O trem de Salvador

A primeira praia que vi na vida foi na Bahia, mas especificamente em ilhéus. Na minha infância meus avós mineiros, por parte de pai, se apaixonaram pela Bahia e montaram um restaurante em frente à praia. Toda a família costumava ir lá nas férias. Está guardado nas minhas memórias afetivas mais gostosas aquele primeiro banho de mar.

O tempo passou, voltei a Salvador a trabalho e agora a passeio e minha ligação com a cidade só cresce. Se você é preto e vai para Salvador se sente em casa em cada esquina. Cada pedra daquele lugar relembra a história do povo negro no nosso país. A riqueza cultural, as religiosidades o axé por todo o lado fez a gente se sentir em casa, na nossa casa ancestral.

Passamos o ano novo em Guaibim (litoral da Bahia) e depois partimos para Salvador, nosso voo saia de lá. Em três dias pela cidade fomos ao Pelourinho, Rio Vermelho, Farol da Barra, Igreja do Senhor do Bonfim (na primeira sexta do ano), Feira de São Joaquim (compramos farinha e dendê), andamos de busão, trem, comemos acarajé, camarão, pamonha baiana, tomamos cravinho (melhor cachaça artesanal), abará, vatapá, peixe frito. Comemos, comemos e comemos.

O sagrado africano é corpo, alma e espirito.

O rolé mais doido foi pegar o trem na estação calçada. Por 50 centavos entramos no trem, aquele calor abafado de Salvador sem nenhum ar e muita gente. E pelas janelas observamos a cidade fora dos cartões postais, passando pelas zonas periféricas, as favelas, à margem, nua, dura e bonita.

E nesse vai e vem de pessoas. Gente vendendo de tudo, de velho a adolescente. É louco as semelhanças que vemos com o Rio, com o Brasil colonial, com os imigrantes senegalenses em Madrid, com os vendedores ambulantes na Angola. O povo negro da diáspora e da áfrica vem resistindo na rua. Vendendo qualquer coisa que está a sua mão. Com capacidade incrível de oratória e de se virar diante das adversidades.

Do outro lado, a gente vê os de sempre sangrando, tendo que vender o café para comer o almoço, e vender o almoço pelo café. Foi à frase que mais nos marcou no trem. De olherada escutamos uma conversar entre uma vendedora de salgados e um passageiro.

Eles falavam sobre os preços altos dos alimentos, de como o pobre trabalhava para comer. Até que a mulher perguntou se ele iria votar. Ele disse que não ia sair de casa, pegar busão e se cansar para votar em ladrão. Ela o questionou sobre o passaporte. “Se não votar não consegue tirar o passaporte”. Ele riu e disse que passaporte de pobre está enterrado no chão. Ela insistiu dizendo que era melhor votar para tirar o passaporte caso aparecesse uma oportunidade de viajar.

Achei tão triste e ao mesmo tempo incrível aquele papo. Aquela mulher que vendia salgado no trem por um real, estava preocupada em votar por causa do passaporte. Ali dentro dela tinha o sonho de querer mais do que a vida lhe deu, um sonho que não morria, estava vivo apesar da própria vida. Ali era o Brasil mais profundo.

Fora dali também encontramos gente preta que tem feito trabalhos incríveis na arte, cultura, comunicação, tecnologia e empreendedorismo. Salvador é um puta polo criativo do nosso país.

Um salve para Annia Rizia, uma jovem artista plástica que está pintando quadros sobre o genocídio do povo negro da forma mais revoltosa e bela que alguém poderia fazer. A produtora Naymare Azevedo que vai abrir em fevereiro o mercado (espaço coletivo) no Rio Vermelho de frente a praia. A galera do Gambiarra Coletiva que tem um coworking com loja colaborativa e bistrô na Barra. A cooperativa de artistas independentes, Atelier Arte Naîf Tribo do Sol, localizada no Pelourinho onde você encontra trabalhos únicos e não réplica. A galera da Mídia Étnica, Afrobox, Vale do Dendê, Tia Má, Desabafo Social e tantos outros baianos que inspiram a gente!

Salve a Bahia!