O que torna uma interface intuitiva?

A importância dos modelos mentais e conceituais na elaboração de interfaces intuitivas

O que significa algo ser Intuitivo? Segundo o dicionário, intuitivo é aquilo…

“ …que estabelece uma compreensão (conhecimento), de modo direto e instantâneo, sem a utilização de deduções ou classificações caracterizadas por conceitos.”

Ou seja, quando estamos falando de interfaces intuitivas estamos querendo dizer interfaces em que não precisamos pensar para utilizar, que podem ser usadas de modo “direto e instantâneo”, usadas de forma natural.

Por que conseguimos utilizar de forma simples o aplicativo do Facebook mas temos arrepios quando precisamos declarar o imposto de renda no programa da Receita Federal? Afinal, o que faz algo ser intuitivo ou não?

Modelo Mental

Diversas teorias e técnicas foram criadas durante a história para explicar e prever o comportamento do usuário. Um desses frameworks é o que chamamos de Modelos Mentais.

Há várias formas de se explicar o que são modelos mentais porém vamos utilizar a definição dada por Jakob Nielsen [1]:

“A mental model is what the user believes about the system at hand”

Cada usuário cria em sua mente um “modelo” de como ele deve interagir e também (de certa forma limitada) como o sistema funciona. Baseado nisso ele toma decisões e ações. Isso é um modelo mental, um modelo definido pelas crenças do usuário e não necessariamente, baseado em fatos ou na realidade.

Apesar de não ser uma representação perfeita da realidade, um modelo mental é uma representação útil pois permite ao usuário tomar decisões de forma muito mais rápida, sem a necessidade de “perder tempo” aprendendo o que deve ser feito.

Cada usuário tem seus próprios modelos mentais, criados com base em suas experiências durante a vida, cultura e conhecimentos. Um designer que projeta um e-commerce tem um modelo mental muito mais completo e próximo da realidade a respeito do sistema do que um usuário que nunca mexeu em um computador.

Caso queria saber mais sobre Modelos Mentais:

Modelo Conceitual

Se em uma extremidade temos a “visão do usuário” sobre o sistema através de um modelo mental, do outro lado temos o modelo conceitual que passa a ser, em essência, o que o produto é.

Em resumo um modelo conceitual, segundo Johnson e Henderson [2] é

“…uma descrição de alto nível de como um sistema é organizado e operado…”

Quando estamos desenvolvendo um sistema criamos um modelo conceitual, temos claro em nossas mentes (ou pelo menos deveríamos ter) quais são os objetivos e funcionalidades do produto e como a interação com o usuário (através de uma interface) se dará.

Por exemplo, quando estamos projetando e desenvolvendo um e-commerce é claro para todos que teremos produtos, listados e categorizados de alguma forma, que serão adicionados a um carrinho onde o usuário poderá finalizar a compra e efetuar o pagamento.

Essa e a ideia do modelo conceitual: ser uma descrição detalhada do funcionamento e interações possíveis do sistema

It’s a Match!

Quando o modelo conceitual do sistema se assemelha ao modelo mental dos usuários temos uma sistema intuitivo!!

Muitas pessoas pensam que um sistema intuitivo é apenas um sistema fácil de ser usado, e isso não é verdade. Um site com poucos botões e funcionalidades pode ser fácil de usar mas não quer dizer que ele seja intuitivo.

A facilidade no uso é apenas a consequência de um sistema intuitivo

Por exemplo, um e-commerce em que ao clicar no botão comprar ele nos leva direto para o checkout pode facilitar o fluxo (eliminamos etapas) mas deixa de ser intuitivo.

O modelo mental que temos ao pensar em compra online é: ao clicar em comprar adicionamos o produto ao carrinho, se tiramos essa etapa criamos uma confusão na mente do usuário já que o modelo mental diz que acontecerá uma coisa mas a realidade (modelo conceitual) mostra outra.

O grande desafio para o desenvolvimento de soluções intuitivas é casar aquilo que planejamos para o sistema (modelo conceitual) com aquilo que o usuário espera interagir (modelo mental).

Ao projetarmos é fundamental conhecermos os nossos usuários e dessa forma criarmos soluções que aproximem esses dois mundos.

Mas até que ponto é possível fazer isso? Em alguns sistemas onde estamos propondo modos de interatividade ou funcionamentos diferenciados precisamos moldar o modelo mental do usuário para que ele se ajuste ao nosso modelo conceitual.

Alguns princípios de design podem ajudar nessa tarefa como desenvolver sistemas que sejam “transparentes” em seu uso e proporcione informações claras que auxilie o usuário a modificar seus modelos ao ponto deles se assemelharem ao que projetamos.

Porém tenha em mente: moldar a visão do usuário sobre um sistema nem sempre é fácil e rápido. O melhor caminho sempre será projetar pensando em como essas pessoas irão usar e quais experiências elas esperam ter com base naquilo que ela tem de modelos mentais.


Referência

[1] Mental Models por Jakob Nielsen — https://www.nngroup.com/articles/mental-models/

[2] Conceptual Models: Begin by designing what to design (Johnson, J. and Henderson, A.)

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