Capítulo 1 — Fundamentos

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Fundamentos, ou com quantos ossos se faz um empreendedor

E então aconteceu. Uma fagulha, um incômodo, um lampejo. Você teve uma ideia, uma visão de como o mundo — o seu mundo — deveria ser. Essa ideia não foi o dedo divino lhe tocando a fronte: ela surgiu de sua atenta observação da realidade. Não foi um estalo, mas algo que fermentou algum tempo em sua cabeça até você chegar a uma conclusão, o encontro com um problema válido e a vontade de encontrar uma solução, de dar o salto no vazio e desbravar mares nunca dantes singrados. Uma epifania, a certeza de que você não voltará a pensar da mesma maneira como pensava antes da ideia que teve eletrizar seu ser.

Você resolveu transformar o seu imenso mundo interior, na esperança de que um dia transformará o mundo de outras pessoas. Neste momento, assim como todos os humanos um dia foram apenas um brilho no olhar de seus pais, essa ideia tomará conta de você. Mais, te possuirá. E você intuiu que ela pode te destruir ou criar pra si uma nova pele. Uma ideia que não foi desenvolvida se comporta como um filho que não nasceu, como uma gestação interrompida: um “e se…” que te assombrará para todo o sempre. Mas você não deixará isso acontecer. Porque nada mata mais lentamente e de maneira mais amarga que um “e se…”, a encruzilhada que apontava um caminho que, apesar de aberto a sua frente, você resolveu não seguir por medo. O medo, esse veneno que mata bem devagarinho.

Então, quando isso acontecer, você se redefinirá. E, na falta de melhor palavra, você se autoproclamará um empreendedor, um articulador de distintas formas de energia em prol de uma solução que se alinhe à maneira como você deseja que seu mundo se configure. A partir desse dia, você não será mais o mesmo.

***

Se você quer empreender, me perdoe pelas más notícias: seu negócio tem enormes chances de falhar.

Todo ano, incontáveis empreendimentos recém-abertos fecham as portas, sejam aqueles que pertencem à ordem das irrefreáveis ondas novidadeiras e que, naquele momento, parecem uma grande oportunidade — paletas mexicanas, cupcakes, lámens, temakis, brigadeiros etc. –, sejam os que foram sonhados e planejados por uma vida inteira, até desembocarem em algo realmente novo (o que acontece muito raramente), mas que falham porque foram produtos incríveis criados cedo demais, à frente do seu tempo. Acredite, isso existe, e a história está repleta de exemplos: do PalmPilot (que usei durante alguns anos), à rede social Orkut, na qual muitos estivemos ligados. Todos chegaram cedo, e aparecer muito cedo é o mesmo que chegar atrasado. Timing é tudo.

Me desculpe se jogo areia no seu banho de sol. Não quero soar pessimista ou espírito de porco. Mas se a imensa maioria dos novos negócios naufragará pouco depois de zarpar, por que o seu será diferente? Acredite, não será. Você, você mesmo, que está lendo estas palavras neste momento, provavelmente fracassará. Mas este livro é um elogio ao fracasso. Antes de ser um guia, um passo a passo sobre como empreender, ele pretende te dissuadir de começar. Considere este livro como o seu tiro de advertência.

Procure as perguntas certas. Tudo que você pode esperar é identificar a pergunta e aprender com os erros que outros cometeram. Pois é isso que você encontrará neste livro: uma cartografia dos meus erros que poderá lhe ser útil. Poderá ser valioso se você for inexperiente, como possivelmente é, mas empreender não envolve metodologia, fórmulas ou palavras de ordem. Empreender é um caminho, não um destino, ó incauto navegante. Empreender antes de mais nada é um mergulho pra dentro de si, uma investigação existencial que te transformará em algum nível.

Mas você está certo e seguro e nada do que eu disse até agora fará diferença. O seu produto é inovador. Você é único, conhece melhor do que ninguém o “mercado” em que está inserido. Seu business plan é infalível. Você é infalível, sempre lhe disseram isso. Sempre foi o bezerro de ouro, o orgulho da tia, a balinha de cereja num saco de gomas verdes, o próximo Elon Musk, o Zuckerberg dos trópicos.

Você pode ter razão. Muito provavelmente não, mas você pode ser o ungido pelo dedo divino, aquele em que O Criador insuflou vida com o ar de seus pulmões, o DNA que deveria ser enviado ao espaço, representando toda a humanidade. Se esse é o seu caso, pare aqui, imediatamente. Vá mudar o mundo e deixe a dúvida para nós, os que falharão. Este livro não é para você. Ter dúvidas, mais do que certezas, é o que nos definirá como empreendedores, o que nos dará algo em comum. Nos alimentaremos de nossa insegurança e nossas incertezas nos pacificarão.

