Ela Só Queria Existir

Eles estavam sentados de frente um para o outro. Uma mesa de centro os separava.

Mas a distância entre eles era muito maior.

Ele falava ao telefone. Trivialidades.

Ela encarava as mãos, a franja tapando-lhe o rosto.

Ela levantou.

Vagarosamente contornou o sofá e foi até a janela. Ela gostava daquela janela. Era grande.

Gostava de sentar na beirada para ler.

Ele seguiu-a com os olhos, enquanto se despedia e terminava a ligação.

Era dia, e chovia.

Estava frio.

Mas não foi de frio que ela abraçou os próprios braços.

Ele ficou ali, sentado, observando-a naquele vestidinho preto, simples, fininho e macio. Seus pés descalços no chão de madeira e os longos cabelos presos em um rabo-de-cavalo, com apenas uma franja despretensiosamente solta.

- Eu sei o que você quer.. — disse ele, por fim, quebrando o silêncio do gotejar na janela.

Ela permaneceu imóvel.

- Você quer ser única, especial. Fazer parte da minha vida. — continuou.

Ele pensou ter visto ela abraçar um pouco mais forte os próprios braços.

Ela permanecia em silêncio.

- Mas você não pode… Sequer tens um nome, um cheiro, um gosto… — havia um pouco de indignação e tristeza na voz dele.

Ele pôde sentir uma certa raiva emanando dela, uma raiva que se sente quando falam a verdade e essa verdade infelizmente não condiz com a realidade.

- Você NÃO EXISTE! — finalizou ele, alterando um pouco a voz.

Ela se virou para ele.

Havia tristeza em ambos, mas nela…

Nela era pior.

Ela não tinha rosto.

Ele ficou encarando-a, aquela face completamente branca e lisa, como um manequim.

Sabia que ela chorava, mesmo sem ter olhos. Sentia isso.

- …queria te dar uma vida… — lamentou ele, murmurando.

Ela tornou a encarar a janela, encostando a cabeça contra o vidro.

As gotas escorriam devagar do lado de fora.

O telefone dele toca novamente.

Acordei.

Um sonho de

Tiago K. Ruppenthal