Eu Escolhi Acreditar

Sobre Deus, amor e cristianismo.

Eu não lembro a primeira vez que que fui apresentado ao conceito de Deus, imagino que ninguém lembre. A religião nunca foi exatamente um fator chave na minha vida, mas estava lá, muitas vezes como pano de fundo. Meus pais não me levavam à missa, mas minha mãe ensinou a rezar, primeiro o Santo Anjo, depois a Ave-Maria e então o Pai-Nosso. Aos 11 anos talvez eu tenha aprendido a maior parte do que sei sobre o catolicismo, entrei em um colégio Marista e frequentei a catequese para fazer a primeira eucaristia. Passagens da bíblia, os sacramentos, a santíssima trindade e todo o beabá que um católico deve conhecer.

O fato é que o Deus que fui apresentado quando criança era o Papai do Céu, amigável, amoroso, um tio que a gente conversa sem problemas de igual pra igual. O Deus oficial, das missas, me parecia muito sisudo, exigia uma certa “genuflexão” ao entrar em sua casa, algo que meu eu de 11 anos nunca deu muita bola. Interessante notar que mesmo dentro daquele universo, ainda criança, eu questionava o que me era exigido. Aonde já se viu, eu ter que me ajoelhar só pra entrar em uma igreja? A própria idéia de se ajoelhar durante a consagração me parecia exagero para um Papai do Céu. Com o tempo algumas idéias me soavam estranhas. Começaram com pra quê inferno? Qual a objeção ao divórcio?

Quando, levado por um senso de obrigação e a possibilidade de eleger outro padrinho, cheguei na crisma, muitas das minhas idéias contrárias à instituição da igreja já estavam formadas. O catequista, no entanto, no primeiro dia daquela minha nova etapa no catolicismo escreveu a frase clichê “Deus é amor” no quadro negro. Sim eu conhecia a frase, talvez até já tivesse tirado sarro dela com os amigos no colégio, mas acho que nunca tinha pensado muito sobre o poder daquelas 3 palavras. Ironicamente esta idéia bem simples e bastante difundida começaria a me afastar cada vez mais do catolicismo. Os meses seguintes na catequese tiveram algumas pequenas polêmicas entre os jovens catequizandos e o catequista, era claro que eu não era o único com objeções. Se ali estava futuro da juventude católica, eles não pareciam muito felizes com alguns dogmas.

Eu tinha 15 anos na ocasião, não faz tanto tempo assim. Muitas vezes naqueles 15 anos eu duvidei de Deus, tive crises existenciais me perguntando se ele era real, se ele era mal, ou apenas não se importava. Mas a verdade é que, na maior parte do tempo, eu simplesmente não me incomodava em pensar sobre Ele, em lembrar d’Ele. Cada vez menos eu sentia a dimensão religiosa na minha vida, mas aquele momento em que eu parei para pensar em Deus realmente como uma figura de amor, fazer o caminho contrário foi apenas lógico, entender o amor como manifestação de Deus e em seguida o amor como Deus em si.

Essa era uma idéia poderosa pra mim e, dali em diante, não fui o mesmo. Se o amor é Deus e Deus está em todos os lugares, todos os lugares tem potencial para o amor e toda forma de amor é validada por Deus. Todo o lugar poderia ser uma oportunidade para experienciar o amor e, dessa forma, Deus. Pouco a pouco a minha idéia de Deus ficou cada vez menos personificada e mais abstrata, Ele não tem como se importar conosco, pelo simples fato de que não é uma personalidade com desejos e planos, Ele simplesmente é.

Talvez daí para o agnosticismo ou ateísmo sejam dois ou três passos, é verdade. No entanto, quanto mais essas idéias se multiplicavam e diversificavam em mim, mais as experiências que eu vivia podiam ganhar dimensões espirituais. Uma caminhada na praia em um dia nublado com o vento contra o rosto se tornou uma experiência muito mais capaz de completar vazios do que uma missa. Quanto mais eu pensava em Deus não como em alguém, mas como em algo que está em tudo, mais eu conseguia encarar a vida como parte de algo maior, o que me afastava do ateísmo.

É bem provável que meu entendimento do mundo hoje esteja mais próximo do de um Jedi do que exatamente do cristianismo, mas não posso fugir dos valores que ele moldou em mim. Pra mim, todo o cristianismo se baseia em algo como o amor por princípio, o perdão como meio e Deus como fim e consigo me enxergar perfeitamente nessas palavras, só que minha definição de amor e Deus provavelmente divergem da do cristianismo.

Encarar o amor como Deus mudou minha perspectiva, me fez mais tolerante com o mundo e as pessoas. Me fez procurar em pequenas coisas as razões para continuar. Se estou certo ou errado não importa muito, o que importa é que eu escolhi acreditar, não só em Deus, mas no amor. Eu ficaria feliz de estar certo, mas não me importo de estar errado, é o que me parece mais justo.