Uma heroína chamada Lenimar*

Chego à casa de frente larga e fachada azul bebê já descascada. A tinta branca da grade das janelas tenta, mas não resiste à força da ferrugem. No quintal, entulho. Na garagem, sacos de entulho.

Bati palmas na entrada e matutava com meus botões a última vez em que havia feito isso. Um município como São Gonaçalo, com mais de 1 milhão de cidadãos, é populoso, mas não é cidade grande.

Lenimar chega. Cabelo longo e desarrumado caído ao ombro. Seu sorriso singelo e cândido me contagia. “Pode me chamar de Leni, por favor!” Brinco garantindo que — com ou sem o mar — estava feliz por ser tão bem recebido. Aqueles dois dedos de prosa acionaram meu alerta: ali haveria uma boa história a ser revelada. Pendurado na porta, um salmo. Um bom presságio.

Estava em São Gonçalo com minha equipe de gravação. Meu objetivo: capturar boas histórias que cercam uma louvável iniciativa do Judiciário fluminense — resolver a vida de pessoas que, por limitações físicas, mentais e/ou financeiras precisam ser interditadas (perdão pelo juridiquês) para serem cuidadas legalmente por outra pessoa.

Entrando na casa — bastante simples, mas arejada e confortável, com um sofá largo e castanho — encontro uma senhorinha bem miúda, de vestido cinza com retalhos na base e cabelos grisalhos. Mirando para o canto do cômodo, seus olhos eram estagnados. Serenos, mas inertes.

“Essa é sua mãe, Leni? É ela?”, procurando adivinhar quem seria interditado (odeio essa expressão…).

“Não, Felipe. Minha mãe vive assim, quietinha, às vezes sorri. É o Alzheimer. Mas não, não é ela”, esclarece.

Em seguida, passa pela mesma sala um rapaz moreno, calvo, cavanhaque fino, camisa do Avaí. Ele coça as mãos e me fita desconfiado.

“É ele, Leni?”, eu já desconfortável por repetir a pergunta.

“Também não, Felipe…”, responde rindo, percebendo minha facilidade em ruborizar pela pergunta torta que não gostaria de ter feito. “Meu irmão tem problemas mentais desde que nasceu, mas não é ele”.

Entramos no quarto. Lá estava a resposta. A primeira de uma revoada de tantas outras que já estava atiçado em saber.

Numa cama de casal, deitada, Lauana tinha apenas o rosto para fora, num final de manhã nada ameno nas terras pra lá de Niterói. O tubo preso ao pescoço ligava a outros. Ao seu lado, acarinhando, acalentando, uma jovem mais velha e parecida com ela. Na parede em frente à cama, o banner de uma Lauana sorridente com a camisa do Vasco e a frase: “Nós te amamos!”

Lauana sofre de um tipo incomum de esclerose e naquele dia não estava se sentindo bem. A irmã estava com gesso no pé. A imobilidade da perna contrastava com as mãos, que faziam cafuné na pequena. “Forcei demais na dança”, alegou.

Era Lauana quem precisava ser interditada. Enquanto a perita e a assistente social verificavam sua situação, sentei com Leni e chamei a equipe para gravar a entrevista.

Naturalmente, ela mesma se adiantou em contar sua vida vitoriosa.

“Essa casa é um presente de Deus. Morei numa favela aqui perto por muito tempo com minha mãe e meu irmão. Aos 45 anos, ele sempre apresentou as limitações mentais, mas passou boa parte da vida em convívio com as pessoas de uma Apae aqui perto. Até que no início desse ano, o tráfico, que sempre zombou dele, o estuprou. Isso mesmo... Ele ficou arredio, raivoso, a a doença da minha mãe piorou. Tivemos que vir pra cá. Quando chegamos, não tínhamos condições. Ainda não temos o que eu sonho, mas eu não desisto. Com a ajuda da minha igreja (ela é batista), e de espíritas de um centro aqui próximo, conseguimos no mutirão, nas doações, montar essa estrutura”, afirmou SEM SE EMOCIONAR.

Era como se todos aqueles problemas, para ela, fossem facilmente superados. E estavam sendo.

“E Lauana?”, foi tudo que eu pude perguntar…

“A família dela não tem condições de criar, somos todos muito pobres. Éramos amigos na favela. Ela teve que vir. Chegou com o corpo cheio de escaras, sem falar nada, anêmica. Hoje está melhorando muito”.

Já sem saber o que dizer — e torcendo para que Leni ficasse falando e falando enquanto minha equipe gravava sua linda história —ela ainda me apresenta Seu Geraldo. Um senhor cadeirante, negro, que jorrava alegria quando abraçado, feliz como bicho de pelúcia. “Meu painho”, derretia-se Leni. Morava ali porque havia sido abandonado pela única filha. A boa fama de Leni no bairro garantiu a ele uma cama, uma cadeira de rodas, um teto e o pão de cada dia.

A pergunta que me restou foi a mais simples. E a fiz porque pressentia a melhor resposta.

“De onde você tira toda essa força?”

“Felipe, como posso amar aquele que colocou sua vida por todos nós se eu não colocar a minha por alguém?”

Eu não consegui responder.

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