MECNOLOGIA: tecnologia social favelada do bem-viver

afrofuturo
Jan 23 · Unlisted
Foto de Alessandro Falco do passinho carioca em uma laje na favela do Jacarezinho (RJ)

MECNOLOGIA: ciência de ficar tranquilão. Termo para designar a capacidade dos favelados de viverem a vida de forma “mec”. Tecnologia social que permite aos favelados viver de maneira tranquila.

Você já ouviu a palavra tecnologia. Se mora em favela, possivelmente escutou a expressão “ficar mec” ou “chuva de mec”. Se não tem nenhum contato com esta realidade, provavelmente não sabe o que significa. “Ficar mec” é ficar tranquilo, viver de boa, sem maiores preocupações.

Mecnologia é um termo que tem sido usado por artistas, produtores e intelectuais favelados no Rio de Janeiro para falar do método, da ciência que as favelas produzem sobre esta verdadeira arte: a de ficar tranquilo em meio ao caos da violência perpetrada pelo Estado, da escassez de direitos e serviços fundamentais. A capacidade que um favelado desenvolve de produzir muito com pouco, de se virar com o que tem, de criar gambiarras para resolver a própria vida. Uma verdadeira atitude de abundância em meio à um ambiente condicionado à escassez pela desigualdade.

Não estamos de forma alguma comprometidos em romancear a violência do Estado dentro das favelas ou relativizar o genocídio do povo negro em curso, muito pelo contrário. O objetivo de falarmos sobre Mecnologia é valorizar os saberes favelados a partir de conceitos próprios, cunhados para explicar e elucidar nossa própria realidade. Saberes esses que tem relação direta com a matriz cultural africana, e justamente por isso são inferiorizados por quem determina o que deve ser ou não considerado conhecimento digno de ser conceituado. Conceituar Mecnologia é um exercício “gostosinho no azeite” de entender quais são as tecnologias sociais desenvolvidas pela favela para sua sobrevivência e qualidade de vida.

Entendendo a origem das favelas como territórios essencialmente africanos formados a partir da libertação de negros escravizados que formaram essas comunidades, hoje ainda é possivelmente enxergar os traços desta cultura no cotidiano. Exemplos disso são práticas de cuidados com crianças, onde é muito comum uma mulher mais velha cuidar dos filhos de mulheres mais jovens para que estas possam trabalhar. Dormir toda a família no mesmo cômodo mesmo quando há outros quartos na casa também é um costume que remete à organização familiar africana. A dança, que hoje ao som do tamborzão eletrônico do funk, faz todo mundo rebolar no baile — e fora dele. O clima de comunidade que existe nas favelas, a generosidade de compartilhar alimentos, afeto e até mesmo de participar da vida dos vizinhos faz parte da matriz cultural africana que alimenta até hoje o cotidiano favelado e toda sua cultura.

Mecnologia neste sentido que estamos propondo seria então o modo de produzir a vida nas favelas. A tia que cuida das crianças, que hoje pessoas do asfalto chamam de “creche parental” é uma tecnologia social africana e favelada que acontece há milênios no continente e centenas de anos na diáspora, é Mecnologia na essência. Outro ótimo exemplo é o Baile da Gaiola e a figura do DJ Rennan da Penha que arrasta 25 mil pessoas à diversão ao ritmo do tambor 150 bpm no Complexo da Penha. Isso é tecnologia social do bem viver favelado. O ressurgimento dos bailes também está ligado ao fim das grandes casas de show da Zona Norte do Rio e da ausência de políticas públicas de lazer para a juventude. É a favela resolvendo o problema da falta de lazer utilizando seus próprios meios e conhecimentos, gerando renda e criando um movimento cultural que hoje já se espalha pelo mundo.

A violência cresce em números alarmantes no Rio de Janeiro, o genocídio do povo negro, perpetrado pelo Estado principalmente contra a juventude, é uma chaga enorme aberta no coração das favelas. Basta abrir os olhos para ver que as condições não se sobrepõe à inovação e criatividade dos pretos favelados.

A favela pulsa e produz a vida através da sua Mecnologia!

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Conteúdos sobre a construção de um futuro onde pessoas pretas existem tendo África como centro.