A Arte de Resistir: 10 músicas de Rock que me ensinaram a viver.

Resistir é uma arte.

E como toda expressão artística, a arte da resistência possui suas próprias nuances, seu próprio meio de interagir com o mundo exterior. A música, per se, é uma expressão de resistência. A tensão das cordas, a firmeza das peles de tons e surdos, os estreitos tubos de aço que persistem à agressão física de seus dominadores, emanam sons de liberdade enquanto vigoram em suas muitas e distintas notas.

Meu primeiro contato — sério, envolvente, cativante — com a música foi quando me envolvi em sua expressão de resistência. Eu era muito jovem, e meus pensamentos estavam confusos. Perguntas fundamentais sobre a inerente natureza do ser humano pululavam, tais quais:

“Quem era eu aos meus 15 anos?”

“Porque eu tinha espinhas no nariz?”

“O que eu vou fazer quando crescer?”

“Tostines vende mais porque é fresquinho, ou é fresquinho porque vende mais?”

Engraçado como essas questões permanecem sem resposta até hoje. No meio dessa turbulência de sentimentos, ficava difícil me projetar, de dentro pra fora. Ficava difícil resistir. Foi então que eu encontrei na música uma forma de tenacidade, uma forma de me exteriorizar. E foi justamente em um estilo musical intransigente, rebelde, que é o porta-voz feroz da animosidade, da ousadia, que eu encontrei paz. Tem uma frase que eu gosto muito, de um cara que eu não gosto tanto, que diz assim:

“One must still have chaos in oneself 
to be able to give birth to a dancing star”

(É preciso ter caos dentro de sí 
para dar luz á uma estrela cintilante — Tradução do Bing)

O cara que falou isso se chama Friedrich Nietzsche. Embora eu não seja do nível übermensch de ceticismo, é inegável a beleza da frase que nosso amigo bigodudo matador de deuses diz, não importa seu sentido. O Rock, e em especial o Metal e sua arvore genealógica, compila dentro de si diferentes matizes de diferentes estruturas caóticas que habitam dentro de nós. Somos seres pulsantes, vibrantes, mudamos mais de emoções do que o Dave Mustaine¹ muda de músicos. E nenhum estilo me compreendeu mais do que o Rock. A relação sempre foi de troca: ele me dava o vigor, a fúria necessária para sobreviver, ao passo que eu disseminava seus tons e sons pelo universo afora. Suas letras me ajudaram a entender o mundo, a entender minha raiva, a aceitar que a vida é algo passageiro, mas que existe muito mistério por trás de quem somos, como espécie, como indivíduos. Letras que falaram por mim quando eu não tinha a coragem de dizer.

Claro, uma hora a gente cresce. Quer dizer, cada um tem seu tempo, mas invariavelmente, a vida bate na sua porta como um fiscal da Receita Federal cobrando o que você deve à ela. E ela tira na marra. Você aí que está lendo esse texto (espero que ainda tenha alguém aí), sabe que as coisas pioram quando se adiciona boletos, vícios, gordura trans e algumas velinhas à mais no seu bolo. Lembra que eu disse que a Resistência é uma arte? A música é umas das expressões artísticas que mais nos ajuda a perseverar, a reagir, a viver. E na minha vida, o Rock — na verdade, a musica como um todo — fez um papel fundamental na transição entre as espinhas no nariz e os espinhos na carteira.

A musica estava lá quando eu venci, quando conquistei a Europa e mais três territórios à minha escolha, quando transei, quando bebi, quando chorei, quando eu não sabia mais quem eu era, quando eu estava indo em direção ao desconhecido, quando eu falhei, quando eu me perdi. Nem o Mastercard esteve presente para todos os momentos como estas cantigas estiveram. Nem a Adriana. Esteves. Desculpem.

É engraçada a relação que eu desenvolvi com esse estilo, principalmente com o Metal. Ele me ajuda a resistir, a aguentar as vicissitudes que carregamos em nossa jornada. Melodias e letras se misturam para me dizer que somos humanos, que sofremos, mas que também podemos ser felizes enquanto temos paz. Sons tão disruptivos e anárquicos que mantem o caos dentro de mim, organizam a desordem e me impulsionam pra um destino do qual não devemos temer.