Porque nós, os que falharão, formamos uma esquadra de suicidas. Nós gritamos “Banzai!” depois de nosso quinto café pela manhã e saímos pela porta de nossas casas para nos lançar contra o mundo. Não importa que falharemos, sabemos disso. Não temos escolha. Não poderíamos ou conseguiríamos fazer outra coisa, porque a ideia, aquela ideia à qual me referi antes, nos possuiu.

Não importa as cicatrizes que empreender te deixará, você as carregará com orgulho pelo resto de seus anos. Você tentou. Falhou, mas tentou. Muito melhor do que se olhar no espelho aos 70 anos e perguntar “e se…”, quando a sua vida terminou há pelo menos trinta anos e você só está fazendo hora extra na Terra, ocupando um espaço que tem dúvidas ser merecedor.

Os motivos para o fracasso serão muitos: falta de visão estratégica, parceiros errados, uma miopia de dois dígitos em relação ao mercado que acreditou conhecer ou simplesmente porque seu produto é tão inovador quanto uma roda. Além desses fatores que você controla, ainda temos as dificuldades externas, como políticas governamentais ineficientes, excesso de burocracia, complexidade da legislação brasileira, custos exorbitantes de equipamentos, tecnologia quase paleolítica. Ou seja, prepare o estômago porque a viagem será equivalente a atravessar o Saara a

bordo de um Fusca 1968 resfriado a água. Mas isso não importa, porque as escolhas inexistem. Intuitivamente você se deu conta de que a felicidade depende mais das expectativas do que das condições objetivas. Existências pacíficas e prósperas geram humanos gordos e deprimidos, não seres felizes. Somos felizes quando sonhamos, criamos expectativas com relação a esses sonhos, e a realidade e o sonho entram em sincronia. Essa é a minha ideia de felicidade, e empreender é sonhar constantemente, e constantemente tentar fazer do sonho, materialidade.

Te digo o que não é empreender pra mim: achar que você criará um aplicativo aos 25 anos e ficará milionário sem muito esforço. Algo como ter sido mergulhado em um barril de criatividade líquida quando miúdo e que te fará soprar vida a uma ideia que valerá piscinas olímpicas de dólares. Como se o empreendedorismo fosse uma espécie de atalho para o pote de ouro atrás do arco-íris: “Serei livre! Dono do meu nariz!”. Uma vida sem chefe, sem horário fixo, com mais tempo para si, para a família e amigos, para projetos pessoais, uma espécie de alforria de uma escravatura contemporânea que nos é legada pelo capitalismo, representada pelos nossos medíocres empregos: quem nunca sonhou em se libertar de tudo isso?

Na prática as coisas estarão distantes disso. Como empreendedor, a última coisa que você terá é liberdade. Mesmo porque é bom já traçarmos um contorno para a palavra liberdade: liberdade é um conceito absoluto, ela é inalcançável.

A liberdade não existe senão como uma miragem que você perseguirá pela vida toda, uma mera abstração. Você, eu, todos somos a versão pós-moderna de um escravo, e a única coisa que podemos desejar serão pequenos gradientes de liberdade. Estreitas lâminas, pequenos diferenciais de livre arbítrio que serão suficientes para lhe fazer engolir a ideia de que temos escolha e somos livres. Não somos. A liberdade é impossível fora do dinheiro no capitalismo atual: o capitalismo, em suma, é um sistema de repressão, de força exercida pelo Estado para fazer valer o direito dos privilegiados.

Apesar de imperfeito, o capitalismo é ainda, em minha opinião, a melhor maneira de organizarmos a energia que nós humanos produzimos e trocamos. Alerta: antes de me taxarem de socialista ou comunista, saibam que criticar o capitalismo e suas iniquidades não te faz automaticamente um fã de Lênin. Se você vê o mundo de uma maneira binária, simplista e reducionista a ponto de achar que estou fazendo uma apologia do socialismo simplesmente porque não tolero os defeitos do capitalismo, largue esse livro imediatamente e vá ler algo da Bel Pesce. Provavelmente a livraria ainda aceitará a troca e te devolverá uns trocados. Alerta feito, quantos aqui não se sentem deprimidos no fim da tarde de um domingo, não odeiam uma segunda-feira?

