Turismo x Terrorismo — Viajar ou não viajar?

É evidente que o terrorismo é o novo desafio do turismo. Há muita insegurança. As pessoas com medo não escapam da pergunta “viajar ou não viajar?”. Mas, o que realmente acontece com o mercado turístico e com o quê o turista deve se preocupar?

Crédito imagem: condesign Licença: CC0 Public Domain

Neste post procuro mostrar um pouco dos impactos do terrorismo no turismo. Falo daqueles impactos que obviamente são negativos, mas também comento alguns efeitos que não são tão ruins assim. Logo em seguida, me coloco na posição dele: o turista. E pensando em todos eles — naquele que ainda está planejando a sua viagem; no que já está com a sua viagem agendada; ou mesmo naquele que está em uma região afetada — busco, com algumas dicas, auxiliá-los em suas apreensões e dúvidas.

Turismo x Terrorismo

É incontestável que o terrorismo impacta diretamente a economia e o turismo de um país.

Para ilustração podemos pegar o atentado que ocorreu em Nice, cidade da Riviera Francesa, que depois de Paris é a cidade mais popular entre os turistas que visitam a França. França, que por sua vez é um dos destinos mais populares do mundo.

Logo depois do ocorrido as empresas europeias ligadas ao turismo foram penalizadas. Na bolsa de Paris, as ações do grupo hoteleiro AccorHotels e da companhia de aluguel de veículos Europcar caíram. A chegada de turistas à capital em voos regulares também diminuiu. O sindicato hoteleiro de Nice faz conta com cancelamentos massivos. E estima-se que na França, os hotéis já perderam quase 300 milhões de euros desde os ataques simultâneos em Paris.

As autoridades francesas sabendo que a série de ataques desmotivará visitantes durante um tempo, instaurou um comitê de urgência econômica dedicado ao turismo. “O ministro de Relações Exteriores, Jean-Marc Ayrault, pediu uma mobilização geral para que a França se mantenha como primeiro destino turístico mundial”. E o secretário-geral da Organização Mundial do Turismo (OMT), Taleb Rifai, em uma conferência sobre o turismo, depois do atentado de Nice, apelou aos turistas que exprimam a sua solidariedade para com a França, contrariando o terrorismo, visitando o país.

“Este é o momento para visitar a França”. “Não é altura de fugir. Não podemos punir as vítimas e recompensar os agressores ao deixar de viajar para os lugares atingidos, porque é exatamente isso o que os terroristas querem”, disse Taleb Rifai.

Isso não se resume a França, seguem pelo mesmo caminho os outros destinos onde foram registrados atentados recentemente: Turquia, Bangladesh, Bélgica, Egito.

Apenas para citar mais um, na Turquia a projeção é que o setor do turismo perderá, este ano, cerca de sete milhões de euros, devido ao medo provocado pelos atentados aleatórios que têm atingido, em especial, Ancara e Istambul. Algo parecido se repete nos demais países.

Enfim, terrorismo é o novo desafio do turismo que recentemente entrou na pauta das suas discussões. Tudo isso é um grande problema, uma vez que é algo púbere e extremamente confuso, tanto para a indústria turística quanto para os turistas. Ninguém sabe ao certo como lidar com ele. Há muita insegurança. O que é claro é que o tema do “medo” deve ser enfrentado e novas estratégias devem surgir. A situação pede ao mercado adaptações. As agências de turismo precisam assegurar a “segurança”. Não se pensa mais que o profissional e o turista não se atenham a situação do lugar aonde se vai. Quem vende a viagem precisa dar informações relevantes: “Tem um ditador”; “Tem eleições”; “Tem um situação política delicada”; etc.. Ao mesmo tempo em que urge mais cuidado e flexibilidade nas regras de cancelamento e assistência ao turista.

Apesar disso, nem tudo é terror. A ameaça de terrorismo igualmente nos da à possibilidade de se redescobrir outros países. O mercado deverá reposicionar a oferta em direção aos países mais calmos. Grécia, Espanha, Itália, Portugal, são tidos como ótimas alternativas aos países considerados em “risco”, quais: França, Egito, Tunísia, Turquia, Norte da África. Os destinos do Oriente Médio são e, por um bom tempo, ainda serão um problema para o turismo. Entanto, cuidado, porque isso não significa que o turismo nesses lugares deve ser extinto. Não é isso. Esses fatos denotam que ele deve ser reestruturado. Talvez esses países em “risco”, por dependerem muito da situação momentânea da região, passarão a serem opções de last minute.

