catarses de banhos I

Fabiana Lopez
Sep 1, 2018 · 3 min read

recentemente eu encontrei um método de catarse muito saudável para mim, que não envolve me machucar de nenhuma maneira, algo que é uma tendência para mim.

eu preparo todo um ritual. acendo uma vela, coloco uma música que me agrada o mais alto possível (considerando que mais pessoas moram comigo), às vezes acendo um incenso, apago as luzes, entro debaixo do chuveiro, sinto a água bem quente no meu corpo e eu simplesmente falo. falo muito. vou falando tudo que me vem em mente, sem nenhum filtro, sem nenhum medo de expor aquilo que eu estou pensando e sem nenhum medo de me impor. eu me expresso totalmente para mim mesma por meio de palavras. nem ao menos gaguejo, algo que acontece mais do que eu gostaria. esse método de autoexpressão se tornou muito importante para mim principalmente por eu não saber falar sem filtrar, sem ter medo do que o outro vai pensar de mim. por isso é importante.

hoje, sexta-feira, depois de ter sobrevivido a mais uma semana totalmente no automático, eu senti a necessidade de botar tudo aquilo que eu estava evitando para fora. então eu fiz todo esse ritual. entrei numa brisa sobre mim mesma: me fiz a pergunta de que animal eu seria se eu pudesse escolher. eu sempre pensei nessa questão e sempre respondia para mim mesma: tartaruga ou porquinho da índia, sei lá porquê. hoje eu respondi que eu queria ser um rouxinol. pensei na essência de uma ave, de um pássaro: o que faz um pássaro um pássaro é o fato de ele ser um animal essencialmente livre e que voa. ele possui todo o céu só para ele, independente de quaisquer outros fatores. ele possui mais liberdade que qualquer ser humano poderia experimentar. ele é o máximo da liberdade. e não apenas isso, porque além de livre, ele voa, e os dois existem porque os dois existem. eles dependem um do outro. é isso que forma a essência de um pássaro.

quando um ser humano resolve colocar um pássaro numa gaiola, ele está o privando de sua própria liberdade. portanto, ele não é mais livre e, por conseguinte, não está exercendo o papel de pássaro que ele deveria ter, seguindo sua essência. e, além de privá-lo de sua liberdade, quando um ser humano corta suas penas, é uma forma de privá-lo de sua outra característica essencial: voar. se ele não pode voar, ele não pode ser livre, independente de estar numa gaiola ou não. se ele não pode ser livre, ele não consegue voar da maneira que ele desejaria e, se ele não pode voar, ele não consegue ser livre. o pássaro, que possui essência de pássaro, não possui mais essa essência e passa a exercer outros papéis: de decoração, de enfeite, de entretenimento, de bicho de estimação. tudo, menos o de ser um pássaro.

muitas vezes eu me sinto um pássaro nesse sentido. não sei se isso vêm dos outros ou de mim mesma, das minhas exigências ou das questões que se passam na minha cabeça. independente disso, eu não sinto minha essência viva mais. onde está minha liberdade? onde está minha habilidade de voar? eu tô tentando procurar, mas tá bem difícil.

mas isso vai além disso tudo: além de eu ser um pássaro, eu sou um rouxinol. gosto da ideia de um rouxinol por ele ser uma referência em diversas obras artísticas, sejam em livros, músicas, textos, poemas, desenhos. durante meus 20 anos de vida, sempre me deparei encontrando referências a rouxinóis e isso me encanta, porque rouxinóis, historicamente, são referências artísticas humanas. portanto, isso o torna essencialmente não apenas pássaro mas também, de certa forma, uma manifestação artística. me lembro da primeira vez que vi uma referência a essa ave: viagens na minha terra, de almeida garret. um livro que eu li para o vestibular e que todos os meus colegas criticavam, mas que, por algum motivo, me cativou pela simples referência ao rouxinol. eu me sinto um rouxinol. eu sou um rouxinol. eu sou uma artista. porém, por eu não ser essencialmente um pássaro, eu não sou vista como um rouxinol. eu não sou vista pelo que eu sou, pelo o que eu gostaria que os outros me vissem.

não sei qual moral da história tirar disso tudo exatamente, mas sei que foi importante refletir. pensar em essência, no que eu sou e o que me faz ser quem eu sou, além de o que pode me privar de ser quem eu sou essencialmente, é importante. espero algum dia conseguir me sentir livre e, finalmente, voar para sentir minha essência. paciência. todos nós vamos voar.

    Fabiana Lopez

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