
“Vende-se um violoncelo”. Uma folha A4 com os dizeres impressos colada no grande e largo case que envolve o instrumento. O violoncelo repousa num canto do vão do MASP, em São Paulo, inerte, pesado. Ao seu lado, um homem, com o olhar inerte e pesado espera que alguém se interesse pela oferta. Está mudo, imóvel, olhando para um ponto fixo, tornando a cena um tanto angustiante. Estará resignado? Decidido? Inconformado? Não parece querer vendê-lo mas também não parece querer tocá-lo. Será resultado de uma daquelas limpezas em que se desfaz do que apenas junta pó? Ou será fruto de uma decisão antes adiada, motivada pela necessidade de quem vê e vive a escassez nos seus dias?
A cena resume o adensar de uma crise e como, nesses momentos mais que em outros, somos forçados a abrir mão de sonhos e esperança de futuro. Um contexto que anula qualquer possibilidade de reviver sentimentos que repercutem daquelas cordas. A música é sensibilidade, inconcretude. Agora só há espaço para o real, o cru, o pé no chão. As formas, sejam musicais ou materiais, são duras, secas, estanques. Os ouvidos tornam-se vazios, já não contemplam os meandros e harmonias. A alma fica igualmente dura, seca e estanque. Do mesmo material do estojo que abraça o violoncelo. À propósito, a alma vai junto, de brinde.
Sento ao seu lado e digo que também pretendo vender meu instrumento. Que nesse momento não tem valia e junta pó. Que a escassez me fez tomar essa decisão. Compartilho histórias de quando comecei a praticar e as pessoas à minha volta diziam como era talentosa e tinha vocação. De repente, a plateia está confusa, não compreende os sons, questiona o conteúdo, a forma. Digo que sou professora mas não tenho forças, nem palco e só me resta uma plateia confusa. No meu anúncio de “Vende-se” oferto minha vocação; minha compreensão do aluno como indivíduo autônomo e capaz de ensinar, da escola como espaço dinâmico e em constante construção, da educação como princípio transformador.
“Os professores das humanidades estão na berlinda”, ouço. São 14 anos de formação acadêmica e prática de ensino para me tornar inimigo público, alvo de perseguição. Não me tiram apenas o salário, a carreira, a formação contínua, a convivência enriquecedora com os estudantes… tiram-me a dignidade, a perspectiva de futuro.
Pergunto, então, se ele sabe ser outra coisa, por que eu sinto que não sou capaz de ser mais nada. Que a identidade de professora, construída ainda na adolescência, ultrapassa minha profissão e define quem eu sou. É como qualquer outro aspecto da nossa identidade, que é lembrado apenas quando ameaçado. Se vendo meu instrumento, o que faço então? Se ele é a extensão do meu corpo, quem sou eu então?
No meu diálogo imaginário, o dono do violoncelo finalmente diz, ainda sem mudar a direção do olhar: “a gente não deixa de ser músico porque não tem mais o instrumento”.
Esse texto foi escrito no final de abril/2019. Como parte das estratégias do novo (des)governo, bolsas de pesquisa foram suspensas e o discurso anti-humanidades intensificou-se. Eu, que só sei ser professora, estudante e pesquisadora, fiquei sem chão! Li as notícias enquanto estava em São Paulo, ainda sem saber que passaria o resto do ano desempregada numa crise nível hard. Parece que agora, com o fim de ano se aproximando, quero acreditar que as coisas vão melhorar…
