“Você não vai soltar o cabelo?”

Fátima Luiza
Nov 1 · 7 min read

Quando éramos quinta série (equivalente ao sexto ano do sistema atual) a professora de português passou um projeto no qual teríamos que agir como publicitários. Teríamos que criar o produto, o slogan (a frase tchan que anuncia o produto) e o jingle (uma musiquinha chiclete dos anúncios publicitários) de uma campanha publicitária. No final de tudo, cada grupo apresentaria seu produto e tentaria “vendê-lo” fazendo uma propaganda. Outras turmas e outros professores prestigiariam nossas apresentações e o melhor grupo ganharia algo como “um ponto extra na prova”.

Eu fiquei mega na expectativa por esse dia. Meu grupo — duas amigas, um amigo e eu — criamos uma marca de sorvete. Confesso que não era o nome mai criativo nem o produto mais criativo, mas e daí a animação era mais contagiante. Tivemos algumas aulas para preparar tudo. A sala ficava uma gritaria. Todos os grupos a todo vapor criando, conversando, desenhando, cantando…

Na quinta série eu ainda tinha o meu cabelo cacheado original. Mas ele era sempre atado em tranças que minha mãe fazia para eu ir à escola. Em 2007, a primavera do cabelos naturais ainda não fazia seus closes. Na minha escola, a maioria das meninas tinha cabelo liso ou no máximo ondulado. Na minha turma, apenas minha melhor amiga e eu tínhamos cabelo cacheado mesmo. O cabelo cacheado que não é contemplado nas campanhas publicitárias, o cabelo cacheado visto como sujo. Hoje, tecnicamente chamamos esses cabelos de 3B e 3C — cachos fechados, com pouca definição e muito volume. O meu cabelo varia entre cacheado 3C e crespo 4A — volumoso, cachos naturalmente não definidos e muito, mas muito cabelo.

Meninas negras de cabelo cacheado que cresceram nos anos 2000 viveram o pesadelo de ter o cabelo que têm. Os motivos são inúmeros, entretanto todos eles ficam debaixo de um termo só: racismo. Estava por toda parte: era o creme do Netinho que prometia “domar” os cachos, era a campanha da Seda com um leão de juba natural sem usar Seda e outro de juba com pelos sedosos e macios após usar Seda, era ser chamada de “cabelo bom-bril” na escola, ser eleita a mais feia da turma, nunca poder ir de cabelo solto porque cabelo cacheado era tido como feio, sujo, habitação de piolhos. Os cabelos rebeldes tinham que ficar presos em tranças e laços e fitas para que a gente não passasse racismos.

Eu odiava usar tranças. Eu me sentia feia e sem identidade. Minha mãe lavava meu cabelo no domingo e fazia um penteado para a semana toda. Era rabo de cavalo, maria-chiquinha ou, quando eu muito pedisse porque era a que eu menos odiava, “trança raiz”. Quando eu me olhava no espelho, eu me imaginava de cabelo solto. Como seria quando eu pudesse escolher ir de trança ou de cabelo solto? Meu problema não eram as tranças. Era o poder de escolha. Eu não podia escolher. Eu tinha que ir de tranças porque era “o único jeito de manter esse cabelo”.

Então, ao invés de lutar com as tranças, passei a oferecer cafézinho com biscoitos ao inimigo. Decidi que jogaria com as tranças e não contra as tranças. E começou a dar certo. Uma vizinha meio cabeleireira fazia tranças no meu cabelo todo. Eram tranças fininhas e eu podia ter a sensação de andar de cabelo solto. Ora, meu cabelo inteiro não estava preso numa trança só, logo estava solto certo?

No domingo, antes do dia da apresentação dos trabalhos de português, pedi a minha mãe que fizesse aquelas mesmas tranças que a vizinha fazia. Minha mãe resmungou muito, mas eu lavei o cabelo, ela me sentou no banquinho e passou duas horas trançando mecha a mecha. No final de tudo, eu me senti linda — eu finalmente poderia ir à aula de cabelo solto. Além de tudo, seria o declínio me sentir feia numa apresentação que eu trabalhei bastante para construir e que teriam outros estudantes e professores nos assistindo.

Na segunda-feira, acordei, fui para a frente do espelho e fiquei balançando a cabela de um lado para o ouro. Como era boa aquela sensação. Meu cabelo cacheado era tamanho médio, mas devido ao fator encolhimento parecia bem menor. Na época, eu não tinha o conhecimento que tenho hoje para entender as nuances de um cabelo cacheado e me sentia triste porque meu cabelo não aparentava crescer. (ps: hoje também fico triste porque meu cabelo não aparenta crescer mas pelo menos eu sei sobre fator encolhimento e trabalho para que meu cabelo fique do tamanho que está porque verão 40 graus no Rio e 900 graus em Recife requerem cabelos curtos #ficadica #isaidwhatisaid) (ps 2 isso é uma piada do ponto de vista semântico mas eu levo bem a sério).

