilidade, adesão e mal-caratismo; os valores de comunidade, tão precários, vêm se esfacelando e dando lugar aos de luta negativa, que não visam a um objetivo plural, comunitário e libertador, mas à derrota do “inimigo”, ao cala-boca das vozes destoantes. Onde vamos parar?