Você não odeia a segunda-feira, você odeia o modo de produção capitalista. Nós, humanos, gostamos de trabalhar. O que não faz o menor sentido é trabalhar pela sobrevivência, sem qualquer propósito além de comprar coisas que supostamente nos farão felizes — e, para isso, arrancamos nossos próprios couros para bater metas e ganhar bônus. O maior problema dos departamentos de recursos humanos das corporações, que trabalham para homogeneizar sua força de trabalho, desumanizar seus trabalhadores, regular seus comportamentos, padronizar as almas e fazê-las “vestir a

camisa da empresa”, é convencer bilhões de pessoas a se esfalfarem dez horas por dia, no melhor dos casos, para que alguns milhares se beneficiem do fruto deste trabalho. São milhares que sequer tem rosto, os “grandes acionistas”.

Aliás, existe algo mais deprimente e ridículo em uma corporação do que a casual friday, a licença que dão para que seus executivos se livrem do uniforme terno e gravata e vistam outro uniforme, o das camisas esporte, calças cáqui e sapatênis? Essa é a ideia de diversão em uma corporação, casual fridays. E, no limite, mesas de pebolim e de pingue-pongue, que servem meramente como decoração. São arapucas para os olhos dos que estão ocupados demais, trabalhando doze horas consecutivas para bater metas irreais. Ou alguém já viu em algum lugar uma meta que não preveja um crescimento infinito da empresa nos próximos anos em um planeta que é, paradoxalmente, finito?

Quando chega o momento de escolher entre crescimento econômico e estabilidade, seja ela ecológica ou entre os humanos, políticos, CEOs etc., quase todos preferimos o crescimento, porque fomos seduzidos a querer sempre mais, a próxima novidade, eternamente famintos e insatisfeitos com que temos. No século XXI, em algum momento teremos que escolher entre nosso estilo de vida atual ou nosso futuro, e esse dia precisa chegar rápido, se quisermos evitar uma catástrofe da qual não sairemos ilesos. Equilíbrio é o novo êxtase.

Não existe a menor chance de você se sentir parte de algo maior, porque o maior não interessa: você é apenas uma engrenagem em uma máquina enguiçada, que despende grande parte da sua energia para justificar sua existência absurda. Talvez essa seja a razão porque tantos sonham com o empreendedorismo: ele nos dá um propósito, algo além da sobrevivência. Algo que faz sentido em um mundo que não faz muito sentido. Algo maior do que dinheiro, acredite.

De volta à uma outra razão que faz com que a maioria das pessoas queira empreender: dinheiro. Piscinas de dinheiro. Você quer ficar rico, milionário, bilionário com a sua criação. Mesmo que você consiga chafurdar em dinheiro, você acabará refém dele e do estilo de vida que construiu. Terá de tapar os buracos causados pelo longo e desgastante processo para obtê-lo. Com o dinheiro, você buscará diferenciação de seus pares; seus gostos acabarão por se tornar cada vez mais excêntricos; suas viagens, mais caras; seu apartamento, maior; seu estilo de vida, cada vez mais nababesco. Até que chegará o dia em que nada aliviará a coceira que você sente nas entranhas: dinheiro, então, terá se transformado em uma doença, uma desordem psíquica, uma compulsão. Cocainômanos muitas vezes usam notas altas de dinheiro para aspirar o brilho do pó. Todas as vezes que presenciei isso, e não foram poucas, me perguntava o que causava mais dependência, se o pó ou o canudo. Acredito, sinceramente, que o canudo.

Liberdade não é, portanto, uma calça jeans ou a escolha entre 26 tipos diferentes de iogurte. Foi essa a ideia que a publicidade nos fez engolir, mas não acredite nela. Não somos livres. Mas estas estreitas lâminas de liberdade às quais me referi há pouco, estas sim, as perseguiremos como fina iguaria pelo resto de nossas vidas. Por elas vale a pena morrer.

Você precisa repensar o papel do dinheiro em sua vida e nas decisões que toma em nome dele. Julgo esta tomada de posição em relação ao dinheiro coisa de gente conservadora: o redimensionamento da ideia de dinheiro poderia levar à redução do abismo entre ricos e pobres, que tende a aumentar década após década. E isso me permitiria manter os dedos, ainda que perca alguns anéis. Eu me explico: para mantermos nossos privilégios de elite é urgente que nivelemos um pouco as relações entre nós, humanos. Do contrário a vida na Terra acabará em alguma espécie de bola de fogo. A mera existência de bilionários é absurda. Forçando um pouco a barra, consigo justificar a existência de milionários, mas bilionários? Sua existência é uma incoerência, um contrassenso. Para prevenir a vinda do dia final, quando seremos engolidos vivos pelas hordas de oprimidos e injustiçados que mantivemos por séculos enterrados nas periferias, precisamos aliviar a pressão entre as classes sociais. Existe algo mais conservador do que isso? Repito a imagem: percamos alguns anéis para que possamos manter os dedos. Continuar insistindo na fórmula atual, é ser no mínimo irresponsável, egoísta ou louco. Ou não ouves o tropel dos cavalos do apocalipse ao fundo, meu caro fidalgo?

