Cuidado ao atravessar

Não importa se vou ao trabalho, se vou viajar pra longe, se vou comprar pão na esquina.
Toda vez que estou na casa dos meus pais, e saio de lá por algum motivo, minha doce vó diz:
“Cuidado ao atravessar”
Isso não é de hoje. Desde os tempos de infância no Tijolinho, bastava eu botar meu velho chinelo prateado pra fora de casa e ela vinha até a porta exclamando:
“Cuidado ao atravessar”
Esse cuidado de vó é único, doce, exagerado, vidente. Tão único quanto o arroz soltinho que só ela sabe fazer, tão doce quanto os bolos de milho que ela fazia nos tabuleiros de prata, tão exagerado quanto os casacos que ela implorava que eu vestisse para ir ao colégio. E nem frio fazia.
E tão vidente que ela sempre acerta quando diz que vai chover. Garotas do tempo dos telejornais deveriam ter as avós como fontes.
Esse cuidado de vó é maravilhoso porque nos acalenta, protege, revigora. Vó não sabe dar castigo ao neto, vó não sabe dizer não, vó não sabe dizer talvez. Ela sempre dá um jeito.
Morei boa parte da minha vida junto com minha vó (sim, fui criado por vó e me orgulho disso). É minha segunda mãe. É o afeto em pessoa. Claro, é teimosa. Mas como é genuína. Tem frases únicas (“é mais fácil um burro voando do que eu fazer isso”).
Minha avó não tem número de série. Deus a pôs no mundo para revelar um amor límpido, sem invejas, sem quaisquer dúvidas. Amor com cheiro de ensopadinho de batata com salsicha, de tortilla espanhola, com gosto de ambrosia.
Tímida, odeia tirar fotos (deu pra perceber, né?). Até pouco tempo, quase não saía de casa. Hoje, não perde uma esticada ao shopping, um bom rodízio de camarão, um café com bolo. Até uma bebidinha desce suave.
E chocolate… Nossa, é uma draga a senhorinha de sotaque gaúcho, mãos firmes e vaidade jovial. No Natal, é pule de dez. Quase sempre dou a mesma caixa de bombom. E sempre, sempre é a mesma reação de felicidade: “Pra mim? Mas por que foi se incomodar comigo?”
É a única pessoa NO MUNDO que me chama pelo nome todo, e só ela tem autoridade para isso.
Luiz Felipe.
Dizem que avó deseduca o neto. Bobagem. É porque ela sabe que a alegria do mais novo refrigera a alma do mais velho. .
Avó é a única pessoa que sempre, sempre tem tempo pra nós.
Hoje, quando a vejo, gosto de dar muitos, muitos beijos. Beijos de amor, beijos de perdão pelos erros que cometi, beijos de oração para que Deus a mantenha do meu lado por muito tempo.
E hoje, quando saio de casa, tranco a porta com a chave, ouço lá no fundo ela me alertando.
No pensamento, eu respondo.
“Pode deixar, vó. E muito obrigado. Por você, eu vou ter cuidado ao atravessar”.