As Luzes do Fim do Mundo

Abriu os olhos. Não conseguia dormir.

Sentou-se lentamente e suspirou.

Olhou ao redor.

Todos dormiam.

Levantou silenciosamente e olhou pela janela.

Arregalou os olhos.

Pegou a câmera na mochila o mais discretamente possível, mas com pressa.

Saiu.

Não conseguia acreditar no que via.

“Aqui, nessa latitude?”, pensou ele.

Caminhou para fora do terreno da casa em que estavam.

Ouviu o barulho do mar.

Andou em direção ao centro do condomínio, chegando em uma pracinha parcialmente destruída.

Não havia mais energia elétrica, mas as ruas estavam iluminadas.

Começou a tirar fotos, embasbacado com o céu que via. Valeria a pena gastar a última bateria nisso.

Enquadrou o condomínio morto e escuro com as luzes que serpenteavam no firmamento.

Compôs as línguas verdes do céu com as cercas caídas.

Capturou as estrelas por entre os galhos secos das árvores.

Era belíssimo.

Ouviu um ruído. Virou-se rapidamente.

- Oi, desculpa, não queria te assustar… — disse ela, docemente.

- Tudo bem, nem me assustei… — respondeu ele, sorrindo.

Ela sorriu de volta.

- Eu não consegui dormir… e quando te vi sair levantei também, daí vi o céu e… nossa… — suspirou ela, olhando para cima com a boca entreaberta num misto de sorriso e espanto.

- Fantástico, né? — disse ele, sentado na grama, olhando para ela com o mesmo olhar com que contemplava o céu instantes atrás.

- É lindo… — disse ela, baixinho, ainda olhando para cima — …Eu te vi tirando fotos, posso ver? — completou, sorrindo meigamente e encarando-o.

- Claro! — disse ele, arqueando as sobrancelhas e estendendo a câmera.

Ela sentou-se ao lado dele na grama, pegou gentilmente a câmera das mãos dele e começou a olhar as várias imagens que ele havia feito.

- Nossa, tu tirou fotos lindas! — exclamou ela, com um olhar admirado.

- Haha, obrigado! — sorriu ele, meio sem graça.

Ela ficou alguns instantes em silêncio, olhando foto por foto. Parou, e gentilmente estendeu a câmera de volta à ele.

Olhando para ela, ele tomou a câmera e a segurou no colo. Olhou novamente para o céu.

Ela olhou para cima também.

Ficaram alguns poucos segundos em silêncio.

- A gente não se deu oi direito ainda né… Digo, nós todos nos conhecemos ali, mas a gente não. Oficialmente, quero dizer… — disse ela, olhando para ele e desviando timidamente o olhar para baixo.

Ele olhou rapidamente para ela.

- Ah, sim…foi…complicado, antes…muita correria né… — concordou ele, balbuciando.

Ela levantou o olhar. Ele a fitava nos olhos, nitidamente nervoso, sorrindo sem jeito.

- Prazer! — ela disse, subitamente, com um risinho, estendendo a mão.

- Muito prazer, minha cara! — disse ele, teatralmente, com um largo sorriso, cordialmente pegando na mão dela.

Ela soltou uma risada enquanto cumprimentava-o, e ele percebeu pela primeira vez o quão bonita ela era quando suas bochechas apertavam seus olhos ao rir.

Eles deitaram lado a lado na grama enquanto conversavam e tiravam fotos da anormal aurora que bailava no céu, como se fosse um presente de consolação pelo o que havia acontecido com o mundo.

E por aquela noite a humanidade parecia ainda existir, e eles não se importaram com o fato de serem umas das últimas pessoas vivas.

Um sonho de

Tiago K. Ruppenthal

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