A verdade é que com seu próprio negócio você não será livre. Você será refém de seus clientes, de seus fornecedores e de seus colaboradores. Não terá trinta dias de férias, finais de semana ou regalias que as lutas sindicais conseguiram arrancar dos patrões (termo cada vez mais obsoleto) no século passado. Terá que trabalhar na sua empresa o tempo inteiro, mesmo quando não estiver nela. Se confundirá com ela, e o limite entre seu negócio e você se dissolverá. Passará a não existir mais dois tipos de pessoa, o seu eu pessoa física e sua versão pessoa jurídica. As pessoas dizem: “Ah não, porque eu, enquanto pessoa jurídica” ou “eu enquanto pessoa física”, o que julgo um indício de bipolaridade. Você não consegue ter uma ética pessoal e uma ética profissional que sejam descoladas. Isso é para quem tem esquizofrenia ou para os canalhas.

Você será sua empresa e tudo será pessoal. It’s just business passará a ser para você um termo usado por mafiosos ou traficantes sem alma. Porque não existirá mais essa distinção entre negócios e vida pessoal. Tudo será uno e indivisível: negócios serão sua vida pessoal, e sua vida pessoal, sua ética, será a ética que você empregará no seu trabalho. O produto, não importa se um pão de queijo ou um aplicativo, será a cristalização de sua ética e visão de mundo, ou ao menos sua concepção de como o mundo deveria ser. Você será seu produto, e seu produto se confundirá com sua visão de mundo, o dois em equilíbrio e simbiose. Tudo mais será secundário, inclusive o dinheiro.

Mas a conta para essa sua opção será alta: empreender representa custos psicológicos brutais. Você dormirá com um olho aberto, se dormir. Viverá preocupado, com o maior nível de estresse e sobrecarga emocional entre todos os seus conhecidos. Desenvolverá o comportamento paranoico de um veterano com traumas de guerra. Depressão e ansiedade? Você as comerá com farinha.

Somadas às pressões externas, sejam as de mercado, de contexto econômico local e mundial, ou a crueldade com que a cultura ocidental lida com os perdedores, você terá de administrar suas pressões internas. E sua pele ali, pressionada entre essas duas forças imensas e de sentidos opostos,

ganhará a resiliência do diamante. Nada mais o abalará. Isso se você sair da experiência lúcido e inteiro, o que é pouco provável.

O que mais você ouvirá por aí é que tudo que você deseja está ao alcance da mente genial do empreendedor que criará a galinha dos ovos de ouro. É só ele não deixar de sonhar e nunca, jamais, desistir. Esse é o discurso de venda sobre o empreendedorismo, alicerçado sobre o conceito de meritocracia: tem que merece, e se você se esforçar, terá. A realidade, no entanto, é muito mais complexa. Não basta querer. Querer é só o começo. Talvez esse peso da responsabilidade que todo empreendedor carrega porque, afinal das contas, basta querer, seja responsável pelas altas taxas de depressão, pelo abuso de substâncias que causam algum tipo de dependência e pelas as altas taxas de suicídio entre a classe. Sombrio, sei, mas alguém precisa te dizer a verdade no começo de um livro sobre empreendedorismo. Não será fácil, mas tampouco você tem muitas escolhas, se for um empreendedor de verdade.

No entanto, existe uma saída. Basta redimensionar o significado do que é ser um vencedor. E isso não necessariamente passa por acumular dinheiro. Dinheiro em si não tem valor, não passa de uma convenção e recebe o valor que damos a ele: se convencionássemos que grãos de milho ou tatus- bolas poderiam ser usados nas trocas econômicas, cometeríamos crimes para ter acesso a mais tatus- bolas. Obviamente é cruel dar essa dimensão ao dinheiro quando 90% da humanidade se engalfinha dia a dia para ter acesso a coisas que você e eu julgamos naturais: três refeições por dia, um banho quente e um teto sobre a cabeça. Obviamente que o dinheiro é necessário para termos uma vida com conforto o suficiente para que não tenhamos que pensar em dinheiro. Nada é pior do que não ter dinheiro algum. Ficamos obcecados por ele em situação de penúria. Já tive fases em minha vida que não tinha sequer para o aluguel, e acredite: a busca por dinheiro virou na época a minha única ocupação.

