A intolerância expressa nos ídolos

Existe um quê de intolerância que expressamos das maneiras mais naturais possíveis. Não que seja algo que faça parte da natureza humana — longe disso, são comportamentos sociais tão enraizados que se tornam naturalizados. É um pouco daquela história que nos precede e molda, o habitus de Bourdieu. E como qualquer outro pensamento que nunca contestamos — seja porque a sociedade aceita, seja porque nós aceitamos -aparece nas pequenas coisas diárias.

Em algum momento, se confrontados, temos algumas reações comuns. Quando não notamos de antemão que há uma inconformidade com a norma social, geralmente se busca uma salvaguarda (“foi só uma piada, esse mundo está perdendo a graça”). Se sabemos que há alguma interdição prévia do discurso (entra no roll do que se entende como “politicamente correto”), geralmente se inicia com o “não que eu seja X, mas”. Considero isso maneiras de tentar seguir aceito — a primeira muito mais inocente que a segunda, que beira o mal caratismo — seja pela sociedade que nos rodeia, seja por nós mesmos. Notar isso e pensar a respeito nos faz entender melhor o mundo que nos rodeia. Mas é um trabalho que nem todos querem fazer, dá trabalho. Há anos de história que precisam ser corrigidos. É difícil deixar de ser algo para o que fomos programados.

Porém, existem outros momentos onde a sanção não chega. Nem a social, nem a particular. Ela geralmente é expressa em momentos onde não estamos muito concentrados na tarefa de quebrar a nossa história pregressa, os comportamentos sociais que aprendemos enquanto crescemos, o nosso habitus. E um dos que mais chama a atenção é na hora de falarmos das pessoas que admiramos.

Parece que existe uma regra: os ídolos são infalíveis. Não podemos admirar a ideia de alguém que erra. Nem que seja sem querer. Eles são impedidos de errar para o bem da nossa idolatria. Aí, quando não há como contestar, passa-se a relativizar. Como o caso daquele ativista pelos direitos LGBT que vai para a internet e é gordofóbico; ou aquela autora mundialmente famosa por filosofar sobre a liberdade que fecha os olhos para as ditaduras da américa latina para se debruçar sobre a URSS.

Todos somos pessoas. Todos temos histórias. Todos erramos. Mesmo quando não admitimos, erramos. Por que se exige que nossos ídolos sejam menos humanos que nós? De onde tiramos tanta tirania a ponto de relativizar um pensamento execrável só porque partiu do ídolo? Qual o sentido de concordar 100% com alguém que é admirável em um aspecto da vida?

Podemos sim admirar alguém “meio babaca”. Porque não admiramos a plenitude da pessoa e sim um atributo dela. Ela não se permite mostrar completa, assim como não podemos. Então não há engano, não há algo do que precisamos nos desculpar se o “ídolo” falha. Não precisamos alterar a realiadade para que siga sem errar. E, não, isso não é um erro teu, uma fraqueza. É apenas uma consequência das particularidades das relações sociais. Não há erro nem mesmo ao deixar a relação de idolatria para trás em nome de algo que seja moralmente mais aceitável na tua visão de mundo.

Somos intolerantes até com os nossos amores, nossos gostos. E deixar de sê-lo pode ser libertador.

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