Sobre Materialidades e Convergência: Dois Momentos


Parece que vivemos mesmo uma Cultura da Convergência.

Não aquela do proselitismo aca/fan, mas uma que se assemelha a uma jocosa cultura da coincidência. Uma na qual diferentes pessoas, de diferentes — se muito correlatos — contextos, discursam sobre assuntos semelhantes ainda que com abordagens bem distintas.

Dois eventos distintos nos quais estive presente aqui em São Paulo neste começo de semana são os motivos pelos quais aponto isto: primeiro, uma conversa sobre métodos alternativos de produção de fotos, e depois a aula inaugural do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da USP, na ECA.

Flyer.

No Madalena — Centro de Estudos da Imagem vi uma mesa composta por um monte de gente engajada em processos alternativos de fotografia. Nada de sensores APS-C ou de Lightroom nessa conversa: os assuntos giraram entre cianótipos, Van Dyke e experiências educacionais ligadas à produção alternativa de fotografia.

Na ECA/USP, a aula inaugural do PPGCom ficou por conta de Erick Felinto, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, que, numa fala interessante, discutiu por pouco mais de uma hora materialidades, teoria alemã da mídia e Flusser.

Os pontos nos quais os dois eventos convergem são previsíveis, se já não se fazem óbvios: em suas formas particulares, os discursos trataram de como o canal — numa alusão por demais simplista à teoria de Shannon e Weaver — produz sentido.

Falava-se, no Madalena, sobre alguns processos alternativos de produção. Para além da discussão deste rótulo — alternativo — estava em jogo a decisão de como representar uma cena, do por quê de construí-la utilizando um processo que não é mais usado comercialmente desde o começo do século , Se trata, portanto, de buscar um entendimento sobre algo que está além da cena reproduzida na fotografia — de entender a decisão do artista pelo papel, pelo pigmento, pela moldura e por seu enquadramento. A materialidade está presente desde a concepção do trabalho até sua fruição final — ela possui carga, age sobre a estese.

Qual não foi minha surpresa então, em uma mesa que discutia precisamente o meio no qual representar algo, de ouvir uma discordância (veemente) à máxima mcluhaniana de que ‘o meio é a mensagem’. Não que eu acredite em premissas teóricas como se elas fossem verdades incontornáveis, não — e talvez esteja aí meu fracasso — mas para quem trabalha há anos com um entendimento que daí descende, é difícil deixar passar uma afirmação como essa em branco. Me pergunto qual seria o desenrolar do argumento, e num raciocínio outra vez simplista, sou forçado a contemplar em pé de igualdade as fotos no meu Lightroom e uma eventual experiência feita em cianótipo. Talvez esse caráter transcendental que a máxima assumiu— Erick Felinto dizia que McLuhan e Flusser assumiram caráteres mais proféticos que científicos, neste meio tempo — contribua para um estranhamento tal.

Mais importante que isso, contudo, é que a mesa se concentrou precisamente em especificidades que o próprio Felinto trouxe à tona em sua fala: entender como funcionam estas técnicas de reprodução fotográficas há tanto esquecidas é executar uma arqueologia de um meio que, certamente, possui um fim. E perceber isto — nas decisões da construção do papel ou na variação dos tons em um trabalho proveniente do cianótipo — é que, para mim, aponta claramente para que direção deve seguir a exploração teórica.

Ainda assim, não deixa de ser com certa surpresa que, se por um lado o entendimento da noção de que o meio possui carga estética própria parece tão imediato — aceitável, razoável, até, em sua forma menos complexa — o discurso proveniente de quem está envolvido com a práxis pode ser tão distinto, dissidente, até.

Por fim, de uma forma ou de outra as duas falas foram muito esclarecedoras, sobretudo porque se completam e tensionam — ilustraram e problematizaram, dentro de suas formas de encenação, como o meio é tão mensagem — e quão coincidente que tenham acontecido quase que em sincronia! Vejo aí uma possibilidade sólida de que pesquisa e praxis ocupem o mesmo espaço.

Todavia, talvez não — coincidência aqui não passa de um adereço do zeitgeist, foi o que me disseram.

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