Temos que ser realistas e lembrar que os turistas também dão mostras de maior resiliência frente a estes ataques terroristas e que o turismo continua em evolução, restaurando-se cada vez mais rápido. Após o 11 de setembro, foram precisos quase três anos para os hotéis nova-iorquinos se recuperarem. Bastou um ano para Madrid se repreender após o atentado a estação de comboios de Atocha em 2004. Nove meses para Londres, posteriormente ao ataque no metro em 2005.

Para aferir os impactos no turismo de Paris, Nice, Istambul, Bruxelas ainda é cedo… talvez em especial para a Turquia as estimativas não pareçam boas, mas para os demais temos apropriadas esperanças para nos apegar.

Viajar ou não viajar?

Mas e nós, como turistas, o que podemos fazer?

Bem, a primeira coisa, a saber, é que mais frequentemente do que não, os nossos receios não se justificam, ou não é suportado pelas estatísticas. A mídia gosta de nos apavorar um pouco e nós tendemos a acreditar em tudo o que lemos e ouvimos sem averiguar se o noticiado é realmente relevante ao ponto de alterarmos o nosso modo de vida.

O gráfico abaixo mostra a discrepância entre cenários de medo aparente e cenários que são realmente perigosos. Repare como o medo, o “risco percebido”, de se sofrer um ataque terrorista e muito maior do que o “risco real” de sofrê-lo.

Fonte: Susanna Hertrich, valor baseado no trabalho do Dr. Peter M. Sandman. Disponível em: Anti-Panic Manual — Don’t Be The Turkey
“O risco de morrer em um determinado ano, como resultado de um acidente de aviação para um americano é de cerca de 1 em 11 milhões. As chances de morrer em um acidente de estrada, no entanto, são consideravelmente mais elevados, estimado em cerca de 1 em 5000.”

No mais:

· O importante é se informar…

sobre tudo: situação política do país; questões de segurança e sanitárias; se precisa ou não de visto e vacinas; clima; advertências e providencias; etc.;

principalmente, junto aos órgãos oficiais de turismo do país e da região e com os responsáveis das empresas prestadoras dos serviços que você adquiriu;

· Não confie e cheque sempre as informações compartilhadas nas redes sociais. Muitas delas são falsas ou incompletas.

· Considere viajar em período de baixa estação (quando as cidades estão vazias de turistas).

· Evite cidades grandes e lugares muitos cheios.

· Diante qualquer comportamento suspeito, mala/mochila abandonada, afasta-se o quanto antes e avise a polícia local.

Viajando para um país considerado de “risco”:

· Antes de comprar a viagem, leia com muita, repito MUITA, atenção e repetidamente, as condições dos serviços adquiridos (pacote de viagem, bilhete aéreo, hospedagem, aluguel de carro, passeio, etc.), principalmente, no que diz respeito a adiamento e cancelamento de viagem;

· Considere a possibilidade de não comprar o bilhete aéreo mais econômico, mas sim aquele que te dá à viabilidade de alterar a data do bilhete sem ter que pagar penalidades por isso. Às vezes estes bilhetes são mais caros, mas diante do fator “pode acontecer” pode ser que ao final está seja a opção mais econômica para você.

· Leve e tenha sempre contigo os contatos e endereço do Consulado-Geral do Brasil no país visitado.

· Normalmente há um maior controle nas fronteiras (principalmente nos casos de fechamento de fronteiras) por conta disso você deve se assegurar de ter todos os documentos de identificação válidos, e de ter em mãos todos os documentos relativos à viagem (vistos, bilhetes aéreos, reservas ou confirmações de hospedagens, etc.), além de se programar para uma maior demora nos procedimentos nos aeroportos (em palavras simples: chegue antes no aeroporto).

· Caso você não tenha muita experiência em viajar; não saiba bem a língua do país visitado; ou não tenha um inglês fluente, conte com a ajuda de uma empresa especializada para a organização do seu roteiro e reserva dos serviços, pois em caso de emergência eles deverão te dar todo o suporte necessário.

