Epílogo de Empreendedorismo para Subversivos, com previsão de lançamento para outubro de 2017 pela editora Planeta

Palavras finais: ser empreendedor é um diagnóstico

Pare para pensar por um momento nessa relação de algumas horas que tivemos por intermédio do objeto que você tem agora em suas mãos. Demorei mais de um ano para conseguir articular as quase 75.000 palavras que formam este livro. A bem da verdade escrevi um pedaço minúsculo dele em um mês, fiquei sete meses sentado sobre meus próprios glúteos fantasiando inúmeras razões para justificar o fato de que, apesar de ter um prazo a cumprir, isso, aquilo ou aquilo outro me impediam de continuar. Criei justificativas para mim mesmo nas quais me lambuzava, dava tapinhas em minhas próprias costas e pensava que quando chegasse o momento eu conseguiria tirar este livro da minha lista de coisas a fazer. Só tomei vergonha na cara no dia em que sentei com a minha editora para tomar um café no Mirante, e vi em de seus olhos que ela já tinha passado por aquilo inúmeras vezes: administrar o ego e a preguiça de humanos pretensiosos que se julgam escritores apenas porque estão escrevendo um livro, que provavelmente não será lido por mais de uma centena de pessoas. Quando sentei diante dela e percebi no primeiro “E aí, como anda o livro?” que ela tinha dito isso centenas, milhares de vezes, e que eu poderia ter um pouco de empatia e terminar o que tinha me comprometido a fazer, sem que ela ficasse o tempo todo me lembrando sobre os compromissos que assumi, me dediquei dia e noite ao livro e o regurgitei em menos de três meses.

Foi um exercício mais fluido do que imaginava. Sempre fui um bom leitor, e fantasiava que a leitura era uma espécie de mesa branca, uma sessão mediúnica onde um humano, o autor, sequestrava a nossa voz e falava dentro de nossa caixa craniana, entre as nossas orelhas, por horas e horas e horas. Sempre preferi a companhia dos escritores já mortos, e me deslumbrava com a possibilidade de sobrevida que o livro lhes garantia. Ainda que fosse uma espécie de simulacro de eternidade, como se a voz do autor tivesse sido empalhada, era algo melhor do que o total esquecimento. E talvez seja isso que os humanos pretensiosos que escrevem livros busquem: essa triste ilusão de imortalidade.

Enfim, só fiz essa longa digressão porque isso aqui é um posfácio, e isso quer dizer que nos separaremos aqui. Queria lhe deixar um último conselho, o derradeiro. Use esse livro como uma caixa de ferramentas. Muitas vezes já briguei mentalmente com autores de livros, ora porque não entendia o que escreviam, o que me fazia sentir um idiota, ora porque discordava visceralmente de suas posições. Até que um belo dia eu me dei conta que o autor não estava escrevendo para mim, mas também para mim. Ele estava, antes de mais nada, falando em voz alta, dialogando consigo mesmo. Isso quer dizer que nem tudo que ele escreveu serviria para mim, mas algo, uma frase que fosse, seria uma ideia que germinaria em meu cérebro e o arrebentaria por dentro meses mais tarde. Espero que destas dezenas de milhares de palavras você tire algo, apesar de ter sido um tanto polêmico em algumas passagens. Acredite, foi para evitar que você caísse no sono.

Você já deve ter compreendido que empreender é uma das atividades humanas mais arriscadas, e das mais excitantes e nobres. Provavelmente, como a narrativa, empreender tem por origem os primeiros agrupamentos de primatas, quando proto-humanos se reuniam para resolver um problema da comunidade, por exemplo, onde encontrar mais comida ou incrementar a segurança do grupo. Olhe à sua volta: tudo que você toca, tudo que vê, é fruto do engenho humano e nossa capacidade de domesticar a natureza e criar uma nova realidade. Se não fosse por um empreendedor, você provavelmente não estaria me lendo. O empreendedor, de certa maneira, é a antena da raça. Eu, você, somos nós que nos aventuramos onde ninguém quis ir antes, essas pessoas que pensam antes de mais nada em sua segurança. Segurança é um veneno de alma para um empreendedor, uma espécie de metal pesado como o mercúrio: reluzente, mas que te mata por envenenamento aos poucos. Todo empreendedor gesta em si um suicida, o elemento da criação e da destruição, no limite de si mesmo. Todo empreendedor tem fome de sede, e gana de fogo.

