Saudades daquelas xícaras de café

Um conto sobre as histórias, e as saudades, que cabem em uma xícara de café. 
Mas…“histórias cabem em xícaras? De quem prepara, muitas. De quem bebe também.”

Bule da Tia Coy. Crédito imagem: FA.Serra. Arquivo pessoal. Todos os direitos reservados.

Tomar café na casa da vó. Essa era uma das minhas atividades preferidas. A fusão Vó + Café sempre resultou em uma combinação perfeita.

Uma das minhas avós fazia o café coado no coador de pano. Aquele velho ritual de ferver a água, colocar as colheradas de pó de café no coador, jogar a água borbulhante e esperar coar. Era uma espera sempre mais do que gradita, rodeada pelo toque delicioso do cheiro de café fresquinho. Também era durante esta breve espera que se colocava a mesa, com todos os seus adornos e acompanhamentos (bolachinhas, bolos, pãezinhos, etc.). Enquanto a outra avó, mais moderninha, fazia seus deliciosos cafezinhos na Moka Italiana o que a dava tempo de sobra para caprichar ainda mais nos acompanhamentos.

“Há espontaneidade na dose irregular, no jeito que cada um tem de deitar a água, mexer e até adoçar. No aroma, mora a poderosa epifania, o voo sem escala para momentos bons.”
Bule de um café de Carcassone, França. Crédito imagem: FA.Serra. Arquivo pessoal. Todos os direitos reservados.

Eram momentos mágicos!

Ambas eram ilusionistas. Misteriosamente, na minha mais inesperada visita, a água do café já estava sempre fervendo e tudo estava impecavelmente às mãos para um cafezinho por mais rápido que ele fosse. E, mesmo que água não estivesse fervendo ainda, elas me ludibriavam a tal modo que a água atingia o 100ºC rapidamente.

Por várias vezes cheguei até mesmo a me questionar se elas não deixavam, a minha insaputa, várias leiteirinhas cheias d’água no fogo o dia todo, só para fisgar a mim e aos outros netos mais desavisados!

Tenho pra mim, que elas eram também estrategistas, que sempre usavam o café como uma tática certeira para me fazer ficar um pouquinho a mais. Não duvido que elas fossem plenamente conscientes do poder daquelas dez palavrinhas mágicas: “Você fica para um café? A água já está fervendo…”

Mas não importa. Hoje, só as lembranças importam. A verdade é que os meus domingos são mais tristes sem “os cafés nas avós”. Não é pelo café em si, mas pelos momentos que eles me proporcionavam.

“Ao coador de pano atribui-se o charme retro, virou relíquia nostálgica da roça que muitos nem chegaram a conhecer de perto, mas quase todos amam, porque promete tempo, sossego, paz, pureza, cantar de grilos e céu estrelado (!).”
Bule de um café de Carcassone, França. Crédito imagem: FA.Serra. Arquivo pessoal. Todos os direitos reservados.

Por muitos anos, tomar café na casa da vó e do vô foi um compromisso de domingo à tarde. Compromisso de família, daqueles inadiáveis. Aos poucos fui crescendo e esses momentos foram mudando. Por um tempo, aos domingos de manhã, isso chegou até a ser a minha estratégia furbetta, de adolescente preguiçosa. Quando a falta de um cafezinho pronto e um pão fresquinho era mais do que motivo para ir tomar café da manhã na casa da minha avó. Ali, fosse às 8h ou às 11h da manhã sempre tinha um café na Moka, feito exatamente naquele instante, e um pãozinho fresco recém-comprado da padaria. Essa minha estratégia era tão certeira e tão boa que logo se tornou rotina e toda vez que eu estava em Campinas, aos domingos, eu ia tomar café da manhã com a vó. Sim, porque ela também estava sempre pronta para se sentar comigo e dar mais umas boas mordidinhas no seu pãozinho com manteiga Aviação — esta era a sua refeição preferida.

Nesta mesma época, no final das tardes de domingo, antes de voltar para São Paulo, assim como no posto de gasolina a parada na casa da outra avó era obrigatória. Afinal, quem não precisa de um bom café antes de partir para a estrada?!

O fato é que a minha saudade se dá porque muito mais do que cafés e pães, esses encontros eram recheados de conversas, histórias, estórias, confidências, conselhos. Eram momentos quase terapêuticos, de trocas profundas e memoráveis. Falávamos sobre nada e sobre tudo. Principalmente, sobre tudo. As minhas avós sempre foram as minhas melhores amigas. Elas eram as minhas confidentes. Esses nossos encontros eram recheados de trocas e cumplicidade. Neles o café era o nosso vinho. Era o elixir que abria a portinha dos nossos corações e ouvidos colocando as nossas diferenças etárias de lado, assim como as nossas vergonhas. Era esse pretinho básico fresquinho que nos colocava par a par das conversas mais sinceras. Quantos choros segurei da minha avó?! Que em mais de uma vez me disse que não sabia o que acontecia, mas que só comigo ela se sentia livre para chorar… Lembro ainda na maneira com que elas me diziam que eu estava errada, que eu não tinha razão, que eu devia rever minhas atitudes e pensamentos… recordo disso como se fossem as mais doces colheradas de açúcar.

