Me deixa ser.

Ouvi de longe, nem sabia quem tinha dito. Até ouvir de novo.
Me deixa ser.

Olhei ao redor e lá estava, tentando se esconder entre um cajueiro plantado erroneamente numa calçada estreita, estourada por suas raízes, e um carro azul popular dessa marca que a gente vê em toda esquina e eu esqueci o nome. Tá na ponta da língua, mas tanto faz, é irrelevante. Lá estava ela, loira de olhos azuis, alta e afilada. Quando ví, estranhei. Deveria me encantar, lógico, beleza gringa como a dela eu só vejo na tv. Mas essa era de carne e osso e tava na minha frente. Olhando pra mim e pedindo, com certa timidez:

– Me deixa ser.

Ora, quem sou eu pra mandar ou desmandar na vida de alguém? Nunca conseguí impor nada nem ao meu cachorro. E olha que eu já tentei adestrar ele diversas vezes, me orgulhando em contar que ele quase me obedeceu em uma delas, antes de se deitar e dormir sob minha ordem de fingir de morto. Foi o mais longe que consegui que um ser vivo fizesse o que eu queria. Mas lá estava ela, me fitando, e se aproximando de mim aos poucos.

– me deixa…

A frase foi interrompida de súbito. Quando tentou se aproximar, deixou exposta as pernas mulatas. O meu choque foi imediato. Aquele contraste era inédito pra mim. Não parecia que sua pele tinha mudado de cor, parecia que ela era metade uma pessoa, metade outra. E notando a minha estranheza, suplicou, se escondendo de volta entre os carros:

– por favor, só me deixa ser.

Os braços que antes cobriam o corpo seminú agora se abriam, esperando receber uma benção ou um sinal de mim, um cara qualquer. Quase como uma epifania, sabia que a resposta para aquilo era uma só:

– Você é. Não importa o que achem que você deve ser. Seja. E a cada olhar que te julgar, a cada gesto negatório, seja mais. Não se importe. Vá, seja você. E seja feliz.

A resposta foi um sorriso imediato. Ela acenou com a mão mulata e se virou, andou e continuou seguindo seu rumo. Me virei, tomando o meu. No final da rua, olhei para trás e vi a mulata mais bonita que esses olhos já presenciaram passar. E desfilava com orgulho, fazendo questão de ser vista. Por que era ela, sendo ela mesma. Sendo feliz.

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