Eu me dei conta sobre como o dinheiro se tornou um fantasma em nossas vidas não faz muito tempo. Moro em uma casa antiga, construída na década de 1930, e volta e meia acontecem problemas elétricos com ela. A fiação ainda é de pano, embutida na parede, e substituí-la demandaria uma reforma considerável. Vivo na eterna batalha entre mudar de uma casa que amo, ou reformá-la, o que levaria a uma longa negociação com a proprietária e certamente um dinheiro que não disponho neste momento. Enfim, enquanto a casa não entra em pane generalizada, espero pela próxima chuva e o subsequente curto-circuito no quadro elétrico e seus disjuntores. Não é exatamente incomum ficar um ou dois dias sem energia, e já me adapto rapidamente ao fato.

No último verão, em decorrência das chuvas torrenciais, meu quadro de luz quase explodiu. Porque eu sempre esperava que a energia voltasse no dia seguinte, e o dia seguinte nunca chegava, resisti a ir para um hotel. Enquanto isso, sem eletricidade, me adaptava como podia: adeus ao banho quente, usava a conexão de meu celular para navegar na internet, carregava os aparelhos eletrônicos em tomadas alheias, o que é constrangedor, acredite. Não sabia que usar por muito tempo a tomada de

um lugar causava tanto incômodo em mim e nas pessoas que trabalham no lugar, como se meu laptop fosse um vampiro energético.

Depois do terceiro dia sem energia, comecei a mudar a minha relação com o mundo. Foi inacreditável. Passei a ser mais mesquinho, menos humanista, pensava em tomadas o dia todo. Caçava energia nos lugares, e qualquer cinco minutos e uma tomada eram chances aproveitadas por mim para carregar o que ainda me mantinha em conexão com a humanidade. Tive um breve gosto do que acontecerá após o apocalipse.

Percebi que se ficarmos três dias sem energia elétrica, provavelmente nos debruçaremos sobre o caos absoluto e o fim do humano tal como o conhecemos hoje. Digo isso porque não entendo como não colocamos uma vela diante das tomadas e lhe agradecemos a existência todo santo dia. É sobre as tomadas, como manifestação visível da existência de algo imaterial como a energia elétrica, que a nossa civilização está montada, não sobre o dinheiro, que pauta 70% da nossa existência. Tomadas são os totens da humanidade. Olhamos para elas como algo absolutamente natural, como se fossem parte da natureza de ser humano.

O que quero dizer com essa digressão é que colocamos o dinheiro no eixo central de nossas vidas, quando deveríamos colocar uma tomada, como manifestação da existência da eletricidade. Você poderia contra-argumentar que ambos são relacionados, e sim, em algum nível são. Você precisa de dinheiro pra ter acesso à eletricidade. Então dinheiro deveria ser visto como um articulador de algumas formas energéticas necessárias para a manutenção de nossa existência e civilidade, como um meio para coisas ainda mais importantes do que ele, e não como um fim em si ou um valor de diferenciação entre pares.

Além disso, quando dependemos de dinheiro para ter prestígio, uma posição social destacada, para obter “sucesso”, segundo a concepção das sociedades ocidentais — por meio da compra de objetos supérfluos que não fazem o menor sentido em nossas vidas — enfim, tudo que chamamos atualmente de luxo, então o dinheiro se transforma na chave para acessar algo que transcende as necessidades humanas mais básicas e vira um valor em si. Todos somos vulneráveis à aprovação social, não é isso o que disputo aqui: a necessidade de pertencer, sermos aprovados ou apreciados pelos nossos pares é uma das motivações humanas mais poderosas.

Existem,, no entanto, outras maneiras de nos diferenciarmos, muito além da aquisição de bens de consumo com marcas estampadas que nos emprestam prestígio: liberdade, vaidade, satisfação com suas conquistas pessoais — que não necessariamente envolvem dinheiro –, vontade de deixar um legado ou de influenciar e ser amado. Todas são razões de diferenciação que na maioria das vezes o dinheiro não pode comprar, e são elas que os melhores empreendedores que conheço perseguem. Uma grande parte da criatividade artística, compromisso político e fervor religioso dos humanos é alimentada pelo medo da finitude, da morte; e empreender pode ser uma plataforma para em algum nível escapar também da morte. Deixar sua marca no mundo, criar um legado.