Isso posto, não se leve a sério demais. Principalmente, não busque fórmulas prontas em livros, cursos, palestras. Empreender é uma arte, uma ciência inexata, um caminho. Não existem exemplos a serem seguidos, narrativas de sucessos, fracassos, e coisas que funcionaram ou não em determinados lugares e momentos históricos, mas não existem verdades. Nada do que você ler ou ouvir te ajudará no caminho que tem diante de si, acredite. Seja cético, não busque mentores, gurus, papas sobre o assunto, e aqui advogo em causa própria, não confie em empreendedores que empreenderem business planes em apresentações de Powerpoint. Esse tipo de gente só cria produtos para vender a você a ilusão de que existe um caminho certo para o sucesso, e de que esse caminho seguro está à sua disposição. Basta querer. E se você não foi bem-sucedido, bem, é porque você não quis o suficiente. São pessoas tóxicas, das quais você precisa manter distância.

Suas histórias de sucesso ou fracasso, seus livros, suas palestras, tudo é só um produto, e você o público-alvo. Fuja destas pessoas. Não busque respostas em nenhum lugar. Procure capacitação técnica, especialmente nas áreas de administração, operações e finanças, e o resto você aprenderá no caminho. Não siga conselhos, nem os meus (se bem que você não irá se ferir se estudar como administrar sua empresa, convenhamos. É um tanto óbvio). Não leia livros de negócios, empreendedores, autoajuda, não veja palestras online, compre cursos ou abra franquias. Gente como eu, que vende pás em vez de sujar as mãos batendo areia para descobrir pepitas de ouro no leito de um rio, são sempre os que mais se dão bem em períodos como esse, onde por conta da tecnologia e do fim iminente do emprego formal, empreender virou uma palavra de ordem, uma narrativa heroica à disposição de todos, basta querer. Não, não basta querer. Querer, com toda a sua gana, é só o começo. Fuja de vendedores de pás como nós. Somos vampiros, queremos apenas sugar a energia que deveria ser empregada na resolução de sua ideia.

Você ouvirá dezenas de conselhos, centenas deles. Quando contava para os meus amigos que iria abrir uma boate em meio aos puteiros da rua Augusta, no começo dos anos 2000, eles me olhavam com certa pena e um sorriso amarelo no rosto, como se lhes tivesse que havia contraído uma doença terminal com poucas chances de cura. “Tem certeza?”, foi o que mais ouvi. Minha mãe quase se arrebentou em pranto, meu pai balançava sua cabeça em silêncio e me julgava por dentro, e isso doía mais do que o “louco!” que ele queria vociferar entre os dentes. A bem da verdade eu não tinha lá muitas alternativas, então segui adiante. Mas se tivesse um emprego oferecido a mim na época, um que fosse, eu não estaria aqui agora. E me contorço por dentro só de pensar onde poderia estar.

Você está prestes a entrar em um labirinto. Alguns conselhos só te farão perder tempo e seguir o caminho que dará em uma parede, ou um espelho, e outros darão em novos caminhos e bifurcações. Não ouça conselhos, mas tampouco ponderar e refletir sobre eles é arriscado e pode significar perder uma lição importante já aprendida por alguém. Eu sei o que você está se perguntando: “Como saberei qual conselho seguir e qual não?”. Não sei a resposta, sinceramente. A verdade é que ouvi menos conselhos do que deveria, porque sou turrão e ególatra demais. Isso me custou muita dor e energia desperdiçada. Queria ter ponderado mais sobre o que ouvi e não ter descartado os conselhos logo que entraram pelas minhas orelhas, porque me julgava o inteligente do pedaço. Uma triste constatação: normalmente quando você se julga o mais esperto e inteligente da sala, você não é. Por maior que seja sua massa cinzenta, conseguir ponderar todas as variáveis que influenciam uma decisão que impactará a sua vida, seja de maneira mundana, seja de maneira definitiva, é impossível. A civilização vai mais além dessa gosma cinzenta de que você tanto se orgulha.

Busque conselhos para partes específicas do seu negócio, não para o todo. Do todo, ninguém saberá melhor do que você. São os conselhos específicos, e não os globais, que devem ser ouvidos. No futuro, todos seremos empreendedores, cada qual com um caminho, e nenhum deles poderá ser pisado duas vezes. Essa estrada é sua e somente sua. Afinal, empreendedor não é uma profissão, tampouco uma escolha. Ser empreendedor é um diagnóstico.

Que bons ventos te levem.

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