No caso do pior ter acontecido:

· Siga todas as orientações das autoridades locais.

· Consulte somente fontes oficiais: contate o Consulado-Geral do Brasil no país. Ele está sempre acompanhando de perto a situação para prestar apoio aos cidadãos brasileiros e normalmente disponibiliza um telefone em que atende em regime de plantão e/ou procure pela assessoria de imprensa do Itamaraty.

· Contate a agência de turismo a qual você comprou o pacote de viagem para decidir se viajar ou não. Ou, estando lá, para saber as providências necessárias e como retornar ao seu país com conforto e segurança.

· Caso você tenha adquirido o seu bilhete aéreo de forma independente consulte diretamente a Cia Aérea, através da central de reservas e informações. De acordo com a situação elas podem alterar — temporariamente — as suas políticas comerciais, possibilitando, por exemplo, (dentro de condições preestabelecidas) o reembolso da passagem; antecipar ou postergar a data da viagem na mesma classe de serviço, sem cobrança de multa ou sem nenhum custo adicional.

Estado de emergência…

é um dispositivo legal que concede às autoridades poderes excepcionais como decretar toque de recolher, limitar o movimento de pessoas e proibir aglomerações, estabelecer áreas seguras, fechar espaços públicos e realizar buscas em casa sem necessidade de mandado judicial. Uma vez declarado, o governo passa a ter amparo legal para adotar uma, algumas ou todas essas medidas.

pode ter um prazo de duração relativamente longo. (Por exemplo, na França, pode durar no máximo 12 dias, mas o parlamento nacional pode aprovar uma extensão após esse prazo.)

pode acabar com a sua viagem, uma vez que os espaços públicos podem permanecer fechados e você arrisca ter a sua permanência na cidade restrita ao seu hotel.

· Declarado o estado de emergência, verifique a possibilidade de adiar ou alterar o destino da sua viagem.

· Caso já esteja no país onde o estado de emergência foi declarado, analise a alternativa de retornar ao seu país, avaliando todos os prós e contras dos contratos dos serviços adquiridos. E igualmente consultando os órgãos oficiais e as empresas com as quais você contratou os serviços.

Ir ou ficar?

O que eu posso te dizer é que por aqui, as autoridades europeias insistentemente repetem: “o terrorismo não pode nos vencer pelo medo”. E que eu particularmente acredito que “só venceremos essa guerra contra o terror com a coragem. Coragem de ir e de vir. Coragem de admitir que a realidade e o medo andam, naturalmente, juntos. Coragem de viver lá fora: no mundo! Mas, essa decisão é exclusivamente tua e você tem todo o direito de optar por aquilo que te faz sentir bem e confortável. Afinal, viajar tenso e sem aproveitar a viagem não é legal.

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Citações, fontes de inspiração e fontes.

Highlights do turismo contemporâneo

Histórias de viagens_Do sul da França a Barcelona

O medo real, o medo aparente e a coragem

Anti-Panic Manual — Don’t Be The Turkey

Organização Mundial do Turismo diz que se deve visitar França para contrariar o terrorismo

Terrorismo em Paris: como fica o turista?

Terrorismo “atinge” turismo turco e francês: Portugal é alternativa

Turismo continua em baixa em Paris depois dos ataques terroristas

Terrorismo em Paris: como ficam viagens para capital francesa

Palestras ministradas durante o BizTravel Forum, realizado nos dias 2 e 3 de dezembro de 2015, em Milão (Itália).

Texto de minha autoria, originalmente publicado no blog Tempos de gestão

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Farah Serra é Bacharel em Administração Hoteleira. Possuí dois MBAs, um em Gestão de Pessoas e outro em Gestão Estratégica e Econômica de Negócios. E um Master em Inovação na Administração Pública. Em 2005, foi publicado o seu primeiro livro “Fator Humano da Qualidade em Empresas Hoteleiras”. Hoje ela está no seu caminho — entre os seus blogs Tempos de gestão, Pelos campos de trigo, Observações sobre o belo e o sublime (Obvious) e @peloscantosdomundo (Instagram).