Acredite, se você está lendo este livro você está entre os afortunados. Entre os 10% mais privilegiados da humanidade. Você pode escolher, quando tantos jamais terão essa chance. Portanto, quando me refiro a redimensionar a ideia de dinheiro, falo da perspectiva de nós, os privilegiados. Porque para redimensionar algo, é necessário ter acesso a esse algo, e infelizmente os outros 90% não têm acesso a dinheiro suficiente para suprir suas necessidades mais básicas, o que dirá para lhes dar alternativas sobre o que fazer com ele.

Sem esse redimensionamento do dinheiro não conseguirei lhe explicar o que aprendi durante meus anos como empreendedor. Isso posto, precisamos de mais uma convenção para avançarmos nas ideias deste livro: dinheiro é apenas mais uma forma de energia que você, empreendedor, poderá usar para chegar ao seu objetivo. Capital é apenas uma das variáveis. Se fosse apenas para contar dinheiro e convertê-lo em coisas, eu teria parado no meu primeiro empreendimento e não estaria escrevendo este livro.

Outras variáveis tão ou mais importantes são a sua capacidade de engajar gente talentosa, de criar uma cultura e uma visão sobre o produto, de construir ou fazer parte de comunidades que pensam como você, de encontrar o problema certo e conseguir solucioná-lo. Em suma, fazer com que você encontre no seu produto uma maneira de se expressar, de criador e criatura se confundirem e de você ter um propósito que vá além do que acumular dígitos em servidores de instituições financeiras.

Dinheiro para o empreendedor será uma forma de energia. Ele é relativamente fácil de cultivar no mundo do capitalismo financeiro onde se coloca dinheiro para procriar com dinheiro em cativeiro. Humanos doentes o usarão para convertê-lo em coisas sem sentido. Você, não. Você o articulará com outras grandezas energéticas e buscará riqueza, que não necessariamente tem a ver com dinheiro, mas que pode ter seu retorno em outras moedas: capital social, vaidade, busca por excelência, ego ou grandeza, reputação, sentido e propósito em sua vida — você saberá qual a sua motivação. Agora, se está apenas atrás de retorno financeiro para seu investimento, sugiro alguma aplicação indicada pelo seu gerente.

A partir do momento que o dinheiro ganha essa perspectiva, transformá-lo em coisas perde o sentido: iates, ilhas, carros velozes, sapatos de salto com solas cor de carmim não são coisas adquiridas com dinheiro, mas com pedaços de sua vida, porque para obter dinheiro você teve de abrir mão de tempo de sua vida finita para a ele ter acesso. Compre coisas e o dinheiro perde o potencial de transformar o mundo à sua volta. Invista dinheiro nos seus projetos, pense nele não como um meio para se ter acesso a um bem material, mas como uma unidade energética de transformação do mundo, e você estará se convertendo em um empreendedor. Os melhores com que me deparei respeitam o dinheiro pelo que ele pode fazer para transformar a realidade, não por ele poder comprar pedaços da realidade que aí está.

Você, quando desenvolve um produto, além da satisfação egoica por criar algo, de colocar um pedaço seu para fora, irá tocar vidas. Articulará diversas formas de energia, inclusive a energia de humanos, que acabará por resultar em seu produto e na razão de existência dele no mundo. Se você

for bem-sucedido, mudará a sociedade; e se muito bem-sucedido, criará um legado. E legado não pode ser comprado. O legado representará sua imortalidade, sua maneira de transcender a finitude representada pela morte. Seu produto influenciará muitos, criará uma relação de ódio e amor com quem trabalhou para construí-lo e com quem trabalhou para conseguir dinheiro e ter acesso a ele. Cada produto que saiu da fagulha inicial das dobras do teu cérebro é, no limite, você tocando centenas, milhares, milhões de pessoas. Tudo isso pode ser maior do que simplesmente acumular dinheiro.

Essa talvez seja a diferença entre um empreendedor e um empresário: o empreendedor sabe que existem outras grandezas além do dinheiro. O empresário sequer tem ideia, porque trabalha numa máquina abstrata onde o dinheiro tem uma camada simbólica, representada por um símbolo dentro de um símbolo que se dá o nome de valor do papel na bolsa. É tão imaterial, tão abstrato, que somente uma centena de pessoas no mundo sabe exatamente como funciona. Ele é um extrativista: não se vê como articulador, mas como um conquistador. Precisa maximizar seu investimento, a despeito das consequências. Vive em permanente estado de guerra contra tudo e todos, e seu espírito beligerante o condicionou a extrair o máximo de valor no menor tempo possível. Seu consolo e anestésico é Miami no final do ano.

