Who wants to live forever?

A Morte leva os bons cedo demais. Sempre cedo demais.

Catei essa foto lá. Nele mesmo. No Google.

Sempre atrasada, descobri hoje que mais uma mulher partiu. Ela tinha vinte e cinco anos. Não nos conhecíamos bem. Fomos apresentadas uma a outra no fim do ano retrasado e não me admiraria se ela sequer recordasse de mim. Nós não conversamos profundamente sobre nada, nem brincamos só uma com a outra, não saímos para lanchar nem para celebrações em bares ou festas em boates, participamos do mesmo projeto mas não no mesmo tempo, não tínhamos contato uma com a outra. Ela tinha vinte e cinco anos.

Tenho um certo talento para memorizar rostos. Nem sempre dos nomes que os acompanham, mas me lembro sempre dos rostos. O dela, em específico, acompanhava o nome e o apelido. Bastava uma ou duas referências e eu sabia que estavam falando dela. O que me fez marcar esse nome foi o carinho com o qual ele era pronunciado por todas as pessoas que a conheciam de verdade — não gente como eu, que só sabia o nome, um pouquinho de nada de sua história e um “oi, tudo bem, prazer em te conhecer”. Ela tinha vinte e cinco anos.

O ar faltou para ela e ela se foi. Assim, meio que do nada. Faltou-lhe o ar. Ela tinha vinte e cinco anos.

Morte Súbita, da J. K. Rowling, demonstra — assim como Desventuras em série e tantas outras obras literárias — como uma partida inesperada desestabiliza aqueles que ficam. Eu mesma escrevi sobre isso no meu último texto. As pessoas vão e nos levam junto. Não, ela não me levou agora. Ou levou e eu ainda não percebi o que foi. Ah, é, ela tinha vinte e cinco anos.

Sim, eu consigo imaginar o que os amigos e familiares dessa menina mulher estão sentindo.

A morte dessa alegre menina transformou meu dia qualquer em um dia de contemplação. Ela era uma garota que, no começo da carreira, já começara a se estabilizar no meio. Ela era atriz e cantora. Cantava doce. Tudo indicava uma continuação de carreira brilhante. Mas o ar faltou e ela se foi. Ela tinha vinte e cinco anos.

Pego-me pensando hoje em como ela tinha força para seguir seus sonhos. Eu sabia muito pouco sobre ela, mas sabia dessa força. Ela tinha vinte e cinco anos e já trabalhava com uma figuras conhecidas e bem estabelecidas do Teatro. Tinha acabado de participar de um projeto de grande porte. Peça bem criticada. Novos amigos no elenco. Gente que ainda está chorando sua perda.

Minha avó costumava dizer que “basta estar vivo pra morrer”. Minha avó faleceu com 76 anos. Lizete tinha mais de sessenta quando partiu. Renata tinha 25 anos. O ar faltou para todas elas. É, minha velha, basta estar vivo para morrer.

Esse último fôlego que faltou me lembra que eu tenho que sentir intensamente o que sai pelas minhas narinas nesse exato momento. Opa, entrou mais uma lufada. Saiu outra, bem lenta. Pode deixar, vó, que eu estou respirando bem. Eu vou continuar respirando bem até o ar me faltar. Vou me esforçar ao máximo pra ser tão gentil, alegre e corajosa como vocês três foram. E você, moça de 25 que foi tão cedo, obrigada por me lembrar que o sonho é possível. Eu só tenho que respirar fundo e abraçar tua cantiga. Ela acabou de passar por aqui. Você mal me conhecia. Eu mal te conhecia. Mas vou te levar comigo.

Um moço chamado Mahatma Gandhi falou isso aqui. Ele me pareceu ser um cara sensato. Acho que vou ouvir.
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