Minha mãe, no dia, sugeriu que eu fosse de tranças presas para que elas não “se assanhassem”. Eu obedeci e como a apresentação seria depois do recreio, realmente, o melhor era que eu as mantivesse bem bonitinhas. Eu não queria estragar o momento de estar de cabelo solto.

Chegou a hora da apresentação. Cada grupo se organizou para que os visitantes pudessem circular em sala vendo os produtos, ouvindo os jingles e tudo o mais. Nós 4 — meu grupo — nos sentamos e foi nesse momento que eu tive a liberdade de finalmente deixar minhas tranças soltas. Balancei o cabelo de um lado para o outro e coloquei duas trancinhas atrás da orelha.

Quando olhei para o lado, minha amiga, que é branca e tinha cabelo ondulado (tecnicamente 2A) estava de cabelo preso. O cabelo dela era bem preto e de tamanho mediano. Ela estava com o cabelo preso. Então, perguntei: “Você não vai soltar seu cabelo? Eu já soltei o meu!” e balancei de novo os tranças para lá e para cá. Prontamente ela me respondeu: “Você não está de cabelo solto”.

No momento em que aquelas palavras se processaram na minha cabeça, eu simplesmente parei de ligar para as apresentações. Como meu cabelo não estava solto? Para ela, claro que não estava. Cabelo solto não tem tranças, não precisa estar em tirinhas feitas de três mechas finas que imprimem ondas triangulares e não precisam estar com gel para se manter. Aquelas palavras foram um baque.

Primeiro choque foi entender que meu cabelo não estava solto. Logo, jogar com as tranças não tinha funcionado. Elas se tornaram minha inimiga mais uma vez. Todo aquele esforço físico de ficar sentada horas em um banquinho com as costas doloridas; e psicológico de ficar ouvindo minha mãe reclamar do esforço que estava fazendo, do quanto eu tinha muito cabelo e bla bla bla — nada tinha valido a pena. Meu cabelo nem estava solto e eu nem tinha o direito de sentir que ele estava.

Quando cheguei em casa, segui minha vida normalmente até pós-almoço: no cochilo da tarde eu chorei quietinha no meu quarto e depois dormi. Acordei quase de noite já com as muriçocas bailando ao redor da minha cabeça. Minha mãe já havia chegado, já tinha pão fresquinho na mesa da cozinha, minha avó já tinha feito o café. Tudo seguia na mais perfeita normalidade. Exceto pela minha mente de 11 anos de idade que preferia cortar as tranças à raiva à mantê-las. Eu queria ter forças naquele dia de pedir à minha mãe para ir alisar meu cabelo — logo eu poderia usá-lo solto de verdade. Eu acabei alisando o cabelo no ano seguinte.

Quantas palavras de teor racista são proferidas a cada segundo por pessoas que performam branquitude? Quantas vezes eu tive que escutar que “ela não teve intenção” todas as vezes que tentei recontar a história deste texto em outros espaços? Quantas vezes eu tive vergonha de usar tranças — uma estética roubada da África — por elas serem vistas como feias e sujas? Quantas listas de mais feia da sala, cabelo mais feio da sala, cabelo bom-bril da sala e afins eu tive que viver na escola?

Hoje eu estava trançando meu cabelo na sala do apartamento. Ao mesmo tempo em que umidificava as mechas para desembaraçar e trançar, estava lembrando essa história que estou contando. Vira e mexe eu lembro esse dia com grande desprezo e também com grande triste. É uma mistura de sentimentos entre a raiva de não poder ter dado uma resposta naquele momento — “Claro que está solto! E as tranças estão lindas!” — e também de ter sofrido um ato racista e não ter entendido o que era.

A última trança que fiz no meu cabelo hoje — as tranças e eu viramos afro best friends forever de três anos pra cá — me deu a sensação de “dever cumprido”. Não só porque eu virei friends com as tranças, mas porque agora eu sei que aquilo foi racismo, agora eu posso performar minhas trancinhas neste calor infernal do Rio de Janeiro sabendo que, mesmo ainda vivendo o racismo cotidiano desta cidade, eu terei a certeza de que alguém na minha linhagem ancestral africana estará muito feliz por eu estar honrando uma estética que nos foi roubada e entregue à marginalidade. Minhas tranças informam que eu sei quem sou e que tenho resposta para “seu cabelo não está solto”: ele está sim! Ele está mais que solto. Tão solto que que está correndo por aí, junto comigo, e a liberdade de eu poder usar o que quiser. E se estiver achando ruim, meu creme de hidratação é 45 reais, pode depositar na minha conta.

Um beijo de luz. Acabou o texto.

Fátima Luiza

Written by

I don’t know, do you?

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade