Banksy, Follow Your Dreams (2010)

Nunca desista de si mesmo

Em canais como esse, não é muito comum pessoas demonstrarem tristezas, dores, fraquezas e derrotas. Se fazem, passa desapercebido. Até porque já basta o nosso próprio sofrimento. Ninguém merece ter que ficar se deparando com as lamúrias dos outros, não é verdade? Ainda mais, quando a dificuldade é pequena, se comparado as problemáticas de milhões de pessoas. Então, não se sinta desconfortável por não ler esse meu relato, ou até mesmo por achá-lo uma tremenda bobagem. De certa forma eu também acho meio desnecessário. Mas essa exposição pública vai me ajudar a não desistir.

Pois bem, faz dias que tenho pensado constantemente em desistir dos meus sonhos. Quem nunca? Mas a vontade tem sido mais forte do que de costume. Não consigo parar de pensar na possibilidade de mudar de carreira. De abrir mão de trabalhar na área social, que no meu caso; não é voluntariado, mas sim minha profissão, a qual venho me dedicando de forma integral nos últimos anos na Makanudos. O motivo, é por ser um trabalho que exige muito, mas que gera uma sensação de pouquíssimo resultado, principalmente na questão do impacto social. E também por não gerar quase nenhum retorno pessoal, com exceção da paz e da felicidade. Além disso ao olhar para mundo, e ver o caos imperando, me leva a pensar que abrir mão do meu eu em prol de um bem maior, não vale a pena. Para expressar melhor o sentimento que paira no meu coração, me aposso da letra de Chris Martin;

Só porque eu estou perdendo
Não significa que eu estou perdido
Não significa que eu vou parar
Não significa que eu estou do outro lado
Só porque estou sofrendo
Não significa que eu estou ferido

Lost!, Viva la Vida or Death and All His Friends — Coldplay (2008)

Em meio a essa tensão pessoal, eu me fiz a seguinte pergunta;
o que me levou a escolher essa carreira?

Não encontrei uma resposta. Mas algumas imagens vieram a mente. As primeiras e mais significativas, foram as do videoclipe Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero) d’O Rappa; que retrata a cruel realidade das crianças e dos adolescentes nas favelas do Rio no final da década de 90. Que ainda hoje se faz presente em inúmeras periferias.

Em 2000, o clipe “Minha Alma…” foi o grande vencedor do VMB com seis prêmios – Melhor Direção, Edição, Fotografia, Clipe de Rock, Clipe do Ano e Escolha da Audiência.

Até então eu achava que essa era apenas uma das melhores bandas da minha geração, por causa do ritmo, por estar em alta na época, e óbvio por me identificava com o enredo. Passei minha adolescência inteira ouvindo esses caras, e me diverti em inúmeros shows.

Leonardo, Arthur, Falcão e Eu na capa do Batman com camisa do mengão — Barra do Furado/RJ Janeiro, 2003

Certa vez até consegui subir no palco e ir no camarim pra conversar com o Falcão. Mesmo assim, não imaginava o quanto as ideias por trás disso tudo haviam me influenciado. Não era apenas um divertimento. As canções que apontavam as injustiças e mazelas, mexiam de verdade comigo. Me levavam a uma zona de desconforto, de indignação, de inconformismo. Não conseguia me deparar com as situações de miséria e pobreza, e aceitar que o mundo seria assim, que não teria jeito e ponto final.

Essas coisas definitivamente me incomodavam! Mesmo sendo pressionado pelo cotidiano a seguir me importando exclusivamente com as realizações pessoais e com sucesso na carreira, o que resultaria no tão sonhado “futuro bom”. Eu não entendia bem o que acontecia comigo, nem muito menos o que acontecia no mundo a minha volta. Tinha pouquíssima ideia do panorama sócio-político do país e do mundo. Mas havia algo dentro de mim que não me deixava pensar, e nem agir somente em função do meu próprio umbigo.

Esses foram os fatos mais longínquos e significativos que me vieram a memória, eu tinha uns 13 a 15 anos, no início da adolescência, lá pelos idos de 99, 2000 e 2001. Uma fase comumente difícil, devido as grandes transformações individuais. Sem contar o período da virada do milênio, que foi um tanto quanto conturbado. Mas no meu caso, o agravante seria a mudança do Rio de Janeiro para Guaratinguetá/SP. Imagina o choque! Um menino que passou a infância na agitação do subúrbio carioca se muda para uma cidade pacata e provinciana no interior de São Paulo. Eu mesmo não consigo mensurar e muito menos descrever as influências disso na minha vida. Só sei que foram profundas e imprescindíveis para o meu crescimento.

Para minha surpresa ao resgatar parte da minha história, percebi que a minha carreira não foi apenas uma escolha ou decisão. Foi mais que isso. Acredito que a carreira está mais relacionada; com um processo de autoconhecimento, com a descoberta da identidade, com os motivos da existência. Ou seja; com vocação individual.

Independente das circunstâncias. Eu tenho total convicção que estou no lugar certo, no momento certo, fazendo a coisa certa. Portanto, sigo em frente. Vivo intensamente o hoje na espera do porvir.

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