Gertrude B. Kelly: Uma feminista libertária esquecida pela história (por Willian Pablo)

De tempos em tempos eu costumo ler na internet, sobre grandes mulheres cientistas ou que deram uma grande contribuição à ciência, mas que infelizmente foram esquecidas pela história. Uma que eu nunca li, possui o seu nome em uma praça em Nova York: Drª Gertrude B. Kelly.

As fontes sobre Gertrude são um tanto difíceis de achar, mas eu acredito que essa doutora do século XIX precisa ser resgatada, tanto pela sua forte personalidade, quanto pela importância que ela pode ter nos dando alguns insights sobre problemas que vivemos hoje.

Gertrude nasceu em 1862, na Irlanda, e migrou para os Estados Unidos ainda quando pequena. Embora nos Estados Unidos, nunca deixou o seu passado para trás e foi uma grande ativista americana para o movimento de independência da Irlanda — que até então era dominada pela Inglaterra.

Gertrude se tornou médica e trabalhou como cirurgiã de mulheres e crianças por ao menos 30 anos. Ficou conhecida por, ao visitar pacientes pobres, doar para eles ao invés de cobrar pela consulta. Atéia convicta

Kelly além disso era uma feminista individualista que condenava a forma como as mulheres pareciam ser excluídas de assuntos sérios por uma espécie de boicote social dos homens e das diferentes questões legais envolvendo o sexo quanto ao mercado de trabalho. A forma que a Kelly encontrou de lutar contra a discriminação foi ajudando através da persuasão e voluntarismo e engajamento político.

Ao invés de tentar banir a prostituição da sociedade, por ser uma profissão que explorava mulheres em situações de vulnerabilidade, Kelly lutou para que as barreiras legais que impediam as mulheres de competir no mercado de trabalho fossem abolidas. Ela passou a sua vida pedindo por melhores condições legais para as mulheres e tentando remediar o mal social criado pela pobreza, sem que para isso precisasse comprometer as escolhas individuais das mulheres.

Kelly escrevia para o periodico “Liberdade. Não a filha, mas a mãe da ordem” de Benjamin R Tucker, um outro anarquista individualista.

Ela também denunciava as más condições dos trabalhadores, e culpava por elas o capitalismo, mas não o capitalismo no sentido do livre mercado, como os socialistas, mas sim o capitalismo de compadrio. Esse tipo de capitalismo, que gera oligopólios e centralização de poder na mão de poucos era, para Gertrude, o culpado pelas condições de trabalho.

Não fosse o bastante, Gertrude defendeu que a ciência não fosse financiada pelo estado em “The State Aid to Science”. No momento em que vivemos, onde Trump se elege com discursos absurdamente anti-científicos e negacionistas e com nomeações para seu gabinete de toda espécie de indivíduos que acreditam nos mais variados misticismos, nunca antes fez tanto sentido essa defesa da Kelly. O estado não deve financiar a ciência, sob o perigo de escolher os vencedores.

“Parece ser geralmente esquecido por aqueles que favorecem o subsidio do estado à ciência que o subsídio que é dado não é, e não pode ser, um subsídio à ciência, mas a doutrinas particulares ou dogmas, e que, onde esse subsídio é dado, se requer quase uma revolução para que uma nova ideia seja introduzida. Com o ordinário conservadorismo humano, cada nova ideia que vem de fora encontra questionamento suficiente quanto a sua verdade, utilidade, etc.; mas quando nós adicionamos a esse conservadorismo natural, que é o suficiente para proteger a sociedade contra a introdução de um novo erro, toda uma força de uma armada de oficiais pagos cujo interesse é resistir a qualquer ideia que os deprive, ou os tenda a deprivar de seus salários, você irá certamente ver que, das duas forças que tendem para manter a sociedade em equilíbrio, a conservadora e a progressista, a conservadora ficará muito mais forte as custas da progressiva, e que a sociedade estará destinada ao fracasso. […]

Escute o testimônio de Huxley em seu artigo ‘Aspectos Científicos do Positivismo’

‘Todos os grandes passos no avanço da ciência tem sido feitos justamente por aqueles homens que não exitaram em duvidar dos ´principios estabelecidos na ciência por pessoas competentes’ e o grande ensinamento da ciência, o grande uso dela como um instrumento para de disciplina mental, é a sua constante inculcação da máxima de que a base sólida na qual qualquer afirmação possui o direito de ser acreditada é a impossibilidade de refutá-la’

O estado, então, deve recompensar todas aquelas pessoas que se opõem a uma afirmação tal como todas aquelas que a opoiam, ou ele deve apenas recompensar alguns questionadores, e, caso sim, qual, e quem deve decidir quais afirmações não foram refutadas? Há algumas pessoas a serem subsidiadas ao trazerem suas opiniões, com suas razões evidenciando-a, para o mundo, e outros para serem negados o privilégio? Deveria no homem científico ser colocado um poder tão diferente em natureza de todos aqueles que o precederam que ele iria querer ceder seu posto e salário para aqueles que mostrarem mais razão que ele?”

Drª. Gertrude B Kelly, 1887. Tradução minha.

http://www.independent.org/newsroom/article.asp?id=14

http://reason.com/archives/1983/07/01/the-true-mothers-of-feminism/

https://books.google.com.br/books?id=DdHseFmQiSUC&pg=PA62&lpg=PA62&dq=Wendy+McElroy+Gertrude+Kelly&source=bl&ots=hv9YrcXF-g&sig=cn1s_mFbyIalOzZrWAkBlU6MgFo&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwiHura2qu3QAhXMqZAKHdULDKMQ6AEIVzAI#v=onepage&q=Wendy%20McElroy%20Gertrude%20Kelly&f=false

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