Sobre The Danish Girl - A Garota Dinamarquesa

A Garota Dinamarquesa é um dos filmes mais dignos que assisti nos últimos tempos. Tamanha a delicadeza ao tratar um assunto tão obscuro e transgressivo. Trata-se da história de uma das primeiras transexuais a se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo. Este filme se transforma em uma obra de arte quando permite a linguagem corporal prevalecer ao dialogo — onde apenas os sentimentos corroboram a magnitude da questão. Em meio a tanta banalização, tanto vazio, surge ao cheio.

Fonte: Internet

Em meio a tanta babaquice, tanta caretice, desta eterna falta do que falar” surge o eloquente, importante, expressivo, apreciável, considerável, vultoso: The Danish Girl.

O filme estadunidense The Danish Girl (em português A Garota Dinamarquesa) de Tom Hooper, protagonizado por Eddie Redmayne como Einar/Lili Elbe e Alicia Vikander como Gerda Wegener, é uma obra delicadíssima e árdua. Versa sobre a vida de Lili Elbe — uma das primeiras transexuais a se submeter a uma cirurgia de redesignação sexual, mudança de sexo, e sobre sua relação afetiva com Gerda Wegener.

A representação de Eddie Redmayne novamente comove. Se você for assistir ao filme, se conseguir prestar atenção aos seus movimentos, atenha-se as expressões dos seus olhos. Aquele choro na cena que ele admite não estar bem vale por si só. A imagem não me sai da cabeça. Um choro que mistura sofrimento e ingenuidade, nos levando a um sentimento que só cabe àqueles que vivem em polos extremos.

O filme recebeu críticas pela escolha do ator; por obscurecer a verdadeira história de uma figura transexual histórica; por ser baseado num livro fictício que não conta a verdadeira história de Einar/Lili e Gerda; entre outras coisas. Mas, nada disso importa aqui. A sensibilidade com que se trata o incompreensível é o que torna esse filme impressionante. É o que, para mim, o torna épico. E é sobre isso o que eu quero falar.

The Danish Girl é um filme envolvente. Sério. Preciso em suas interpretações. Relevante. E atualíssimo — apesar da sua história se passar na década de 20 (sim, na década de 20, imagine só!).

A Garota Dinamarquesa é um filme sobre a vida. Sobre amor. É tocante o modo como demonstra o amor através da relação do casal (Einar e Gerda). Uma união — verdadeiramente — afetiva, independente das condições.

Este história também é sobre amizade. Do conforto do amigo que se faz presente no momento mais difícil. Como não se aliviar com o abraço de amigo? Algo tão cheio de silêncio, visto que é um conforto sentimental, inenarrável. Falo de quando Hans Axgil (Matthias Schoenaerts), de surpresa, aparece na recepção do hotel quando Gerda está fazendo o check-in após a primeira cirurgia de Einar/Lili.

Igualmente é sobre sentimentos. Como não sentir o coração apertado, dolorido com a dificuldade da situação. Quando as lágrimas de Lili escorrem em seu rosto demonstrando a grandeza do seu sofrimento e da sua vergonha.

Aborda a sinceridade e a compreensão. Que difícil àquela cena em que Lili e Gerda vivem algo inexplicavelmente denso e fatigante. Como é complicado ser sincero com nós mesmos e ao mesmo tempo compreender (mesmo sem compreender) o outro. Percebe-se a sutileza dessa entrega quando Gerda chega a casa e inesperadamente se depara com Lili. Em um pequeno momento se retrata o mais estranho e intangível dos mistérios da humanidade. O mais ilustre estado de consciência, quando a dor da sabedoria não suporta a realidade.

Linda, linda, linda a relação que se forma entre os personagens. Quanta lucidez, quantas dúvidas e inseguranças suportadas pela solidez de seus laços. Laços tão profundos como a imensidão da existência. Tão densos como a difícil aceitação da própria condição humana. Tão complexos quanto passa a ser ver seus amigos próximos e familiares.