Foi uma intro longa, mas é importante eu descrever o que essas músicas significam pra mim. Como elas me ajudaram a me tornar o serhumaninho que sou hoje, como ajudaram com que eu chegasse até aqui com um nível OK de sanidade mental básica. Abaixo eu listo 10 músicas do estilo² que foram ou são fundamentais na minha própria arte de resistir, e que me cativam tanto pelo seu porte lírico quanto por suas melodias intensas.

“Feed Buzz proudly presents:

10 — “Oblivion”, Mastodon
Quando falhei, quando precisava me perdoar a mim mesmo:
Caindo em desgraça, pois já passei tempo demais longe
Deixando você para trás com a minha canção triste
Agora estou perdido no esquecimento”
9 — “Born in Winter”, Gojira
Quando precisei entender os ciclos da vida e o significado de resignação:
E através do frio cortante, com olhos abertos
Você vai encontrar a força para lutar e ficar de pé”
8 — “Sprouts of Time”, Angra
Quando a vida me mostrava que sempre podemos recomeçar:
Novas estações trazem a oportunidade
De começar de novo”
7 — “Overlord”, Lamb of God
Quando eu precisei conter minha raiva:
O mundo inteiro é um palco
Mas você é o único jogador
Uum buraco negro no centro do universo
Uma nuvem escura de desespero”
6 — “The Clairvoyant”, Iron Maiden
Quando aprendi que a morte é real e faz parte de nossa condição humana:
“Existe o tempo de viver e o tempo de morrer
Quando é a hora de encontrar o Criador
Existe o tempo para viver, mas não é estranho
Que assim que você nasce, você já esteja morrendo?”
5 — “Noldor (Dead Winter Reigns)”, Blind Guardian
Quando aprendi que existem muitas hi(e)stórias para serem contadas!
“Noldor, o sangue está em suas mãos
Sua destruição é
Um trágico destino”
4 — “Welcome Home (Sanitarium)”, Metallica
Quando aprendi a importância de sermos nós mesmos e os problemas de não nos aceitar como somos:
Constrói meu medo do que há lá fora
Não posso respirar o ar livre
Sussurra coisas em meu cérebro
Assegurando-me que eu sou insano”
3 — “Anesthetize”, Porcupine Tree
Quando eu vi a necessidade de Resistir, e que a vida é mais do que está em nossos olhos:
“Estamos perdidos no shopping, zanzando pelas lojas como zumbis
Bem, qual é o objetivo? O que o dinheiro pode comprar?”
Ela tem 18 minutos, eu sei. Mas é como se tivesse quatro músicas em uma. Poxa, Mozart também é longo….
2 — “Would”, Alice in Chains
Quando aprendi sobre o real perigo de nossos vícios:
“Numa correnteza novamente
A mesma velha viagem que foi naquela época
Então eu cometi um grande erro”
1 — “Learning to Live”, Dream Theater
Quando eu aprendi que a vida VALE a pena:
“O modo como o seu coração bate faz toda a diferença
Isso é o que decide se você suportará a dor que nós todos sentimos
O modo como o seu coração bate faz toda a diferença
Quando se aprende a viver”

Um comentário sobre a última musica. Ela foi a que me introduziu esse conceito de resistência, de melodias e letras que podem nos transformar por dentro. Eu tenho o costume de ouvir essa música e lembrar sua letra ao menos uma vez por ano, durante o Ano Novo. Um verdadeiro ode à nossa sobrevivência e um gentil lembrete de que existe um mundo ai fora que vale a pena experimentar.

Essas músicas estiveram em momentos importantes na minha vida, que definiram um pouco de quem sou hoje. E que eu feliz e emocionadamente compartilho com quem estiver lendo.

Resistir é arte. E, cada um de nós, através da graça inflexível da natureza, está aprendendo, dia após dia, a viver.

=]

Notas de Rodapé:
¹Dave Mustaine é o guitarrista/vocalista do Megadeth, que troca de músico em sua banda mais do que o Cristiano Ronaldo troca de corte de cabelo.

²Não seja chato de ficar segmentando estilo. Eu considero tudo como metal. Deixe a discussão de vertentes para outro dia,

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