1

Eu sou feliz. Ou melhor eu era.

Sabe quando se está tão feliz com uma coisa que não consegue acreditar que algum dia isso vai mudar? Eu era assim com minha família.

Minha mãe e meu pai se conheceram na faculdade, todos diziam que eram perfeitos. Minha mãe engravidou depois da formatura, eles ficaram felizes e quando eu nasci a mãe e a irmã da minha mãe se mudaram para junto deles. Meu pai tinha dinheiro, herdou dos pais que ele perdeu ainda criança. Nossa casa era muito grande e todos estavam sempre animados. Mas eu ouvia conversas estranhas entre meus pais, algo sobre não se amarem mais. Eles ainda pareciam perfeitos.

E quando completei seis anos eles me deram um cachorro e contaram que eu teria um irmão ou irmã. Quase estourei de felicidade. Rufus era meu melhor amigo, melhor que qualquer ser humano. Mesmo sendo só um cachorro ele desde filhote me entendia. E minha irmã nasceu, dois meses depois meus pais reuniram todos para uma reunião. Eles se separariam. Mas os dois estavam sorrindo. Todos sabiam já, a reunião era para me contar. Não fiquei triste. Eu já sabia, eles estavam com outras pessoas.

Eles continuaram morando juntos, mas o papai trouxe uma mulher para nossa casa e a mamãe também. Não entendi bem no inicio quando vi minha mãe beijando outra mulher. Mas como minha avó disse, elas eram perfeitas também e passei a ama-la como minha mãe também.

A nova esposa do meu pai não podia ter filhos, ela me contou quando a encontrei chorando no banheiro. Então eu disse que a amaria como minha mãe também e ela sorriu e eu prometi que a faria sorrir todos os dias. Ele disse que eu era muito amável e sabia como tratar uma mulher. Eu respondi que meu pai me ensinou isso.

Eu tinha três mães, cinco se contar minha avó e minha tia. Ainda tinha meu pai, minha irmã e Rufus. Quando completei doze anos me apaixonei perdidamente por minha vizinha. Ele disse que não podia brincar comigo pois minha família era estranha, então eu quebrei a boneca dela. Ela chorou, e seu pai brigou com o meu. Levei uma bronca naquela noite e mesmo eu contando o que aconteceu, meu pai disse que não se faz uma garota chorar. E eu nunca mais fiz isso.

Minha irmã adorava brincar comigo e com o Rufus e eu adorava brincar com ela. Inna, seu nome era esse. Eu só queria a proteger de todos. Principalmente das palavras de hostilidade que nos eram dirigidas por causa da nossa família.

Mas apesar de tudo isso eu era feliz. Tinha tudo que queria. Minha família me amava e me aceitava mesmo sendo quase mudo. Uma professora recomendou que me levassem a um médico, chorei por três dias na época, como odeio os médicos. Mas minha mãe ignorou a recomendação, ela sabia que eu não era mudo. Eu só não sentia a necessidade de ficar abrindo a boca para falar qualquer coisa.

E depois daquele dia isso só piorou.

Atomic on Wattpad.