Bem, mas se você realmente quiser empreender para ter mais acesso ao vil metal, eis outra ilusão. Pouca gente se dá conta, mas ter o próprio negócio normalmente trará rendimentos menores ao final do mês do que você conseguiria como assalariado no mercado de trabalho. No entanto, para o empreendedor de verdade, isso pouco importará. Ainda que ganhe menos, será exponencialmente mais feliz do que o empresário, aquele que pede para seus funcionários “vestirem a camisa”, que os poda como podaria bonsais.

A propósito: nunca se intitule CEO de sua startup. Além de impreciso, só te colocará perante os outros como uma espécie de rei louco e megalomaníaco de um país imaginário. Um CEO, no mais das vezes, é apenas uma alegoria no mundo corporativo, incapaz de produzir algo além de palavras sobre si mesmo e sobre a sua companhia. No mais das vezes, é apenas um lobista. cercado de pessoas que batem palmas para qualquer besteira que dizem, treinados na oratória e na abstração dos números e metas, descolados no mais das vezes da sociedade que os cerca.

Como empreendedor você sabe que não existem muita alternativas além de você criar seu próprio caminho. A insegurança e o medo do futuro te acompanharão sempre, mas a alternativa — ser um executivo de uma corporação e morrer lentamente envenenado por sua própria bílis — é impensável. Aos 40 anos, sua única preocupação na vida será a manutenção de seu minúsculo emprego e, consequentemente, o contracheque no final do mês, a ração que manterá seu “nível e qualidade de vida”. Você chegará à corporação aos vinte e poucos anos, egresso da faculdade, cheio de energia e vontade de mudar o mundo, e pouco a pouco essas vontades serão destruídas e você vestirá a camisa.

Dentro da corporação sua energia será dispensada não com o produto ou mesmo com o cliente final, mas apenas com a manutenção do status quo da burocracia em si, que se assemelha a uma corte europeia do século XVI. Como executivo, sua vida será regulada por conference calls surrealistas, reuniões dadaístas, comida ruim e relações de subserviência com os predadores na cadeia alimentar do mundo corporativo e de predação com os que estão na base desta pirâmide.

Um empreendedor prefere viver intensamente e falhar, existir como um nômade e se expressar por meio de seu produto, do que assumir a forma de um burocrata sedentário preocupado apenas com a sua subsistência. Nada pode ser pior para um grande homem do que um bom emprego, não me recordo de quem é essa frase. A expressão “gaiola de ouro” se aplica como uma luva para um executivo dentro do mundo corporativo. Dinheiro nenhum consegue comprar o controle que um empreendedor tem de sua vida, ainda que esse controle seja relativo.

A essa altura você já deve ter entendido a mensagem: liberdade e dinheiro não são razões para empreender. Mas são as razões que estão por trás da decisão de 90% dos que se dizem empreendedores. Antes que eu me esqueça, por favor, não se chame de empreendedor até realmente ter algo material, até o seu produto existir. Até lá, se chame de desocupado investigando uma solução, diga que está em estado de ócio criativo, um vagabundo motivado, mas o empreendedor em você só surgirá quando a fagulha da ideia for viabilizada em um produto ou serviço concreto.

O mundo não precisa de mais uma pessoa que se julga empreendedora sem nunca ter criado algo além de uma apresentação no keynote e um plano de negócios, um livro de autoajuda ou palestras motivacionais. Empreendedor não é profissão, é apenas um estado. Enquanto você estiver abrindo seu caminho a picadas, você será empreendedor. Depois da colônia assentada, será meramente um empresário, um sedentário, pelo menos até se aventurar por novos territórios. Não existe empreendedor quando o negócio está montado. Deixe de se chamar de empreendedor se não estiver efetivamente montando algo.

Digamos que, ao contrário, você é um romântico, desses que querem empreender por paixão, porque tal produto ou ofício é a razão da sua existência. Você acredita que cozinha como ninguém, se julga capaz de converter um Big Mac em uma iguaria digna de imperadores, e sabe que ninguém nesse mundo bate seu risoto. Ora, você faz isso tão bem, recebe tantos elogios de seus amigos e comensais, é óbvio que se executar a sua paixão profissionalmente ganhará rios de dinheiro e mandará aquela banana-da-terra para o seu empreguinho: “Escolha um trabalho que você ame e não terás que trabalhar um único dia em sua vida”, você cita Confúncio de boca cheia e já pensou em tatuar a frase no seu ventre. Tsc, tsc.

