Por que somos violentos?

Os distratos que celebridades recebem o tempo todo sempre despertam comoção. Mas são apenas a manifestação de mais uma das características do brasileiro que não queremos admitir.

Pela direita ou pela esquerda, em períodos muito curtos, temos notícias nos jornais de celebridades que tiveram que encarar algum desmiolado em discussões públicas sobre assuntos mais ou menos relevantes. A bola da vez foi o Chico Buarque, xingado por pessoas violentas que se acharam no direito de proceder dessa maneira.

Tenho visto diversas pessoas defendendo o Chico, defendendo a história dele, defendendo o direito de ter as suas ideias, até suas respostas. Por outro lado, há quem defenda que existem trogloditas à esquerda, que já distrataram seus ídolos (os escrachos públicos — esvaziados de seu sentido político por quem usa pra servir de exemplos), e que a violência de um, mesmo que não justifique, estimula a dos outros. Em suma, uma discussão que parece mais pautada nas liberdades e responsabilidades.

Pra mim, claramente, é uma manifestação da mania que temos de usar a violência para resolver qualquer problema. E somos assim não só nessas situações. Somos violentos em casa. Somos violentos com filhos, esposas. Somos violentos no trabalho, com subalternos, contra colegas. Seja simbolicamente, seja fisicamente. Somos violentos, muitas vezes, na cara dura, sem vergonha. E esses atos são a demonstração que nos liberamos para agir dessa forma dentro de certos contextos. Alguns só nos recantos privados, outros se dão esse direito em ambientes públicos, mesmo.

E isso não é só culpa dos atores envolvidos. Há aqui uma permanência histórica. Uma das primeiras questões do Brasil republicano foi: quem substitui o poder de dissolver o parlamento quando ele não acatar o que o executivo pede, chamado de Moderador na monarquia? Depois tivemos a ditadura de Vargas. Depois a de 64. E, depois de 1988, temos o retorno do conservadorismo contra novos avanços sociais. “Muita democracia” é uma noção que faz sentido demais. É corriqueira, naturalizada, historicamente constatável.

O modo normal de agir de um brasileiro é resolver os seus problemas através da violência. A reação exagerada contra a lei da Palmada já é uma demonstração. A quantidade de críticas contra a Lei Maria da Penha, a vitória do bordão “bandido bom é bandido morto” por mais de 80% da população em recente pesquisa de opinião, são tantos os indícios que parece óbvio.

A violência é uma arma importante na manutenção de poderes. Reconhecer que praticamos ela em diversos momentos é reconhecer que temos poderes e que não pensamos muito na hora de defendê-los dessa forma. Porque, na maioria das vezes, não existe maneira racional de fazer isso. São apenas privilégios aleatoriamente colocados na nossa mão que, como qualquer coisa dessa natureza, é bom, de alguma forma, e nos apegamos. É o PODER de se manifestar sobre qualquer coisa que faz com que qualquer um SUBMETA o outro a se curvar. Por isso tem que ser violento — não há lógica que explique.

Porém, o que impede nós mesmos de admitir a nossa violência? Por que insistimos em colocar essa característica apenas nos nossos oponentes? Qual o sentido de dar publicidade a um certo tipo de violência específico enquanto escolhemos outros pra silenciar (como o que nós mesmo praticamos, por exemplo)?

Acho que podemos evoluir na discussão e parar de constatar obviedades. Existem trogloditas em “ambos os lados” porque, se admitimos essa noção tão tosca quanto vitoriosa de que existem apenas dois lados (Ernesto Laclau manda lembranças), ambos cooptam dentro da população brasileira, que é, majoritariamente, violenta. Assim como há corrupção na política porque a população brasileira é, em maior parte, corrupta. Não seria mais produtivo discutir à partir daí? Quais são os poderes que estão sendo ameaçados, por exemplo? Levar eles pra luz, creio, é a melhor maneira de colocá-los em xeque. Como já fazem, aliás, negros, mulheres, lgbts e outros movimentos políticos que ainda não foram raptados pela política tradicional há muito tempo.