A era das startups chegou ao fim

Facundo Guerra
Apr 10 · 2 min read

Sou suficientemente experiente para ter visto bastante coisa na vida, apesar de restar ainda caminho suficiente diante de mim pra me manter curioso. Muito velho para ser jovem, muito jovem para ser idoso, o meio do caminho que alia o crepúsculo da juventude com uma certa bagagem de experiência que os anos te proporcionam. Eu estive lá: sou filho da fratura e vi a Internet surgir ainda no laboratório da minha faculdade. Lembro do som alienígena do protocolo de contato pela linha telefônica entre dois modems e salivo. Vi tudo que a Internet poderia me oferecer: das BBS à emergência da WWW, dos grandes conglomerados midiáticos ao frisson com o admirável mundo novo, da depressão depois do estouro da bolha no começo do século XX à deep web, de silkroad à criptomoedas (tenho que confessar que em algum momento de 2013 comprei algo como 40 bitcoins e perdi acesso à chave das mesmas, o que me fez sentir ao mesmo tempo um visionário e um completo idiota: poderia estar sentado em milhões neste momento).

Não foi com pouco ceticismo, portanto, que vi o mundo ser tomado pela emergência das startups, plataformas que no mais das vezes não tinham um plano de negócios claro, eram fundamentadas em planos futuros de viabilidade e partiam do pressuposto de crescer a qualquer custo para depois dividir o bolo, capitaneadas por CEOs de pouco mais de 30 anos, mochilas nas costas e patinetes elétricas sob os pés, seres que lembram reis loucos e megalomaníacos de algum país fantástico. Durante anos esses projetos foram propelidos pelo cassino que é o mercado financeiro global, sustentados por capital especulativo que era formado pelos milhões de poucos humanos que tinham dinheiro suficiente para investir em projetos de altíssimo risco na procura do próximo unicórnio, algo como apostar seguidamente em um único número na roleta, à espera do jackpot.

Essa era acabou há pelo menos um ano. Cada vez mais os titãs da tecnologia engolirão qualquer tentativa de inovação digital. No campo do software, dificilmente surgirá outro unicórnio. No campo do hardware, mais difícil ainda: basta prototipal algum produto inovador em uma fábrica chinesa e em poucas semanas seu negócio será corroído por versões piratas de seus diferenciais inovadores.

E como criar produtos para esta nova fase pós-startups, você deve estar se perguntando: pense em produtos que sejam físicos e digitais ao mesmo tempo. Construa narrativas. Seja intencionamento pequeno, pequeno o suficiente para ser ágil e não ser pego no radar dos grandes. Deixe as suas impressões digitais no que criar. Construa um eixo de comunidade, não um produto. Talvez o futuro, como no passado, seja feito à mão.

Facundo Guerra

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Engenheiro de alimentos, jornalista internacional e político, mestre e doutor em Ciência Política pela PUC-SP, diagnosticado empreendedor aos 30 anos de idade.

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