Patacoadas em verde-amarelo

Tomamos de 7 x 1 e só aprendemos o lado mais nefasto da história alemã

Já é possível avaliar que a tarde de manifestações deste domingo foi pontuada por um cosplay ideológico-patriótico, uma indignação seletiva e um desejo de mudanças até a página dois.

Há, é evidente, um sentimento de revolta com o governo Dilma, um saco cheio superlativado por causa da corrupção, além da ojeriza ao descaso dos governantes de todas as esferas e poderes. Mas cada vez que uma onda verde-amarela (menor a cada protesto) pontilha as ruas, a aparente constatação de uma manifestação saudável por sua pacificidade revela seus tumores, que vão desde os braços estendidos de alguns, tais quais os membros da NSDAP, ao cocoricó em defesa da volta dos anos de chumbo. Sem falar nos lunáticos que pediram a volta de Sarney ou nos exercáveis que fizeram selfie com a PM paulista dias depois da maior chacina do estado.

Anauê pós-moderno ou caso de intervenção…psiquiátrica?

As manifestações deste domingo evocam seu melhor e pior. Seu melhor é que hoje os debates sobre ética, corrupção e política deixaram de ser uma conversa restrita, dirigida a poucos. Em todos os lugares e instituições tornou-se impossível não falar de Lava-Jato, Lula, Dilma, Cunha e Renan.

Só que essa boa notícia, num segundo momento, acaba esfarelada pelos arranjos preponderantes nos discursos: há mais bravata e mimimi sobre ideologias ultrapassadas e delírios reacionários (Bolsonaro vem aí, laiá laiá laiá…), buscas por um Salvador da Pátria (Moros e Calheiros), do que qualquer tentativa de consenso a partir dos dissensos.

Sim, a política não é uma equação binária, não lida com decisões de forma pusilânime, mas busca uma construção a partir dos múltiplos interesses. Apesar de todos os tensionamentos cotidianos, é assim que funciona num país que não brinca com a democracia, que respeita o resultado das urnas, e que não trata o governo como algo descartável, nem constrói movimentos de oposição com filosofia de marketing multinível. Isto posto, não é expulsando o PT da esfera pública que teremos um País melhor, mas é punindo corruptos — de todas as matizes — que poderemos começar a pensar em um país.

Volta antes, Jesus!

Infelizmente, quem deveria dar o primeiro exemplo — os eleitos democraticamente — acabam preferindo, de forma exclusiva, os holofotes da teatralidade política para fazer estelionato retórico com a boa-fé da turma. Pergunte a Eduardo Cunha — que se diz oposição ao governo — o que ele tem de melhor para oferecer.

Pergunte a Renan se sua ‘Agenda Brasil’ é realmente algo que pode tirar o Brasil da crise, ou se é a ‘xepa da feira’, como diz hoje o Elio Gaspari.

Pergunte a Dilma se mesmo trabalhando “diuturna e noturnamente (sic)”, como ela própria exclama, não seria hora de rever suas estripulias na área da economia. E retruque a presidente depois de responder, procurando saber se o ajuste fiscal é para poucos ou para todos.

E pergunte ao Feliciano… não, pera. Com ele não adianta. Você não precisa descer ao subsolo.

As manifestações de hoje — distantes do fato de que não há provas contra Dilma ou musculatura política da oposição capaz de carimbar um pedido de impeachment — expõem a realidade de um país sedento por vingança, e não por mudança. Somos sinceros em nossas indignações, mas desprovidos de cidadania. Nosso discurso é histriônico, não transformador. Nosso encantamento com o obscurantismo é cafona. Nosso reacionarismo é um flerte hitleriano, não uma agenda radical.

Chegará o momento em que a direita se verá frustrada porque todas as passeatas carna-coxinhas não culminaram com a intervenção militar tão sonhada, e os petistas vão se sentir vitoriosos porque a legenda completou quatro mandatos no poder.

Na verdade, carregarão um troféu de espuma.

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