Olimpíada: a gente precisa, a gente merece

Que haja quebra de recordes, que haja mobilidade urbana razoável para todos, muitas histórias de superação contadas, confraternização de povos

Quem há de negar que o Rio está falido do ponto de vista econômico, com pires na mão para abocanhar qualquer esmola da União, com problemas crônicos na Saúde, com um clima de guerra civil em muitas regiões, com 56 PMs mortos só neste ano, com servidores raspando colher na parede para comer farinha, com os serviços públicos deteriorados. Enfim, com esse saco cheio superlativizado que estamos sentindo e que temos direito e razão de sentir. Afinal, quem se sente bem em estado de calamidade pública?

Quem há de negar que esse ataque de pelanca recente do alcaide não passa de um mexer de peças no tabuleiro político. Ou você acredita piamente no mimimi de Eduardo Paes? O descolamento da aliança com o Governo do Estado é necessário para catapultar Pedro Paulo, o perigote das mulheres, ao Palácio da Cidade. O mimimi de Paes ataca dois coelhos — desvincula Pedro Paulo do atrasado e enfadonho jeito de Dornelles e se lança para 2018, quando irá tentar o Palácio Guanabara. Bater em cachorro morto e posar de #xatiado é gesto natural na política. Cabral, Garotinho, Marcelo Alencar, Brizola, Chagas Freitas, Negrão de Lima, todos fizeram isso.

Quem há de negar que o discurso da imprensa, em geral, é míope a tantos problemas. De fiscalizadora e vigilante, boa parte dos veículos se tornou sócia no business olímpico. Eu assisto telejornais e me pergunto se há VTs ou videoreleases. Eu leio jornais e vejo mais declarações que investigações.

Vou além: não se pode afiançar com precisão que a Olimpíada trouxe prejuízos para o Rio, mas podemos garantir que o aumento de gastos, a abissal renúncia fiscal, sensível desaceleração na receita de tributos e forte queda de arrecadação dos royalties do petróleo fizeram o estado entrar em penúria.

Noves fora a Zuera, porque ela never end mesmo, ainda assim, não posso fazer coro com a turma do “tomara que não dê certo”, do “tomara que tenha um ataque terrorista”. Primeiro, porque quem torce pelo caos poderia se tratar, por suspeita de fobia social. Segundo, porque atletas olímpicos não têm culpa de nossos equívocos; terceiro, porque seremos a geração que vai testemunhar a Olimpíada, não apenas assistir. Sim, fizemos um pouco de tudo errado, mas sabe-se lá quando teremos uma nova oportunidade? Quarto, porque grandes eventos dão fôlego a atividades como comércio e turismo e reaquecem a economia.

Somos medalha de ouro em deixar tudo para última hora, nos comportamos como mecânico em pit stop em Fórmula 1: trocamos pneus rapidinho em matéria de improviso. Só que o bólido não passa de um calhambeque dirigido por algum Ademário.

Quinto, porque o problema com os governantes poderia ter sido resolvido lá atrás, num voto mais coerente, mais consciente, numa cobrança mais persistente e não em discurso de Facebook. Sexto, porque fizemos uma baita Copa do Mundo, uma baita Jornada Mundial da Juventude e adquirimos com louvor o certificado desse “curso intensivão em grandes eventos”. Somos medalha de ouro em deixar tudo para última hora, nos comportamos como mecânico em pit stop em Fórmula 1: trocamos pneus rapidinho em matéria de improviso. Só que o bólido não passa de um calhambeque dirigido por algum Ademário.

Sétimo, porque teremos a Paralimpíada, cuja mensagem não é apenas da superação do mais forte, do mais alto ou do mais rápido, mas daquele que transformou a deficiência em vitória na vida. E eu sei bem o que é isso.

A Zuera, você sabe, essa não acaba nunca

Não, minha animação não ocupa o lugar mais alto do pódio, minha empolgação está quase na mesma proporção que o Afeganistão em luta por medalhas. Mas não serei eu a torcer contra alguém que vive graças ao esporte. Que haja quebra de recordes, que haja mobilidade urbana razoável para todos, muitas histórias de superação contadas, confraternização de povos.

Que haja PAZ, principalmente.

Que a minha filha se inspire nesses atletas para ter disciplina, dedicação, e que ela aprenda que o mais importante realmente não é ganhar, mas se superar. Ser alguém melhor. Não do que os outros, mas do que a si mesma.

Sim, o Rio está maltratado, esculhambado, arrasado, zoado, com previsão de cenário ainda pior depois da Olimpíada. Mas eu quero muito que, assim como tivemos a Copa das Copas, tenhamos os Jogos dos Jogos.

A gente precisa. A gente merece.