E tudo não se limitava aos domingos. Era sempre que eu podia. E sempre que elas precisassem de mim. Era na volta do aniversário da prima, antes de irmos a consulta médica, na saída do hospital, na volta do passeio no shopping, na ida e na volta do cabeleireiro, na minha passagem para deixar as compras do mercado ou da farmácia, nas tardes chuvosas, no final dos dias estressantes, nas manhãs ensolaradas, nos meus dias de folga, nas passadinhas rápidas antes de ir ao trabalho, naquelas vezes em que eu passava às pressas antes de um compromisso, ou entre um compromisso e outro, ou mesmo nas vezes em que eu só queria bisbilhotar velozmente, para vê-las e ter certeza de que estava realmente tudo bem. E era justamente nessas visitinhas rápidas, nas quais eu não ia como muita intenção de ficar, que elas me fisgavam com “Toma um cafezinho?!” (Esse é um verdadeiro exemplo do poder da estratégia delas que mencionei logo no início desse texto.) Obviamente, elas me venciam e praticamente sempre eu acabava por me sentar para um cafezinho e ficar por uns minutinhos a mais.

“Atire o primeiro grão quem nunca aceitou ficar, mesmo sem querer beber, apenas para conversar um bocadinho ou repartir silêncio. Na liturgia da cumplicidade, isso pode não ser urgente. Mas é importante.”

Crédito imagem: Condesign. Licença: CC0 Public Domain.

Houve também os cafés com o meu avô. Ah! Esses eram outra coisa. Algo — totalmente -diferente. Eles tinham sabor de histórias e sonhos. Eram momentos lúdicos. Onde meu avô, sonhador que era, me encantava com suas histórias e estórias de criança na fazenda. Dos cavalos que viam as almas penadas e as cobras de longe. Da escuridão total da noite, dos sustos com os fantasmas que sempre teimavam em aparecer na fazenda. Da diversão de cobrir os espelhos da casa quando das tempestades de raios. Das suas mais variadas experiências de jovem comerciante na “cidade grande” (Campinas nos idos de 1930/40. Sei lá, algo por aí…). Das histórias do Mercado Municipal de Campinas — o seu tão saudoso Mercadão. Das suas pescarias no Pantanal — essas sim confesso que sempre me pareceram muito mais estórias do que histórias.

“Histórias cabem em xícaras? De quem prepara, muitas. De quem bebe também.”

Entre tantos golinhos de café nós compartilhávamos também os seus sonhos. O de ganhar na loteria. O de comprar uma fazenda enoooorme no Mato Grosso Sul. De ter uma um rebanho de gados tão grande quanto impossível de contar as suas cabeças. Foram tantos sonhos desenhados em guardanapos. Arrependo-me de os não ter guardado. Guardei apenas uns poucos. Mas hoje, relembrando como ele adorava desenhar as suas fazendas, sinto que eu deveria ter guardado mais. Recordo que ele ia desenhando e contando, detalhando cada coisa. Tudo tinha um motivo de ser. Ou, quando não lhe dávamos a chance, ele ia apenas desenhando enquanto eu e a minha avó não parávamos de falar.

Eram momentos tão bons que até mesmo minhas amigas e os meus namoradinhos queriam ir “tomar café na casa da vó”.

Quando esses momentos se encerraram, por força da vida, eu sofri bastante. Eu era viciada nesses cafezinhos e padeci um tempo pela sua abstinência. E até hoje sinto muitas saudades. Saudades desses cafés e de tudo o que eles representavam. Saudades de falar “Vou tomar café na vó”.

O bom é que, para o nosso conforto, todo ciclo se renova. E agora eu digo “Vou tomar café na casa da tia”. E as tias, para a minha alegria, estão se saindo muito bem! Ambas herdaram a função com muito louvor. Elas estão até mesmo mantendo as tradições. Uma com o seu bulinho e café coado e a outra com a sua Mokinha italiana.

E mesmo que um ou outro desses cafés, às vezes, saiam meio fortes ou amargos, estou entendendo que é porque elas também precisam da gente. A companhia e as trocas proporcionadas pelos cafezinhos são reciprocas — muito úteis tanto para quem toma quanto para quem oferece. Não é por pouco, que eu fico muito feliz por ter mais duas casas para ir tomar meus cafezinhos.

“Ponte líquida para dignidade. E isso nos diz muito.”

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Citações, fontes e fontes de inspiração: 
Matéria: “Fica, vou passar um cafezinho”, de Viviane Zandonadi, publicada na Revista Vida Simples, de Outubro, 2014. Edição 151.

Texto de minha própria autoria, publicado originalmente no blog Pelos campos de trigo.

Farah Serra
Uma brasileira, de trinta e poucos anos, que vive em Gênova, na Itália. Mais uma daquelas pessoas que pegou o avião para, audaciosamente, chegar lá onde estão as histórias… e, sem querer, descobriu que as ama contar. E porque quem escreve deve fazê-lo em um espaço e em um tempo, deve viver um espaço e um tempo, ela está sempre por aí. Farah está no seu caminho — entre os seus blogs Pelos campos de trigo, Tempos de gestão, Observações sobre o belo e o sublime (Obvious) e @peloscantosdomundo (Instagram).