O dia em que meu Facebook me entendeu – e porquê isso me assustou bastante


Acredito que faz, no mínimo, 1 ano, desde o insignificante dia em que curti várias páginas de modo que meu feed de notícias do Facebook fosse um lugar prático pra eu ficar a par do que me interessava.

Amigos, confere; família, confere; artistas e interesses, confere; portais de notícia e de conteúdo, confere.

De lá pra cá foram várias idas até perfis para “Deixar de seguir”, várias para seguir ou “Mostrar primeiro”, centenas de curtidas, uma pilha de compartilhamentos e eventuais comentários.

Eu sempre fui um usuário leve ou moderado do Facebook, e consegui torná-lo prático para checar o que eu precisava checar em alguns instantes e isso somente. Nunca me delonguei no feed, não procrastinei ali nem baixei aplicativos para desativar ele quando precisasse fazer um trabalho porque ele me distraía muito – afinal, ele nunca distraiu.

Até mais ou menos um mês atrás.

Acho que quase todo mundo sabe que, o tempo todo, na internet, tem uma infinidade de algoritmos trabalhando pra nos mostrar os anúncios adequados, as sugestões adequadas, os posts adequados pra nos chamar a atenção e nos prender. Eu sempre soube disso, mas nunca me ative muito a esta reflexão, porque, ao que se via, o meu robozinho não me entendia muito bem. Eu era o humano acima da máquina.

Mas, recentemente, como que por milagre, o meu feed de notícias começou a, com frequência absurda, me mostrar histórias e posts que eram muito interessantes pra mim. Um, atrás, do outro. TODOS.

E de repente eu me vi passar algumas horas por ali. Entre o computador, o celular, ao longo dos minutos do dia, eu abria o Facebook e tinha ali me esperando uma matéria nova da Pitchfork sobre o álbum novo do Frank Ocean, ou um artigo do The Verge sobre o iPhone 7 não ter entrada auxiliar, ou um post do B9 sobre Mad Max, ou um vídeo do Nexo explicando a gravidade da crise econômica atual. E esses dias de passar horas no feed começaram a se repetir.

No início, confesso, achei ótimo. Eu sentia que o meu feed estava fazendo melhor que a minha conta mais arrumadinha do Flipboard jamais fizera. Só coisas legais, do meu interesse, que eu curtia, e que, muitas vezes, eu concordava.

E é aí que mora o problema. É aí que eu me refiro.

Não demorou muito pra eu perceber uma estranheza no fato de que todo mundo estava amando o álbum Blonde, todo mundo estava odiando o iPhone 7 por ele não ter entrada auxiliar, todo mundo estava concordando comigo. Foi quando eu me dei conta que “puta merda. o meu robozinho finalmente me ganhou.”

E eu digo “puta merda” porque, na minha concepção, essa bandeja maravilhosamente bem selecionada com as melhores histórias para o Bernardo Liz é uma coisa extremamente perigosa.

No momento em que a global e universal internet parece estar 100% de acordo comigo, temos um problema: isso me estimula a acreditar que, realmente, todo mundo está de acordo comigo.

O prazer que reside nisso é algo além da razão, é biológico. Quem não adora ouvir que está certo? Mas é preocupante que nós nos deixemos levar pelo prazer dessas confirmações para acabarmos ouvindo somente mais do mesmo, sem discutir, sem repensar – sem evoluir.

Talvez essa seja uma das manifestações mais interessantes e paradoxais da globalização: como as mídias sociais acabam criando “micro-globalizações”, quando por intermédio das redes, uma comunidade é induzida a pensar que todo o mundo pensa de maneira X, porque “todo mundo” (ao meu redor, selecionado e rankeado no meu feed) pensa de maneira X.

O paradoxo é que, teoricamente, a globalização seria um fenômeno mundial. No entanto, o que ocorre é um sentimento irreal – criado por um algoritmo para me dar prazer e me manter mais tempo na página – de que, porque minha comunidade, minha região ou até meu bloco econômico (beijão, E.U.) está assistindo Stranger Things, o mundo inteiro está (por sinal, foi isso que eu senti por aqui quando a série estreiou).

Não quero soar alarmista, velho chato ou hater da web – longe disso, eu amo muito a internet. Apenas fico instigado sobre quantas portas criativas, de pensamento, de evolução pessoal e crescimento intelectual fechamos ao nos mantermos ouvindo sempre as mesmas coisas, as mesmas opiniões, sobre os mesmos assuntos, vendo os mesmos filmes.

Todavia, é claro que podemos nos desvencilhar disso. Na verdade, são só alguns cliques. Na próxima ida ao Netflix, assista aquele filme que nem ele, nem ninguém que tem o mesmo gosto que o seu te recomendou. Completamente nada a ver. Na próxima loucura política, leia a matéria da Carta Capital, se você lê Veja. Ou o post da Veja se você acompanha a Carta Capital. E por aí vai.

Há grandes chances de nem sempre ser a experiência mais agradável. A dissonância é incômoda. Ela é aquele carregador que não firma bem no celular, aquela cadeira de praia que escorrega ao longo do tempo, aquela pulga atrás da orelha que dá um desconforto chato mesmo.

Mas eu acredito fielmente que ela é, mais do que nunca, necessária. E que, na medida do possível, a gente deve, volta e meia, sacudir a cabeça e fazer ela se sentir bem-vinda.