Devem ter traduzido mal o chinês, porque a lua-de-mel com sua paixão acabará mais rápido do que casamento sacramentado em cartório de Las Vegas. Se fazer pão de queijo é a atividade mais prazerosa da sua vida, a partir do momento em que você se profissionaliza e começa a produzir suas lindas bolinhas douradas em larga escala, sua paixão irá inevitavelmente definhar. Nada resistirá ao

rigor da padronização, do processo de produção e da burocracia necessária para produzir suas pepitas de polvilho.

Digo mais: seria saudável você manter uma distância segura em relação ao produto que criou. O que importa é a solução a um problema, e todo problema permite múltiplas soluções. Não seja completamente cego de paixão pelo seu produto, porque isso te impedirá de ver seus defeitos mais óbvios. Algo como um pai que chama o estrabismo do filho de charme. Veja o produto ou serviço criado como a solução de um problema que você identificou e, se a solução não foi a certa e o problema ainda existe, insista desenvolvendo uma nova abordagem para o problema. Dificilmente você acertará logo de largada. Empreender é um longo processo empírico, refinado por meio de tentativas e erros e ao custo de sua saúde física e mental.

Aquilo que em princípio parece ser uma boa ideia, tipo: “sou DJ, amo música, tenho bom gosto musical e quero abrir minha boate”, pode ser a sua motivação, mas abrir uma boate está longe de ser algo relacionado somente à música. Há contas, fornecedores, funcionários, burocracia e uma lista infindável de afazeres, itens e dores de cabeça que exigem comprometimento total do insensato que se aventurar nesta empreitada. Uma boate não é apenas um lugar aonde as pessoas vão para beber, socializar ou dançar: é uma estrutura de entretenimento que existe há pelo menos cem anos e que está relacionada tanto com uma infraestrutura (as relações de produção necessárias para que o dia a dia operacional seja possível), quanto com uma supraestrutura: questões como a cultura, o poder político e suas leis confusas e contraditórias, instituições ora repressoras, ora incentivadoras dos negócios criativos de entretenimento. Outra questão é o seu papel na sociedade, porque toda boate cumpre uma função social como lugar de escapismo, além de ser daninha em múltiplos níveis: do incentivo ao consumo de drogas ilícitas ou legitimadas pelo Estado, como o álcool; seus rituais, pares e assim sucessivamente. Um produto tem múltiplos níveis de interpretação. Nada é o que aparenta ser.

Gostar do que é servido, seja álcool ou música, lhe garanto, te fará ficar intoxicado pela estrutura e você esquecerá da sua relação com a infra e com a supra que relacionei há pouco, o que pode ser desastroso. Uma boate, suporte onde me encontrei como empreendedor, funciona na maioria das vezes como uma câmara de reverberação para os vícios: se você gosta de beber socialmente, existe um grande risco de se tornar alcoólatra. Se gosta de se intoxicar vez ou outra, o que é absolutamente saudável e recomendável, provavelmente se tornará um toxicômano, e assim sucessivamente. Onde se ganha o pão, não se come o pão, capisce?

A figura do empreendedor que está no nosso imaginário não corresponde à realidade. A ideia norte-americana do empreendedor como um herói contemporâneo, o self-made man, um imigrante que veio de uma Europa em frangalhos e “fez” Nova York, o cara que começou com uma lojinha de alfaiate e acabou se transformando em um imperador do varejo, simplesmente não existe no século XXI. O mundo hoje é muito mais cruel para os negócios do que foi no passado recente, e, ao mesmo tempo, permitiu a existência de novas fissuras tecnológicas que, se bem exploradas pelo empreendedor, permitirão que ele consiga criar e colocar seu produto no mercado a despeito da

quantidade de capital inicial necessária para isso, o que era inimaginável há meros cinco anos. Em suma, o mundo ganhou exponenciais de complexidade que se aplicam à criação de seu negócio. Não seja simplista na hora de estruturá-lo e nunca, jamais, tenha uma única perspectiva dele. A miopia nos negócios costuma ser uma doença fatal.

Se você quer abrir um negócio porque chegou ao fundo do poço ou jamais conseguirá uma segunda chance no mercado de trabalho, ou ainda porque sua área está em crise terminal ou você é sempre preterido nas seleções de vaga, é possível que esteja no caminho certo. Afinal, uma das razões mais legítimas que empurram um empreendedor em direção ao seu salto no vazio não é a ideia, o tino para os negócios, foco, perseverança, coragem, liderança ou a capacidade de planejamento. É o desespero. O empreendedor deve ter, acima de tudo, a fibra de um sobrevivente do apocalipse. Fome física ou metafórica é um dos melhores combustíveis da existência humana. Nunca se fez uma revolução de pança cheia.

A demissão, seguida do desespero, me levou a empreender.

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