As fases da vida de uma mulher

Farah Serra
Jan 20 · 4 min read

Em dias de #10yearchallenge, desafio dos 10 anos, fui além das fotos e me peguei em uma reflexão profunda sobre as fases da minha vida e sobre a mulher que me tornei.

Crédito Leo Mattos. Imagem de arquivo pessoal. Todos os direitos reservados.

“Em qual das fases da vida de uma mulher eu me encontro?” Acordei com essa pergunta na cabeça. Existem muitas maneiras de se descobrir como as coisas vão. Não só sabemos fazer perguntas, consultar pessoas, analisar fatos (e fotos), como também podemos, simplesmente, observar o destino.

Neste ínterim, pensando na minha idade, me lembrei de um comentário, “que saudade do meu corpinho dos vinte”, que uma tia fez, há muito tempo, enquanto eu abria a porta da casa da minha avó para ela entrar. Naquela época, eu tinha os meus vinte e poucos anos e ela deveria ter a idade que tenho atualmente — quase quarenta. Seja como for, somente há pouco fui capaz de compreender o que ela quis me dizer, já que, igualmente, superei o encanto e a força dos vinte anos.

As fases da vida de uma mulher

Aos vinte anos

Vinte anos. Que idade incrível, não é mesmo? É, de verdade, a única época em que temos poder sobre tudo o que acontece.

Aos vinte, beiramos a perfeição, física e moral, dispomos de tamanha energia que ninguém parece estar a nossa altura. Nesta fase da vida temos o propósito de nos contentarmos. Tanto que, em nome da nossa felicidade, não apenas estamos dispostas a descer alguns degraus sem nos desgastar demais, bem como, deixamos nossos pés prontos para chispar, para ir embora, deixar tudo e recomeçar. Pouco importa o que pensam da gente. Pois, aos vinte, nos consentimos: regressar; pular um passo; fazer a falsa boba; voltar bêbada de madrugada, mesmo as segundas, quartas-feiras.

Aos trinta anos

No entanto, aos trinta, algumas coisas começam a cambalear. É um desarranjo sutil, um balanço leve que acontece sob os nossos pés. Contudo, nem notamos. Estamos muito presas a construirmos uma identidade para nos darmos conta.

Aos quarenta anos

Posteriormente, aos quarenta anos, a única coisa que, talvez, saberemos dizer é que o bom seria ter os vinte de volta. Provavelmente é por culpa dos salamaleques. Aos vinte anos nos enchem de tantos elogios que nos obrigam a acreditar , até mesmo, quando são evidentemente falsos. Ao passo que, como aos trinta eles começam a diminuir (improvisadamente e sem um motivo real) aos quarenta percebemos que não somos, assim, tão diferentes.

E a mulher que me tornei, nestes anos correntes

Eis então que cá estou eu, na fase do meio, entre os trinta e os quarenta anos. Existindo em pleno contraste com o modo no qual vivi os meus vinte e trinta anos — quando sabia muito bem o que queria fazer, onde pretendia ir e era igualmente boa em arrancar elogios. Hoje, surpreendentemente, tenho dúvidas e medos. Além de um desejo irreprimível de conquistar alguma coisa, de marcar um ponto, de deixar uma pegada, de me sentir viva, útil, desejada.

Não sei dizer com precisão como me tornei quem sou hoje. Calcular a minha vida agora parece estranho. É como se nada tivesse se tornado aquilo que, em algum momento, imaginei que seria. De criança tinha como certo que um dia me tornaria mãe. Não era um verdadeiro sonho, simplesmente era assim que deveria ser. Um pouco como encontrar um marido e um trabalho.

Com toda a certeza, neste tempo finito ocorreram um número infinito de situações. Até mesmo coisas que eu acreditava difíceis de acontecer, aconteceram. Como quando percorria a minha estrada, até então sozinha, e ele, inesperadamente, surgiu me oferecendo uma alternativa e eu, com os meus quase trinta, aceitei sem hesitar — acolá da coragem, eu tinha mais um tanto de coisas para contar. Ou, quando me descobri mais forte ao me permitir uma profunda desconstrução interna para, incessantemente, tornar-me mãe. Tanto quanto, quando perdi um bebê.

Ainda assim, me questiono como posso me sentir deste jeito, feliz, por ter me tornando quem sou agora. Quiçá se deva ao fato de que eu, nesta minha jornada, eventualmente, enxerguei que não apenas não existe uma fase certa para se tornar grande, como também não há um momento perfeito para crescer.

Em seguida desses meus aforismos, me permiti um choro. Silencioso e discreto. Um choro de mulher casada. Porque há coisas que simplesmente não temos como compartilhar — o que não significa que não existam.

Em qual das fases da vida de uma mulher você se encontra?

É possível que você também se sinta assim?

Talvez, provavelmente, seja igual para todos nós…