Brasil, a vontade e a dúvida de voltar para casa

Quando vivemos longos períodos fora do Brasil, temos percepções baseadas em fatos concretos. Vivemos a cultura e o cotidiano do outro país e percebemos, muito mais claramente, os problemas do Brasil, como a falta de políticas e administrações públicas eficazes. E é justamente esta constatação que torna atroz a dúvida de voltar ou não ao Brasil.

Quando viajamos por pouco tempo a um país estrangeiro sempre achamos que o país visitado é melhor que o nosso. Penso que isso aconteça porque quando fazemos turismo, só passeamos pelas partes belas, conversamos com pessoas pontuais, muitas vezes ligadas a promoção da cidade (centrais turísticas, guias, recepcionistas de hotéis, etc.) e terminamos por ter experiências e percepções superficiais. Depois, com a rotina, logo nos esquecemos dessas percepções e continuamos a viver como sempre, até porque sabemos que — obviamente — todos os países têm seus defeitos, pessoas mal-educadas, sistemas e políticas que não funcionam, etc.

Entretanto, a história muda quando vivemos longos períodos fora. Temos percepções baseadas em fatos concretos, vivemos a cultura e o cotidiano daquele país. Percebemos, muito mais claramente, que o maior problema do Brasil é político, ou melhor, é a falta de políticas e administrações públicas eficazes. E é justamente esta constatação que torna atroz a dúvida de voltar ou não ao Brasil.

Normalmente essa grande dúvida gira em torno das condições de vida que o governo brasileiro oferece à sua população. Ao compará-las com os outros países, é fácil perceber que o nosso grande país, verde e amarelo, não funciona.

Temos graves problemas, digamos ‘estruturais’, que nos enchem a cabeça com pontos de interrogação. Não temos transporte público adequado, não temos saúde e segurança pública, não temos nem mesmo educação pública com um nível minimamente aceitável. Trabalhamos como loucos, com horários desumanos, pagamos impostos altíssimos e tudo que recebemos em troca são desserviços e escândalos de corrupções alucinantes.

A saudade, a família, os amigos, as pessoas, fazem falta — muita falta — mas por que querer viver no pior se já vimos que é possível viver no melhor?! Coisas ruins existem em todos os lugares, pessoas canastronas, mal-educadas, políticas furadas e políticos corruptos, também já se alastraram por todas as partes do mundo. Porém, mesmo assim, o sistema funciona e alguma coisa em troca os cidadãos recebem.

A Itália nem de longe é um exemplo a seguir. A sua política é uma porcaria, seus políticos são tão corruptos e interesseiros como os nossos, contudo o sistema público de saúde funciona, a segurança existe, o sistema de transporte, com todas as greves e atrasos, atende muito bem a sua população. E por último, mas não menos importante, o sistema de educação pública é excelente, as escolas públicas italianas são melhores que as privadas. Sem contar que aqui as pessoas trabalham para viver e não se matam de tanto trabalhar.

Muitos mais exemplares são outros países e cidades que existem pela Europa, locais que possuem políticas avançadas e inovadoras como Leuven*, uma cidadezinha que fica na Bélgica. Ali, além de ser uma cidade lindinha, tem todas as necessidades básicas (saúde, segurança, transporte e educação) garantidas pelas suas eficazes políticas públicas. E a administração da cidade continua se organizando e investindo em uma melhor qualidade de vida, através de políticas públicas inovadoras e altamente ligadas a sustentabilidade. Em seu centro já não entram carros**, somente ônibus e bicicletas. Não existem calçadas, faixas, semáforos ou placas de pare e preferencial, pois se deseja estimular uma cultura de respeito, de atenção e de prioridade aos outros. Isso, na verdade, foi implantado há poucos anos atrás, não achei maiores informações para saber exatamente quando, mas o importante é que funciona. E funciona tanto que já existe um plano de expansão que visa ampliar esse sistema a todo o seu grande centro — em poucos anos eles querem deixar os carros completamente fora do centro da cidade.

O que estou querendo dizer é que quando vivemos e notamos que, sim, é possível viver bem, que existem países em que as ‘coisas’ funcionam, que é possível viver com condições de vida decentes, onde se há o respeito e o reconhecimento aos cidadãos, percebemos que não basta ser um país bonito por natureza, ter uma população alegre e acolhedora, ter uma culinária deliciosa, etc… Basta ter políticas públicas que garantam o essencial, ou seja, o básico!

O essencial é o básico!

E depois disso, meus amigos, depois de viver a experiência e de tomar a consciência, é muito duro voltar. Porque — antes de retornamos para casa — queremos acreditar que o nosso governo deixará de ser desumano. Que existirá mais humanidade, ao invés de crueldade, no atual ritmo de vida dos brasileiros. Precisamos crer que receberemos algo além de impostos a pagar e escândalos de corrupção. Desejamos a garantia de que não precisaremos nos matar de trabalhar de modo a sacrificar a convivência com os nossos filhos, apenas para conseguir dar a eles, o melhor plano de saúde, a melhor educação de um colégio privado, a melhor segurança de um condomínio fechado…

Enfim, tudo o que desejamos é poder voltar pra casa com igualdade de condições que encontramos fora do país. Aspiramos ter o básico (com qualidade) garantido, para que apenas tenhamos que batalhar arduamente pelo ‘plus’. Mas…

Será que sempre teremos que garantir, por conta própria, o que o nosso governo deveria, mas não nos oferece? Será que esperar isso do nosso Brasil é utopia? Será que estamos querendo muito?! Será que um dia voltaremos pra casa?!

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*Leuven (ou Lovaina), é conhecida por ser uma cidade universitária e também por ser a cidade sede da InBev, uma das maiores cervejeiras do mundo. Particularmente a cidade não tem uma natureza exuberante, não tem comida típica, não tem grandes tradições e boa parte de sua história foi marcada pela guerra, por batalhas e reconstruções. A maioria de sua população fala no mínimo três línguas — flamengo (língua nativa) inglês e francês. Hoje é, sem dúvida, uma das cidades mais limpa, conservada e na vanguarda em que eu já passei. 
**Salvo de residentes locais e de transportes de cargas que abastecem os negócios da região.

Texto de minha autoria, originalmente publicado no blog Pelos campos de trigo