A Garota Dinamarquesa ainda se refere ao desconhecimento. Quantas lágrimas nos escapam quando Einar lê no diagnóstico de um doutor a palavra ‘esquizofrênico’. O preconceito vem do desconhecimento. E a incompreensão dilacera. O quão fastidioso é se viver uma situação que se desconhecia em 1920 e ainda não se conhece tão bem hoje, em plenos 2016. Tanta caretice, tanto tabu.

Apesar de o assunto ser largamente associado à depravação, a busca por puros prazeres sexuais, essa história nos mostra que na verdade não é nada disso. Ela nos revela que se trata tão e simplesmente da busca pela real felicidade. Do ser verdadeiro. Do autoconhecimento e entendimento de si mesmo e da urgência que grita dentro da pessoa que se descobre, apesar de todas as repressões sofridas.

The Danish Girl é sobre descobertas. O interesse que a Lili atrai nos rapazes em sua primeira aparição pública nada tem a ver com sex appeal, mas sim com o despertar da sua pureza que a transcende. Com a sua delicadeza e encantamento por, pela primeira vez, ser quem ela realmente é. O nascimento de Lili é lindo, fascinante. Nada transgressivo. Ele é revelador, tão quanto o desabrochar de uma flor.

Trata do outro — refere-se ao eu, tu, nós, vós. O medo, o estranhamento (natural) de uma esposa que acaba por descobrir que a pessoa com quem se casou, na verdade não é aquele homem por quem ela se apaixonou. A forte relação do nós a leva a compreensão, a constatação de ter encontrado um homem excepcional, que pagou duramente pela sua escolha. É tudo tão intenso. É doloroso demais entender e compreender a transformação do outro. Entanto, é luminoso o profundo respeito que ela tem por Lili. É muito bonito como Gerda, apesar de suas próprias inquietações, é capaz de transmitir a Lili a ternura da persistência e do amor.

Com A Garota Dinamarquesa a gente chora e sente muito. E sente muito no sentido de querer colocar os personagens no colo e lhes dizer baixinho ao pé do ouvido “Está tudo bem”; “Tudo vai terminar bem”.

Junto a tudo isso há uma linha que perpassa toda a história que deve ser observada, porque talvez seja esta a grande lição da Garota Dinamarquesa: a necessária pausa no cotidiano para meditar sobre a vida. A vida sob todas as formas.

Por fim, A Garota Dinamarquesa nos pede respeito. Devemos ter cautela com os nossos pré-conceitos. Devemos estar abertos para conhecer o outro, desconstruir estereótipos e buscar um mundo com mais respeito.

Em tempos de pós-modernidade, o ser humano é complexo demais para caber em rótulos. Precisamos desenvolver uma visão mais humana. Hoje, a passividade com que vemos a segregação dos transexuais condena-nos a todos. “Aquele que se conforma com a injustiça é tão injusto quanto aquele que a pratica.” Somos coautores dessa história. Porque em pleno 2016 a ignorância e o desconhecimento dos fatos não mais se justifica. O conhecimento existe e está acessível a todos. Devemos estar atentos, pois raro, sim, é conseguirmos enxergar os ditos “direitos naturais”, aqueles que abarcam o direito à vida, à integridade física, ao respeito à dignidade de cada ser humano.

Enfim, pouco mais tenho a falar sobre esse filme a não ser (se você não o assistiu ainda): assista. Sinta. Compreenda. E perceba como os transexuais são afetados por nós. Pela nossa incompreensão de deixá-los em paz para que possam viver as suas histórias a luz do dia, no mundo.

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Texto de minha autoria, originalmente publicado no blog Observações sobre o belo e o sublime (Obvious).

Farah Serra está no seu caminho — entre os seus blogs Observações sobre o belo e o sublime (Obvious), Pelos campos de trigo, Tempos de gestão e @peloscantosdomundo (Instagram).