Os olhos dourados do cão

Não era o primeiro que eu atropelava. Na estrada, quase sempre um cachorro inventa de atravessar a sua vida. Às vezes no fim da tarde, quando a luz já não deixa a gente ver ao longe as formas que as coisas têm; às vezes bem cedo, naquela hora em que o mato do acostamento fica coberto pela penugem da água da noite.

O diacho são as distrações. Já faz tempo que venho me sentindo meio suspiroso. Presto atenção em coisas sem valor. Os arabescos da carroceria, a chuva que batuca o teto do caminhão, um saco plástico no redemoinho. Perco tempo. Tento acompanhar as notícias na TV do posto, mas as vistas atravessam o aparelho e o café à minha frente esfria. “Moço, já posso tirar?”, a balconista pergunta, me arrancando do torpor. “Pode, pode”.

Escuto os sussurros dos colegas. De quando em quando, riem alto, apontam. Devem pensar que estou ficando frouxo. Eu me aparto. Tenho comido só, fuçando desinteressado a marmita. Evito a gritaria do carteado. Lavo-me quando não há mais ninguém no banheiro. Recuso o bordel, me falta vontade. De noite, batem na porta da minha cabine e digo que vou mais tarde. Não vou.

Começou na viagem para Rio Bonito. Três dias de estrada. Peguei o caminho de sempre. O pavimento carcomido, cheio de buracos e ranhuras, e trechos longos de terra batida. Conhecia-o desde sempre. Era uma antiga rota de tropeiros improvisada em rodovia. Tinha duas mãos estreitas. Chacoalhava-se bastante, quase todo o percurso. Eu era um dos poucos que faziam entregas naquele lugar esquecido.

A passagem do caminhão perturbava o silêncio da planície. Espanava no ar a poeira que, depois, se instalaria sobre os galhos dos arbustos secos e no fundo da garganta. Raras e delgadas casas surgiam durante o trajeto. Ninguém se assomava às janelas, que mais pareciam órbitas escuras de um rosto sem olhos. Nenhuma criança corria atrás do carro gritando e fazendo micagens.

O azul do céu tirano. Imenso, limpo de nuvens, estacado.

O tempo não avançava, escapava a qualquer medição. Era a rotação incessante dos pneus, porém suspensos, como se a borracha não tocasse a pele do chão e empurrasse a máquina adiante. O movimento pelo movimento apenas. Inútil, o tempo não existia.

O cachorro apareceu exatamente quando eu percebia todo aquele deserto. Era um bicho vadio, de pelagem acinzentada e cabeça miúda. Levava uma perna pendurada e salteava nas três que lhe restavam boas. Gambitos com fome. Atravessou a estrada nessa dança dissonante e antes que eu o atingisse com o meu Ford gordo e surrado, olhei bem sua cara de cão. Não era uma cara triste, era conforme, expressão de quem aceita resignado o destino vira-lata.

Aqueles olhos amarelos. Densos. Indecifráveis de chofre. Segui em frente, mas os olhos do cão insistiam em pairar sobre os meus. Parei o caminhão meio quilômetro depois, deixei-o funcionando, mal estacionado, saltei e voltei caminhando a passos rápidos. O corpo ainda estava quente. Ofegava baixinho. Ou era eu? Agachei-me e agarrei sua cabeça. Coloquei-a entre as minhas mãos. Imaginava pedra pesada, mas era leve, e quando empreguei força quase levantei todo o animal.

Trouxe seu rosto diante do meu. O focinho molhado de sangue. Queria ver uma vez mais seus olhos dourados, os olhos dourados do cão. Sentei-me e coloquei o animal em meu colo. Fiquei ali acarinhando seu pelo empapado até que a carcaça esfriasse. Abracei-o com cuidado e levantei-me. Era preciso tirá-lo dali. Deixei o cão no canto da pista, no que restava de um acostamento. Retornei ao caminhão devagar.

Iniciei a jornada.

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