Tapa

Na boca, o gosto de pão com manteiga e café com leite. O lanche era uma breve interrupção em nossa vida de moleque. Por volta das três, minha vó chamava carrancuda com seu português macarrônico. Era atender ou atender. Engolíamos, meu primo e eu, ansiosos para retornar ao que fazíamos. Tinha mais sabor o brinquedo.

Marcelinho não lanchava. Não tinha vó que gritasse seu nome. E nos esperava. Sempre. Naquele dia, esperou com a bola surrada debaixo do braço. Fazia pose. Camiseta azul de mangas compridas, shorts vermelhos com listras brancas laterais e luvas. Pernas negras de passarinho. Imaginava-se Ronaldo ou Zetti. Eu o via pela janela. Ele também nos via, mas de esguelha, como quem dribla com os olhos.

De barriga cheia, voltamos. Nosso campo era o terreno baldio ao lado da minha casa. Chutávamos o capotão num metro quadrado de grama cercado por tocos, pedras e entulho. Nosso campo seria maior não fosse a horta-latifúndio do meu vô. Nos esforçávamos para não destruir os pés de mandioca ou machucar as hortaliças. Tamanha era a dificuldade e tão reduzido o espaço, que, com um pouco mais de vontade, poderíamos ter saído daquele terreno esquecido direto para os gramados dos estádios.

Improvisamos traves com cabos de vassoura espetados em latas de tinta cheias de areia. Estrategicamente posicionadas atrás do muro, de forma a impedir que a bola fosse parar no meio da rua a todo instante. O travessão ficava por conta da conveniência e do debate. Quem fosse bom de grito que apitasse o gol ou a bola fora. “Essa foi dentro”, “Passou longe, nem vem”, “Se tivesse travessão, tinha batido e entrado”, “Não tinha”.

Talvez estivesse nessa baliza invisível o objeto mais divertido de nossos jogos. Uma piscadela pueril para o imponderável. Perdíamos mais tempo nos tira-teimas, discutindo se a bola havia entrado ou não, do que driblando, passando e chutando.

Marcelinho estava no gol. Botei a bola no que imaginava ser o ângulo, depois de receber um passe açucarado de meu primo. Foi bonito o chute, de primeira. Tinha que ser gol. Tinha que valer. Na minha cabeça era uma obra-prima. Mas ele não quis. Bateu o pé. “Foi fora, foi fora. Tiro de meta”. “Tá lá… Foi, foi, foi, foi, foi ele… ”. Eu narrei e a coisa esquentou. Marcelinho se perdeu e me peitou. Pouco convicto, sem saber ao certo o que fazia. Mas veio olho no olho. Os narizes separados por centímetros.

Eu também me perdi. Não sei se era medo, me senti acuado. Não queria fazer mal ao garoto franzino, amigo de todos os dias, mas era uma oportunidade de superar o menino e mostrar-me viril. Desferi o tapa. Covarde. Era um tapa mole, sem força, sem a virtude dura das coisas violentas. Era um meio de caminho entre o golpe e o afago. E Marcelinho valorizou. Foi ao chão como vão os goleiros nas fotos. Chorou. Desceu a rua em prantos, rumo a sua casa, dizendo coisas incompreensíveis.

Senti medo de ser repreendido: por meu pai, pelo pai dele, por outros garotos da rua, numa emboscada. Senti medo de mim. Tive pena de Marcelinho. Vergonha. O gosto na boca havia mudado, era outro.

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